O cheiro de café foi a primeira coisa que Lorrany sentiu ao acordar.
Por alguns segundos, ela não reconheceu o lugar.
O colchão macio demais.
O silêncio absoluto.
Nenhum grito.
Nenhum som de televisão alta.
Nenhum copo quebrando.
Seu corpo relaxou… até a memória voltar de uma vez.
Apartamento de Nikólaos.
O susto da noite anterior.
O homem observando.
E o próprio Nikólaos.
Ela sentou rapidamente na cama, passando a mão pelo rosto.
— Meu Deus… eu dormi na casa de um bilionário grego.
Olhou para o espelho.
Cabelo bagunçado.
Camiseta larga que ele havia emprestado.
E, estranhamente… ela parecia descansada.
Coisa rara.
Muito rara.
Quando abriu a porta do quarto, encontrou Nikólaos na cozinha.
Sem terno.
Apenas uma camisa preta ajustada ao corpo e calça social.
Ele parecia menos inalcançável.
Mais homem.
Mais perigoso.
Ele levantou o olhar imediatamente.
Como se tivesse sentido sua presença.
— Dormiu bem?
A pergunta saiu cuidadosa.
Lorrany hesitou.
— Melhor do que normalmente.
Nikólaos percebeu a escolha das palavras.
Normalmente.
Ele deslizou uma xícara em direção a ela.
— Café brasileiro. Pedi ajuda para acertar.
Ela sorriu involuntariamente.
— Tá tentando me conquistar pelo estômago?
— Estou tentando não errar.
A sinceridade inesperada a pegou desprevenida.
Lorrany sentou-se.
O silêncio entre eles não era desconfortável.
Era… calmo.
Até que ele falou:
— Você teve um pesadelo.
O corpo dela ficou rígido.
Instantaneamente defensivo.
— Eu falo dormindo às vezes.
Nikólaos apoiou as mãos na bancada.
— Você parecia assustada.
Ela desviou o olhar.
— Todo mundo tem passado.
— Nem todo passado faz alguém pedir para parar enquanto dorme.
O ar ficou pesado.
Lorrany apertou a xícara entre os dedos.
Durante anos, ela aprendera a esconder.
A rir.
A responder com sarcasmo.
A nunca mostrar fraqueza.
Mas aquele homem…
Não pressionava.
Apenas esperava.
— Quando eu era mais nova… — começou, hesitante — eu acreditava fácil nas pessoas.
Nikólaos permaneceu em silêncio absoluto.
— Um garoto da escola fingiu gostar de mim. Era aposta.
A voz saiu baixa.
Controlada demais.
— Descobri quando começaram a rir… na frente de todo mundo.
Ela riu sem humor.
— Disseram que ninguém realmente ia querer alguém como eu.
O maxilar de Nikólaos travou.
Uma raiva fria surgiu dentro dele.
😡😡😡😡😡😡😡😡😡
— Depois disso… — continuou — eu parei antes das coisas ficarem sérias com qualquer homem.
Ela deu de ombros.
— Beijo, abraço… acabou ali.
Silêncio.
— Porque eu sempre espero a piada chegar.
A confissão ficou suspensa no ar.
Crua.
Vulnerável.
Nikólaos aproximou-se devagar.
Sem invadir.
Sem tocar.
— Eles eram crianças cruéis — disse calmamente.
Ela balançou a cabeça.
— Crueldade cresce junto com as pessoas.
Ele negou suavemente.
— Não. Algumas pessoas apenas nunca aprendem o valor do que têm diante delas.
Os olhos dela encontraram os dele.
E não havia pena ali.
Nem desejo bruto.
Havia respeito.
Admiração.
Algo que a desarmou completamente.
— Você acha que eu sou fraca? — perguntou.
Nikólaos soltou uma respiração curta.
— Acho que você sobreviveu ao suficiente para ser perigosa.
Ela riu surpresa.
— Perigosa?
— Sim.
Ele finalmente tocou sua mão.
Leve.
Quase reverente.
— Porque mesmo depois de tudo… você continua gentil.
O coração dela acelerou.
Não havia pressa naquele toque.
Nenhuma tentativa de avançar.
Apenas conexão.
E aquilo assustava mais do que qualquer sedução.
Porque Lorrany percebeu algo novo.
Ela não queria fugir.
E Nikólaos percebeu algo ainda mais perigoso:
Ele não queria apenas protegê-la.
Queria ser digno da confiança dela.
Do lado de fora do prédio, porém…
Dentro de um carro estacionado há horas…
um homem observava novamente.
Telefone em mãos.
Fotografando.
Esperando.
O jogo ainda estava apenas começando.
🔥👑🔥