Yoongi se sentia um i****a por ter esquecido algo tão importante, e por mais que tivesse protestado muito consigo mesmo, acabou tento que ir bater na porta do seu vizinho. Não era tão tarde assim, mas de qualquer forma haveria a possibilidade de Hoseok estar dormindo, o Jung poderia muito bem ser esse tipo de pessoa organizada e saudável que dormia cedo para ter uma boa noite de sono.
E quando a porta se abriu o Min teve certeza disso, não só apenas pelos cabelos bagunçados e a cara de sono, mas também pelo detalhe mais constrangedor a ser percebido. Hoseok estava apenas de cueca e camisa. Ficar envergonhado e desviar o olhar foi a primeira coisa a ser feita, Yoongi não imaginava que o encontraria dessa maneira, quer dizer, estava frio, ele deveria estar vestido com mais roupas.
— Ah, oi. — Yoongi tentou se comunicar, da forma mais embaraçada possível — Eu deixei minhas coisas no seu carro, se importaria de ir comigo buscar? É que... — seus olhos teimavam em descer e olhar para onde não deveriam, mas não poderia se culpar, qualquer um se perderia olhando para as pernas perfeitas do Jung — São pra amanhã.
O mais alto mexeu seus ombros como quem tentava acordar, ainda estava entorpecido pelo sono interrompido, e demorou um pouco até que seu corpo reagisse e fizesse alguma coisa. Sumiu por dois segundos, e depois reapareceu com a chave do carro em mãos, o pior de tudo é que ele saiu de cueca mesmo. Yoongi não queria comentar, mas também não queria que ele andasse por aí dessa maneira, alguém poderia ver aquela cena e pensar coisas erradas.
Todavia, quando percebeu, o Jung já havia entrado no elevador.
Evitou ao máximo olhar pra ele, mas a medido que o tempo passava, e o elevador não abria, mais difícil ficava. Hoseok era um homem bonito e atraente, olhar para ele e se perder seria algo comum, ao mesmo tempo que o fazia se sentir menor. Por quanto tempo essa sua mania o atormentaria? Era como se não conseguisse confiar em sua própria aparência, e quanto mais olhava para Hoseok e notava todos os seus detalhes magníficos, mais acreditava que nunca seria o suficiente para ele.
A porta do elevador se abriu no subsolo, onde ficava o estacionamento do prédio, e por sorte não havia ninguém lá, estava frio, realmente frio, e ver Hoseok andar quase sem roupas e descalço estava o deixando agoniado. Ou o Jung era muito resistente ao frio, ou ainda não havia acordado completamente, e seu corpo caminhava de forma automática até o carro.
Depois de Yoongi pegar suas coisas, os dois voltaram para dentro do prédio. E foi dentro do elevador que o Min finalmente juntou coragem o suficiente para se manifestar diante da situação constrangedora em que se encontravam. E no fim das contas, precisava falar.
— Não está com frio?
Hoseok demorou até responder.
— Estou acostumado a andar assim. — o Jung finalmente abriu a boca, e era estranha ver ele calado.
Ambos saíram do elevador. Yoongi segurava firme sua papelada, enquanto Hoseok o observava tentar entrar em casa, claramente o Min estava atordoado, quem o olhasse veria o quão nervoso estava. As coisas pioravam para o seu lado, pioravam porque Hoseok sabia o motivo do rapaz estar tão nervoso, e tinha que admitir que estava se divertindo com aquilo. Yoongi não precisava expressar seus sentimentos, todos os seus atos entregavam o que ele sentia.
E foi por isso que o seguiu, parando ao seu lado e encarando a forma desajeitada que as mãos ocupadas do menor abriam a porta. Yoongi ficava cada vez mais nervoso, e sua mente criava cada vez mais teorias com a presença de Hoseok ao seu lado. Entrou na casa pensando em se livrar daquele olhar, mas o Jung entrou junto.
— Você não vai pra casa? — do fundo do seu coração, Yoongi queria ter sido grosso, pelo menos só daquela vez queria ter sido o Yoongi que quase sempre era, todavia, sua respiração ficava pesada ao admirar aquele corpo.
— Não estou mais com sono. — o Jung respondeu passando por ele e indo até o sofá.
