Capítulo 16: Luca Grecco

633 Words
O escritório estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pelo abajur sobre minha mesa e pelo brilho distante das luzes da propriedade. O silêncio era quebrado apenas pelo leve farfalhar das páginas que Matia folheava, sentado à minha frente. Pietro, como sempre, mantinha-se em pé diante das janelas, os braços cruzados, observando o nada. Eu sabia que eles estavam insatisfeitos. Podia sentir isso na tensão que pairava no ar, na maneira como Matia franziu a testa ao ler o relatório em suas mãos, no modo como Pietro apertava a mandíbula, ponderando algo que ainda não havia dito. — Você contou para ela — a voz de Matia cortou o silêncio, carregada de censura. Ele ergueu os olhos para mim, um brilho de frustração no olhar. — O que diabos você estava pensando, Luca? Recostei-me na cadeira, cruzando os dedos sobre a mesa. Eu já esperava essa reação. — Eu estava pensando que manter Elena no escuro só a deixaria mais determinada a descobrir tudo por conta própria — respondi com calma. — E sabemos que ela não é do tipo que recua. Matia bufou, jogando o relatório sobre a mesa. — Justamente por isso. A curiosidade dela pode nos trazer problemas. Se ela começar a cavar onde não deve, pode colocar tudo a perder. Você sabe disso melhor do que ninguém. Pietro se virou devagar, finalmente se pronunciando. — Ou podemos transformar isso em vantagem. Matia arqueou uma sobrancelha, claramente cético. — Vantagem? Como, exatamente? — Ele riu, sem humor. — Você quer fazer dela o quê? Nossa aliada? Uma espiã? — Exatamente isso. — Pietro se afastou da janela, vindo para mais perto. Seu tom era firme, seguro. — Se Luca confia nela a ponto de ter contado sobre o plano, talvez possamos usar essa confiança a nosso favor. Em vez de vê-la como uma ameaça, podemos transformá-la em um recurso valioso. A ideia não me era estranha. Eu também já havia pensado nisso, mas Matia era mais difícil de convencer. — Queremos testar a lealdade dela? — Matia perguntou, agora mais sério, sem a ironia de antes. Assenti, sabendo que era a única maneira de chegarmos a um consenso. — Sim. Vamos dar a ela uma chance. Se Elena for esperta, entenderá o recado e mostrará que está do nosso lado. Se não… — Deixei a frase no ar. Todos sabíamos o que isso significava. O silêncio se instalou entre nós, pesado. Matia, mesmo relutante, acenou lentamente com a cabeça. — Tudo bem. Mas não vamos cometer o erro de subestimá-la. Pietro sorriu de lado. — Acho que esse é o menor dos nossos problemas. — Se vamos testar Elena, por que não usá-la para algo realmente útil? — Matia foi direto. — Podemos fazer com que ela descubra informações sobre o pai. Os passos dele, os contatos, tudo que nos ajude a prever o que ele fará a seguir. Pietro inclinou a cabeça, considerando a ideia. Mas eu já sentia a resistência dentro de mim. — Não. — Minha resposta saiu firme, e todos os olhares se voltaram para mim. Respirei fundo antes de continuar. — Não vou transformá-la em uma arma. Matia cruzou os braços. — Não se trata de transformá-la em algo. É apenas uma oportunidade. Se ela realmente quer se envolver nisso, que seja de forma útil. — E se ela se machucar? — Minha voz saiu mais áspera do que pretendia. — Eu a trouxe para esse mundo, mas não para jogá-la no fogo. Elena não é como nós. Ela não foi criada para isso. Pietro soltou um suspiro e voltou a olhar pela janela, enquanto Matia apenas me observava, sua expressão indecifrável. — Então talvez seja hora de descobrir se ela pode ser. Porque, Luca, goste ou não, ela já está envolvida. E você sabe disso.
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