Capítulo 3

832 Words
Faltando poucos minutos para às cinco da tarde, começo a juntar meus pertences, imaginando o trânsito caótico que teria que enfrentar até chegar na escola de Renata. – Tem algum cliente para amanhã? – Maurício pergunta, sem tirar os olhos da tela do computador. – Os que estão agendados estão na agenda. Ele estende a mão. – Seu Maurício, preciso ir. Ainda tenho que buscar minha filha na escola. Ele me olha estreitando os olhos, com a expressão incrédula. – Você pode chegar atrasada. Mas não pode se atrasar para buscar sua filha? – Ela é uma criança – argumento. – E você está trabalhando – Ele força um sorriso. Me aproximo da mesa, abrindo na página da agenda do dia seguinte. – Leia para mim, Gabriela. Leio cada horário o mais calma que posso. Quando termino, fecho a agenda, colocando a alça da bolsa em meu ombro. – Tenha uma boa noite, senhor Maurício. – Espero que não chegue atrasada amanhã. Não respondo, invés disso, saio de cabeça baixa. O ônibus da volta estava cheio como na ida, esvaziando apenas poucos pontos antes de eu descer. Praticamente corro até a escola, após saltar na minha parada, encontrando a escola já fechada e Renata me esperando com a porteira. – Obrigada. Deus abençoe – digo para a porteira que apenas sorri, antes de ir embora. – Você demorou – Renata comenta quando começamos a andar na direção de casa. – Eu sei. Ficamos em silêncio por alguns segundos. – Tenho lição de casa. – Ajudo você. – É de matemática. Balanço a cabeça assentindo. Estava quase escurecendo quando finalmente chegamos em casa. – Olha quem chegou – diz vô Alceu, sentado diante da TV. – Fiz um desenho pra você, biso – Renata tira uma folha um pouco amassada de dentro da mochila lilás. – Ah, mais é muito bonito – diz vovô estreitando os olhos – Foi você mesmo que fez? – Ela assentindo sorrindo – Está de parabéns. – Renata – Chamo, a fazendo me olhar de imediato – Para o banho. Agora. – Ah, mãe, deixa eu descansar. – Agora, Renata – Paro ao lado dele, afagando seu ombro – Oi, vô. Ele fecha a cara, voltando a olhar para a televisão. – Não devia ser tão dura com a menina. Solto o ar dos pulmões, indo para a cozinha no intuito de começar a fazer o jantar. Abro a geladeira notando as poucas verduras e legumes, mas principalmente a mistura que só daria para aquela noite. – Não tem mais mistura, não é? – pergunto quando dona Marta entra na cozinha. – Este mês o dinheiro m*l deu para pagar as contas e fazer alguns exames do seu avô. – Vou resolver isto com as meninas – digo tirando o pote da geladeira. – E como foi lá no estágio hoje? – Como todos os dias, vô. Sempre com alguém precisando de um advogado. – Logo será você que as pessoas irão procurar – diz sonhadora, afagando meu braço. Como queria poder mostrar que era capaz e fazer todo o sacrifício valer a pena. Só quer infelizmente me via sem muitas opções naquele escritório. O jantar naquela noite foi o básico de todos os dias, o velho arroz, feijão e carne moída. – Será que a Gio vai demorar? – Ela pergunta pouco depois de eu tirar os pratos da mesa para lavar. – Pode deitar. Tranco tudo. – Verifica se tá bem fechado, tá bom? Balanço a cabeça assentindo. Com um copo de água, ela deixa a cozinha, chamando em seguida meu avô para se deitar. Era sempre a mesma rotina. Pratos lavados e cozinha limpa, desligo a luz, encontrando Renata dormindo no sofá, após quebrar a cabeça com a lição de matemática enquanto eu fazia o jantar. Depois de colocar ela na cama, volto para a sala, onde me coloco a esperar minhas irmãs em frente a TV. Não demora para que Gio entre em silêncio em casa, respirando fundo ao se sentar no sofá. – Ainda tem comida? – pergunta com os olhos fixos na TV, a expressão cansada. – Guardei um pouco para você e a mistura acabou. Para a alegria de dona Marta, Gio e Giulia havia optando também pela advocacia e sempre dizia com o maior orgulho que tinha três netas doutoras. Apesar de ainda não podermos lhe dar uma vida tranquila e confortável, éramos seu orgulho. Gio havia conseguido fazer uma parceria com uma amiga e alugado uma sala em um prédio na zona leste. Aos poucos, conseguiam clientes e pagar o aluguel e a conta de energia. Assim como Giulia que atuava na profissão, porém precisava trabalhar como vendedora em uma loja de sapatos para conseguir pagar a especialização que queria. - Vai dormir, Gabi. Amanhã irei dar um jeito na mistura. Minha vontade era dormir ali mesmo, por todo o cansaço físico e mental que estava sentindo. Como sabia que acordaria toda dolorida, optei por dormir na minha cama.
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