Foi a primeira vez que Yoongi banhou Minhyuk sozinho, e o pior de tudo era saber que aquela também seria a última. Penteou os cabelos finos e negros do menino da forma mais lenta possível, e aliás, tudo naquela manhã foi feito de forma lenta, como se seu subconsciente quisesse aproveitar cada segundo que ainda restava ao lado do pequeno Lee.
Minhyuk estava triste, seus olhos demonstravam toda a sua dor, eram os mesmos olhos que Yoongi viu na noite de fria de sexta-feira. E aquela manhã estava mesmo congelante, tão frio que ambos poderiam jurar que nevaria a qualquer momento. E depois de bem alimentados, os dois agora permaneciam sentados no sofá, Minhyuk segurava aquela mesma fotografia que havia sobre a mesinha de centro.
— Hyung, quem é esse moço? — o menino perguntou curioso, por mais que quisesse apenas ouvir a voz do mais velho.
— Alguém especial, Minhyuk, só... Alguém. — os olhos de Yoongi perderam o foco, Minhyuk não entendia, mas aquilo era bem mais do que uma simples fotografia, e aquele rapaz era bem mais do que só alguém especial.
Mas disso, o pequeno Lee jamais saberia, jamais teriam aquela conversa silenciosa que Yoongi teve com sua própria mente, onde milhares de frases ecoavam explicando para si mesmo o quanto o rapaz da foto era alguém... especial.
Hoseok chegou dois minutos depois, seus olhos estavam tão opacos e tristes quanto os dos demais, por mais que seus lábios ainda sustentassem aquele mesmo sorriso bonito. Yoongi se perguntava como alguém poderia sorrir em uma situação como aquela. Mas no fundo, entendia Hoseok, o Jung só queria fazer com que Minhyuk ficasse confortável, por mais que fosse preciso se esforçar para sorrir.
— Temos que ir. — foi a única coisa que o mais alto disse.
Minhyuk correu até o mesmo estendendo seus braços como uma criança que pede colo. O Jung acabou cedendo rapidamente e erguendo o menino do chão para o colocar em seu colo e sair com o mesmo. Yoongi se deu a oportunidade de sorrir pequeno, passou pela porta a trancando logo em seguida.
Ambos ficaram em silêncio durante todo o trajeto, um silêncio tão absurdo e pesado que chegava a arrancar qualquer sentimento bom que ainda existisse. Minhyuk segurava as pontas da camiseta de tão nervoso que estava, queria estar em casa, queria estar brincando com seus hyungs e muitas almofadas, estar ali era a pior coisa do mundo.
Minhyuk estava apavorado.
O caminho até a sala da agente do juizado foi o pior caminho que ambos já percorreram, ainda vivendo naquele silêncio perturbador. Minhyuk segurava na barra da calça de Hoseok, tão próximo ao rapaz que mais parecia se esconder de algo.
— Eu vou entrar para falar com ela, vocês ficam aqui.
Através da porta de vidro a mulher os avistou, e pela sua expressão pareceu reconhecer o pequeno Lee. Fez sinal para que entrassem, mas apenas Yoongi entrou. Hoseok colocou o menino nos braços em um sinal de proteção, era como se sentisse medo de que a qualquer momento alguém pudesse arrancá-lo e leva-lo para longe.
Algo que infelizmente acontecia, odiando isso ou não.
O Min, que já estava gelado de tão nervoso, pareceu gelar mais ainda estando em contato com a cadeira diante da mulher que aparentava estar na casa dos 30, sua expressão era tão dura que chegava a assustar. Yoongi precisou respirar fundo antes de começar a falar.
— Sou Min Yoongi, falei com a senhora ao telefone na sexta-feira. — tentou parecer calmo, mas a voz falhava ao sair da garganta.
A mulher parecia perceber o estado do rapaz, mas não comentou nada sobre isso.
— O garoto se chama Lee Minhyuk, não se chama? — ela parecia decidida a ir direto ao ponto, ainda mexia em pilhas de papel indicando indiretamente o quanto era alguém ocupada — Estamos procurando por ele há alguns dias, seus pais foram encontrados mortos em um incêndio e os vizinhos informaram a respeito de um filho, e depois de vasculharem nos destroços os bombeiros acharam uma foto da família com o garoto.
Uma foto foi estendida diante do Min, que a segurou por alguns instantes, não havia dúvidas, aquele menino que sorria na foto era Minhyuk, e aquele casal jovem e sorridente se tratava de seus pais. Hoseok e ele estavam certos em suspeitar de um incêndio, e certos ao acreditarem que o pequeno Lee já sabia da morte dos pais, era tudo uma questão de tempo até que todas as cartas fossem jogadas na mesa.