Yoongi ficou parado vendo o mais alto se acomodar, quase como se fosse o dono do lugar. E se parasse para analisar, Hoseok estava passando tempo demais em sua casa, e em breve acabariam se tornando o assunto do prédio. As velhas fofoqueiras precisavam de um assunto, e o que seria melhor do que especular um caso homossexual sem sentido nenhum que poderia muito bem já estar rolando entre os dois?
O Min acabou se sentando perto do mais alto, que fez questão de se aproximar mais ainda. Isso só podia ser brincadeira, Hoseok estava fazendo aquilo de propósito. Espalhou os papéis sobre a pequena mesa de centro, tentando de alguma forma reorganizar seus pensamentos, por mais que só conseguisse focar no homem sentado ao seu lado. Aquilo estava começando a ficar cada vez mais difícil.
— Eu posso ajudar você. — aquilo não foi uma pergunta, ele estava se oferecendo.
— Você não entende nada dessas coisas.
— Posso ficar aqui e te fazer companhia, então?
— Você tem que ficar assim?
— Assim, como?
Era de propósito, Yoongi teve certeza. Ele estava fazendo aquilo de propósito apenas para o tirar do sério, e realmente estava conseguindo, Yoongi já estava a beira de ter um colapso. Queria expulsar Hoseok dali, queria reorganizar sua cabeça, queria ter paz e fazer seu trabalho. Mas ao mesmo tempo queria que o maior ficasse, queria sua companhia, estando vestido ou não. Então isso é estar apaixonado por alguém?
Por muito tempo seu coração esteve fechado, ao ponto de não sentir mais nada por ninguém, e começava a achar que era injusto ter se apaixonado tão rápido assim por seu vizinho. Aquilo só podia ser bruxaria, Hoseok o estava dominando, o deixando confuso, e ao mesmo tempo sedento por ele. E sempre que o rapaz se aproximava, uma briga interna se formava, onde o Min lutava contra sua vontade de fugir, e ao mesmo tempo contra sua vontade de se entregar.
— Você pode vestir uma calça? — finalmente conseguiu falar, ainda desviando olhar e focando apenas nos papéis, se olhasse para Hoseok novamente acabaria perdendo todo o autocontrole que lutava para manter.
O Jung deslizou uma de suas mãos pela parte interna de suas coxas, Yoongi acabou acompanhando com os olhos, sentia sua boca começar a salivar, e o ambiente ficar quente como se alguém aumentasse a temperatura do aquecedor manualmente.
— Te incomoda que eu fique assim?
— Na verdade. — mordeu a parte interna de sua bochecha — Me incomoda sim, vá se vestir, por favor.
— Por que te incomoda?
Nessa altura Yoongi já estava começando a ter certeza de que aquilo fazia parte de algum discurso ensaiado que o Jung tinha, algo que fazia parte de seus hábitos de sedutor. Era proposital, Hoseok sabia exatamente o que estava fazendo, a voz sussurrada, os movimentos do corpo, tudo fazia parte de seus planos de enlouquece-lo. O que fazia o Min chegar a outra conclusão:
Hoseok sabia o que ele sentia.
— Não precisa pensar em tudo o tempo todo, eu nunca brincaria com você.
— Está brincando agora.
Hoseok ajoelhou-se no chão, arrastando-se até estar bem diante dos olhos de Yoongi, que ainda estava sentado no sofá, apoiou-se nas coxas do Min e esticou-se até parar a poucos centímetros do rosto do rapaz. Yoongi olhava para tudo, menos para o vizinho, e ainda não entendia no que aquilo os levaria.
— E quem te disse isso? — o mais alto sussurrou, o hálito quente fervia sua pele, Yoongi sentia suas pernas amolecerem e sua consciência gritava, gritava desesperada, algo dentro de si se debatia, queria fugir, e também queria ficar ali.
— Hoseok, eu não quero ser mais um.
— Está duvidando da minha capacidade de gostar de verdade de alguém? — sempre com uma resposta na ponta da língua, o encurralando cada vez mais, literalmente.
— Não mereço alguém como você, eu sou um covarde. — foi a coisa mais difícil que já falou para alguém, estava se diminuindo, por mais que acreditasse falar a verdade. Sua confiança estava morta, morreu há dois anos atrás, e parecia não ter chances de ressurreição.
