Faltando poucos minutos para às cinco da tarde, começo a juntar meus pertences, imaginando o trânsito caótico que teria que enfrentar até chegar na escola de Renata.
– Tem algum cliente para amanhã? – Maurício pergunta, sem tirar os olhos da tela do computador.
– Os que estão agendados estão na agenda.
Ele estende a mão.
– Seu Maurício, preciso ir. Ainda tenho que buscar minha filha na escola.
Ele me olha estreitando os olhos, com a expressão incrédula.
– Você pode chegar atrasada. Mas não pode se atrasar para buscar sua filha?
– Ela é uma criança – argumento.
– E você está trabalhando – Ele força um sorriso.
Me aproximo da mesa, abrindo na página da agenda do dia seguinte.
– Leia para mim, Gabriela.
Leio cada horário o mais calma que posso.
Quando termino, fecho a agenda, colocando a alça da bolsa em meu ombro.
– Tenha uma boa noite, senhor Maurício.
– Espero que não chegue atrasada amanhã.
Não respondo, invés disso, saio de cabeça baixa.
O ônibus da volta estava cheio como na ida, esvaziando apenas poucos pontos antes de eu descer.
Praticamente corro até a escola, após saltar na minha parada, encontrando a escola já fechada e Renata me esperando com a porteira.
– Obrigada. Deus abençoe – digo para a porteira que apenas sorri, antes de ir embora.
– Você demorou – Renata comenta quando começamos a andar na direção de casa.
– Eu sei.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
– Tenho lição de casa.
– Ajudo você.
– É de matemática.
Balanço a cabeça assentindo.
Estava quase escurecendo quando finalmente chegamos em casa.
– Olha quem chegou – diz vô Alceu, sentado diante da TV.
– Fiz um desenho pra você, biso – Renata tira uma folha um pouco amassada de dentro da mochila lilás.
– Ah, mais é muito bonito – diz vovô estreitando os olhos – Foi você mesmo que fez? – Ela assentindo sorrindo – Está de parabéns.
– Renata – Chamo, a fazendo me olhar de imediato – Para o banho. Agora.
– Ah, mãe, deixa eu descansar.
– Agora, Renata – Paro ao lado dele, afagando seu ombro – Oi, vô.
Ele fecha a cara, voltando a olhar para a televisão.
– Não devia ser tão dura com a menina.
Solto o ar dos pulmões, indo para a cozinha no intuito de começar a fazer o jantar.
Abro a geladeira notando as poucas verduras e legumes, mas principalmente a mistura que só daria para aquela noite.
– Não tem mais mistura, não é? – pergunto quando dona Marta entra na cozinha.
– Este mês o dinheiro m*l deu para pagar as contas e fazer alguns exames do seu avô.
– Vou resolver isto com as meninas – digo tirando o pote da geladeira.
– E como foi lá no estágio hoje?
– Como todos os dias, vô. Sempre com alguém precisando de um advogado.
– Logo será você que as pessoas irão procurar – diz sonhadora, afagando meu braço.
Como queria poder mostrar que era capaz e fazer todo o sacrifício valer a pena.
Só quer infelizmente me via sem muitas opções naquele escritório.
O jantar naquela noite foi o básico de todos os dias, o velho arroz, feijão e carne moída.
– Será que a Gio vai demorar? – Ela pergunta pouco depois de eu tirar os pratos da mesa para lavar.
– Pode deitar. Tranco tudo.
– Verifica se tá bem fechado, tá bom?
Balanço a cabeça assentindo.
Com um copo de água, ela deixa a cozinha, chamando em seguida meu avô para se deitar.
Era sempre a mesma rotina.
Pratos lavados e cozinha limpa, desligo a luz, encontrando Renata dormindo no sofá, após quebrar a cabeça com a lição de matemática enquanto eu fazia o jantar.
Depois de colocar ela na cama, volto para a sala, onde me coloco a esperar minhas irmãs em frente a TV.
Não demora para que Gio entre em silêncio em casa, respirando fundo ao se sentar no sofá.
– Ainda tem comida? – pergunta com os olhos fixos na TV, a expressão cansada.
– Guardei um pouco para você e a mistura acabou.
Para a alegria de dona Marta, Gio e Giulia havia optando também pela advocacia e sempre dizia com o maior orgulho que tinha três netas doutoras. Apesar de ainda não podermos lhe dar uma vida tranquila e confortável, éramos seu orgulho.
Gio havia conseguido fazer uma parceria com uma amiga e alugado uma sala em um prédio na zona leste. Aos poucos, conseguiam clientes e pagar o aluguel e a conta de energia.
Assim como Giulia que atuava na profissão, porém precisava trabalhar como vendedora em uma loja de sapatos para conseguir pagar a especialização que queria.
- Vai dormir, Gabi. Amanhã irei dar um jeito na mistura.
Minha vontade era dormir ali mesmo, por todo o cansaço físico e mental que estava sentindo. Como sabia que acordaria toda dolorida, optei por dormir na minha cama.