— Entramos em contato com alguns parentes mais próximos, e infelizmente ninguém quer a guarda do garoto, sendo assim, a guarda legal dele passa a ser do Estado, Minhyuk será levado a um orfanato e entregue para adoção.
E essa era a última peça que faltava para que o quebra-cabeças fosse resolvido, o pequeno Lee ficou vagando nas ruas por saber que ninguém o queria. Que tipo de família rejeita uma criança? Minhyuk era um doce de menino, e aparentemente não havia nada de errado com ele. Yoongi não conseguia entender os motivos que levavam seus parentes a rejeitá-lo.
— Vocês têm dois minutos para se despedirem dele, irei leva-lo para o orfanato onde ficará nos próximos meses, entrarei em contato para enviar o endereço, acredito que queiram visita-lo.
Por mais que a maioria de suas expressões fossem duras e automáticas, o Min sentia que toda aquela dureza fazia parte do personagem, ela não podia ceder a pressões emocionais, afinal, era seu trabalho, precisava entregar o menino a quem tinha poder sobre ele.
O Min levantou-se de cadeira e saiu da sala. Hoseok havia acabado de colocar Minhyuk no chão novamente, e o menino agora parecia ainda mais amedrontado, segurava seus dedos com tanta força na calça do Jung que os nós chegavam a ficar brancos.
— Minhyuk. — Yoongi agachou-se diante do garoto — A nossa amiga vai te levar pra um lugar agora, mas você não precisa ficar com medo, ela vai te levar pra um lugar cheio de outras crianças, onde você vai poder brincar com elas, fazer novos amigos, e um dia um casal bem legal vai levar você pra morar com eles. — o Min poderia até mesmo esconder de Minhyuk o quanto estava sofrendo, mas o rapaz ao seu lado claramente percebia o quanto estava sendo difícil dizer adeus.
Para sermos mais exatos, Yoongi estava engolindo o choro.
— Mas eu não quelo molar com outlo casal, eu quelo molar com vocês. — a expressão tristonha do menino tornava aquele momento ainda mais difícil para ambos.
— Me perdoa, Minhyuk, mas as coisas não são tão simples.
— Meu papai e minha mamãe me deixalam, hyung, você vai me deixar também? — a pergunta era de partir por completo o coração, deixando Yoongi tão sem reação que foi preciso que Hoseok se agachasse para completar aquela conversa.
O ruivo sorriu, e foi o sorriso mais opaco que Yoongi já o viu dar.
— Ninguém aqui está te deixando, Minhyuk, nós vamos te visitar, ainda vamos brincar muito juntos. — o Jung tentou passar toda a sua confiança, por mais que sentisse que quase nada mudaria.
— Mas eu tenho medo.
— Olha, tenho um presente pra você. — o ruivo tirou de si mesmo um colar simples com uma pedra vermelha amarrada na ponta, aparentava ser velho e gasto, algo que o mesmo carregava há muitos anos — Esse colar é mágico.
O Jung colocou o colar no pescoço do menino, que olhava curioso para a pedra vermelha amarrada na ponta.
— Sempre que você ficar com medo, você aperta essa pedra com muita força e pede pra não ficar mais com medo, e se você pedir com bastante vontade, o seu medo vai todo embora.
O menino segurou a pedra, seus olhos já enchiam de lágrimas, todavia, por mais que estivesse em pânico por dentro, o pequeno Lee balançou em afirmação, logo em seguia rodeou seus bracinhos em redor dos pescoços de ambos os abraçando, um abraço que foi correspondido imediatamente. Hoseok não chorou, mas a luta de Yoongi contra as lágrimas dava para ser vista de longe.
Min Yoongi se faria de forte novamente, como sempre fez.
— O tempo de vocês acabou, já está na hora. — a mulher, que acabara de sair da sala, anunciou.
Mas o menino abraçou ainda com mais força.
— Você precisa ir, Minhyuk. — o Min sussurrou se soltando do garoto e levantando-se logo em seguida.
Hoseok fez a mesma coisa, mas isso não significava que o garoto se entregaria tão fácil, o pequeno Lee se agarrou à perna do Min com todas as suas forças, despencando-se em um choro compulsivo. Seu rosto ficou vermelho rapidamente pela intensidade de suas lágrimas, além de que também começara a gritar desesperado.
— Hyung, não me abandone! — o menino implorava ainda agarrado na perna do rapaz.