Mas até quando isso o atormentaria? Até quando o seu passado o deixaria daquela maneira? Precisava seguir em frente, mas a cada dia que se passava parecia ser impossível, e por mais que tivesse plena certeza de estar a nutrir sentimentos por Hoseok, essa sua falta de fé o fazia querer desistir, e guardar esse sentimento para si mesmo. Não merecia Hoseok, e Hoseok não merecia ter que lidar com alguém assim.
— Não diga isso de si mesmo. — o ruivo repousou seu dedo indicador sobre os lábios finos do menor, Yoongi estremeceu pelo toque — Você é perfeito da maneira que é, e ninguém pode dizer o contrário.
— Quando eu me tornei tão patético? — Yoongi desvirou seus olhos para seu colo, se sentia ainda pior, seu complexo de inferioridade piorava a cada segundo, precisava de ajuda, mas era covarde demais para procurar alguém. Queria estar com aquele homem. Ah, como queria! Mas seu medo o impedia.
Sua mente estava uma bagunça.
— Você não é patético, só está cansado de se fazer de forte. — uma das mãos do Jung subiu até alcançar o rosto pálido do menor, que estava frio, sendo pelo clima ou por seu nervosismo — Me deixe ser o seu porto seguro, Yoongi, me deixe ficar ao seu lado, e ser bem mais do que um simples amigo.
O rosto de Hoseok se aproximava ainda mais, Yoongi sentia seu coração acelerar ainda mais, e tinha quase certeza de que o maior podia ouvir as batidas. A boca do ruivo se entreabriu, ele o beijaria. Mas sua covardia o fez voltar atrás, sua mão se levantou e se colocou entre ambas as bocas, impedindo Hoseok de se aproximar mais.
— Eu tenho medo, Hoseok, não quero me machucar mais uma vez.
— Não tenho a menor intenção de te machucar. — o maior tirou a mão do Min e entrelaçou seus dedos aos dele, beijando as costas da mão do mesmo logo em seguida, Yoongi admirou seu ato romântico, enquanto repetia mil vezes em sua mente que aquilo poderia ser verdadeiro, que poderia confiar — Me deixe entrar na sua vida, me deixa cuidar de você.
— Mas e se...
— Sem nenhum “e se”. — Hoseok abriu um daqueles seus sorrisos.
Maldito sorriso.
Aquele sorriso fazia seu coração derreter, Yoongi se via sem saída quando aquele sorriso era aberto, ele era tão perfeito. Maldito Jung Perfeito Hoseok! Por que tinha que ser assim? Por que justamente alguém que conseguia ser extremamente perfeito? Aquilo era injusto!
— Só vou continuar com a sua permissão, se me pedir para parar, eu desisto de tentar fazer com que o “eu e você” se torne um “nós”. — ainda muito perto, Hoseok estava a menos de dois centímetros de distância — Me dê sua permissão, Yoongi.
O silêncio durou quase um minuto inteiro, Yoongi congelou com seus próprios pensamentos, encarava os olhos do Jung ali tão próximos, a boca extremamente chamativa, e um compilado de momentos ao seu lado viam em forma de filme em sua cabeça. Continuar ou parar? Ser covarde ou corajoso? Eram escolhas simples, e até mesmo obvias, se seu medo não opinasse.
Queria Hoseok.
Queria ser feliz novamente.
Queria beija-lo.
Queria que Hoseok entrasse de uma vez em sua vida.
— Eu permito, Hoseok, eu permito você na minha vida.
Fechou os olhos e esperou até sentir os lábios do Jung se chocarem contra os seus, para lentamente abrir sua boca e dar passagem para um beijo mais intenso. A boca de Hoseok era quente, quente e acolhedora, e beija-lo era como quebrar uma maldição imposta por si mesmo, era como gritar mudo, era ligar um interruptor que mantinha seu amor próprio apagado, era como dizer para seu próprio coração “eu posso amar alguém novamente”.
O Jung estava sendo respeitoso, não o tocou além da conta em momento algum, suas mãos permaneciam apenas em seu rosto e nuca, o deixando livre para fazer o que quisesse. Yoongi se sentiu seguro finalmente, podendo admitir para si que aquele beijo era o que mais queria para se esquentar naquela noite fria.
E quando Hoseok o soltou, mesmo estando envergonhado, permaneceu ali, com ambas as testas apoiando uma a outra, encarando-se ali de perto, dizendo de forma silenciosa “eu ainda estou aqui por você”.