Gisele estava acostumada a chegar e encontrar com Ricardo a esperando, mas naquele dia o transito parecia pior do que nos outros dias e acabou demorando muito para chegar em casa, ainda assim acreditava que podia vê-lo e comprou jantar pra dois na esperança de que ele estivesse esperando, um vinho pra ela e um suco natural pra ele, porque Ricardo não bebia nada de bebida alcoólica.
Gisele chegou feliz depois de um dia exaustivo, imaginando receber a deliciosa massagem que ele fazia antes do sexo, queria apenas relaxar ao lado de Ricardo, ela abriu a porta encontrou um bilhete dele avisando que iria para a academia, sorriu pelo bilhete, pois ele poderia ter mandado uma mensagem, se perguntava como podia num nível daqueles de tecnologia alguém ainda viver da forma que ele vivia, tão desapegado das coisas, mas ela gostava disso, gostava do fato dele ser tão diferente dela e de todo o restante da realidade que conhecia, ela já havia percebido a distância financeira entre os dois, no primeiro dia que se viram, mas nunca tinha sido tão bem tratada por um homem como era por ele, pois sentia-se satisfeita não apenas na cama mas em todas as áreas sentimentais, autoestima ela percebia o desejo e sentimento que ele tinha por ela.
Gisele colocou as coisas que comprou em cima da mesa, as arrumou, tirou uma foto e mandou para ele na esperança de que depois da academia ele voltasse e jantasse com ela podendo até dormir pela primeira vez juntos, ela decidiu se preparar para recebe-lo, tomou um banho, perfumou o corpo, vestiu uma camisola de seda e tornou a olhar o celular, ele ainda não tinha visualizado a foto. Ligou a televisão, mas não assistia nada, estava insegura, será que em plena sexta-feira ele estaria malhando até tarde da noite, ou estaria por ai?
Ela resolveu comer, pensava em ligar para ele, mas sentiu receio, não queria que ele pensasse que ela estivesse o controlando e muito menos se humilhar para homem nenhum, pensou nos milhares de coisas que poderia ter feito depois do serviço sem ele nos barzinhos ou boates em que poderia estar curtindo loucamente sua noite, com suas amigas, mas preferiu ver o lado bom da situação invés de procurar para si o martírio: "pelo menos já tenho o almoço para amanhã", pensou enquanto deitava pra dormir.
Ricardo chegava em sua casa cansado da academia, o torneio de luta livre estava se aproximando, e os treinos ficavam mais intensos e pesados, ele via o torneio como única oportunidade de mudar de vez a vida, tinha o sonho de virar lutador profissional e se esforçava muito para isso, dividia esse sonho com a academia que apostava totalmente nele, mesmo tendo outros alunos, Ricardo era o que tinha mais potencial e garra para vencer esse torneio. Ele deu um beijo na mãe sentada no sofá o esperando, pediu para que ela fosse para o quarto enfim descansar que ele tinha chegado bem, pegou a irmã mais nova que dormia no sofá no colo e a levou para a cama, a cobriu depois beijou-a na testa e foi para o banheiro tomou um longo banho sentindo dor em várias partes do corpo, deixando a agua cair para relaxar e pensando nela; e só depois do banho pegou o celular vendo a mensagem que Gisele o envio, não adiantava mais responder, nem ir atrás daquele jantar comprado, ele foi até a sala encontrando a mãe sentada no mesmo lugar, ficou um tempo dando atenção à ela que logo foi dormir. Ricardo andou pela casa, viu na porta da geladeira contas para serem pagas, as pegou e levou para mesa, somou quanto dariam, ficou chateado, não estava em seus planos se apaixonar pela patroa, mas aconteceu, ele não queria cobrar o serviço, porém já estava pouco mais de um mês trabalhando pra Gisele e precisava receber, ou teria que parar a obra dela e pegar outro serviço para fazer, ele dormiu preocupado com isso.
Ricardo acordou cedo, comprou pão para a mãe e os irmãos, e foi para academia treinar, quando terminou foi ver Gisele, lhe desejar "bom dia" e tomar café da manhã com ela. Eram dez horas, Gisele tinha levantado, estava com o tio e o pai supervisionando a obra da casa, ela atendeu o portão e quando Ricardo entrou disse:
“É esse aqui o artista dessa obra” disse sorrindo “esse é Ricardo, meu pedreiro.”
Eles o cumprimentaram e Sebastião, pai de Gisele disse:
“Você está fazendo um bom trabalho, quando terminar tem algum outro serviço em vista, queremos fazer uma reforma em casa? Você tem uma equipe grande?”
“Na verdade” respondeu Ricardo meio sem graça pelo modo que foi apresentado “Tenho sim um pequeno trabalho, coisa rápida, se o senhor quiser esperar, mas se não quiser tenho alguém pra indicar.”
“Ele vai esperar” respondeu Gisele eufórica “mão de obra boa não se acha em qualquer lugar, não é pai?”
“Sim” concordou o pai estranhando o modo da filha “Gisele disse que você não trabalha de sábado, o que veio fazer aqui?”
“Pai!”.
“Vim buscar uma ferramenta senhor que esqueci” ele foi até a caixa onde guardava as ferramentas, pegou um martelo para disfarçar “mas estou indo.”
“Vá na minha casa hoje a tarde pra fazer um orçamento.”
Sebastião deu um cartão com seu endereço e telefone e Ricardo retirou-se, sentia-se m*l com a situação constrangedora, ele não gostou de ser apresentado como "o pedreiro" dela, pois há mais de mês vinham se envolvendo, ele entendeu que não tinha nível para namorar uma mulher daquelas e obter respeito por seus familiares, no caminho para casa sua cabeça fervia, parou seu fusquinha em baixo de uma ponte, saiu do carro e deu o pão que comprara para os moradores de rua que dormiam ali, e seguiu caminho para a casa. Chegou e ligou para Carlos, primo de Gisele, pedindo para que fosse com ele para dar o orçamento. Depois ficou na rua conversando com seus amigos.