A mulher, que já presenciara esse tipo de cena centenas de vezes, perdeu a paciência e segurou as mãos do menino o obrigando a soltar-se do Min, foi preciso que a mesma colocasse o menino no colo para poder tirá-lo de perto dos dois rapazes. O garoto chorava ainda mais forte, tornando tudo ainda mais dramático com seus gritos carregados de chantagem emocional.
— Hyung, não deixa ela me levar! — Minhyuk continuou a berrar, chutava e se debatia nos braços da mulher tentando a todo custo se soltar dela e fugir — Hyung, não me abandone! Hyung, Hyung!
Yoongi teve que ser forte para não sair correndo e tomar Minhyuk de volta em seus braços e fugir com ele. Estava quase desabando, a única coisa que lhe dava forças naquele momento era a mão discreta de Hoseok em seu ombro, de uma forma sutil o mais novo lhe passava um pouco de conforto.
A mulher sumiu com Minhyuk depois de atravessar uma porta, e de forma distante e abafada os dois ainda podiam ouvir o menino gritando o mais alto que podia, até o momento em que finalmente a voz se perdeu. Agora era oficial, Minhyuk não era mais seu, ele havia partido para sempre.
— Me leva pra casa, por favor, não estou com cabeça pra trabalhar hoje. — foi a única coisa que o menor disse, virou as costas e fez seu caminho para fora daquele lugar.
Hoseok respeitou seu silêncio durante todo o caminho, Yoongi apenas olhou através da janela, completamente preso em seus pensamentos, era como se parte de uma felicidade houvesse sido construída, e depois derrubada da forma mais grotesca possível. Por fora, Min Yoongi permanecia sem expressão, mas por dentro, estava completamente destruído, como um prédio sendo atingido por uma bola de destruição.
E o Jung podia ver isso, Yoongi estava m*l, e da pior forma possível, o Min raramente criava laços, e ter esses laços arrancados assim tão rápido era a pior coisa que poderia lhe acontecer, e de certa forma Hoseok sentia como se precisasse confortá-lo, mostrar que ainda havia alguma esperança, e que tudo ainda podia ser resolvido.
Mostrar aquele não precisava ser o fim.
O acompanhou até a porta de seu apartamento, Yoongi a destrancou e entrou em casa, sendo seguido pelo mais alto, que passou fechando a porta atrás de si. O Min ouviu o barulho da porta se fechando e virou para encarar o Jung, que permanecia parado de costas para a mesma.
— Você não tem que...
— Não precisa ser forte o tempo todo, Yoongi, se você chorar ninguém vai rir de você. — essas foram as palavras do Jung, que o encarava com aquele sorriso pequeno, aquele mesmo sorriso que ele abria sempre que queria confortar alguém — Eu sou seu amigo, não sou? Amigos compartilham sentimentos.
Amigos compartilham sentimentos, foram tantos anos guardando seus sentimentos para si mesmo que Yoongi não sabia mais como se fazia isso. Tudo o que ele queria era poder abraçar alguém e chorar, chorar tudo o que havia guardado em seu peito pelos últimos anos. E foi isso que fez, finalmente se deixando levar pela dor, o Min abraçou o mais novo pela cintura e se permitiu encostar a cabeça em seu peito e chorar.
Um choro que havia começado fraco e envergonhado, com pequenas lágrimas molhando a roupa do Jung, e que aos poucos foi ganhando mais força, logo se transformando em um choro desesperado, onde as mãos do menor seguravam com força o tecido do grosso casaco e o amassava. Hoseok o abraçou de volta e acariciou seus cabelos azulados com uma das mãos.
Não havia relógio no mundo que contasse quanto tempo aquilo durou, poderiam ter sido segundos, minutos ou até mesmo horas, a única coisa que se sabe é que Min Yoongi chorou aquilo que queria chorar, enquanto sua mente reproduzia um filme não somente com as imagens de Minhyuk, mas com imagens de todas as pessoas que já amou e perdeu.
Aquilo era difícil, doloroso até, mas Yoongi finalmente podia admitir o quanto era teimoso, e o quanto ter se proibido de chorar lhe fez m*l, todas aquelas lágrimas saiam como pequenos gritos de liberdade, aquela criança havia entrado em sua vida para transformar e destruir aquilo que havia de r**m dentro de si, e Yoongi não podia perde-lo dessa maneira.
Não podia desistir de lutar sem nem ter entrado na disputa.
— Hoseok. — subitamente se afastara do maior, os olhos completamente inchados e vermelhos agora encaravam o mais alto com uma expressão decidida — Eu quero adotar Minhyuk.