CAPÍTULO 15 — AS CICATRIZES QUE NÃO SE VEEM

609 Words
O cheiro de café foi a primeira coisa que Lorrany sentiu ao acordar. Por alguns segundos, ela não reconheceu o lugar. O colchão macio demais. O silêncio absoluto. Nenhum grito. Nenhum som de televisão alta. Nenhum copo quebrando. Seu corpo relaxou… até a memória voltar de uma vez. Apartamento de Nikólaos. O susto da noite anterior. O homem observando. E o próprio Nikólaos. Ela sentou rapidamente na cama, passando a mão pelo rosto. — Meu Deus… eu dormi na casa de um bilionário grego. Olhou para o espelho. Cabelo bagunçado. Camiseta larga que ele havia emprestado. E, estranhamente… ela parecia descansada. Coisa rara. Muito rara. Quando abriu a porta do quarto, encontrou Nikólaos na cozinha. Sem terno. Apenas uma camisa preta ajustada ao corpo e calça social. Ele parecia menos inalcançável. Mais homem. Mais perigoso. Ele levantou o olhar imediatamente. Como se tivesse sentido sua presença. — Dormiu bem? A pergunta saiu cuidadosa. Lorrany hesitou. — Melhor do que normalmente. Nikólaos percebeu a escolha das palavras. Normalmente. Ele deslizou uma xícara em direção a ela. — Café brasileiro. Pedi ajuda para acertar. Ela sorriu involuntariamente. — Tá tentando me conquistar pelo estômago? — Estou tentando não errar. A sinceridade inesperada a pegou desprevenida. Lorrany sentou-se. O silêncio entre eles não era desconfortável. Era… calmo. Até que ele falou: — Você teve um pesadelo. O corpo dela ficou rígido. Instantaneamente defensivo. — Eu falo dormindo às vezes. Nikólaos apoiou as mãos na bancada. — Você parecia assustada. Ela desviou o olhar. — Todo mundo tem passado. — Nem todo passado faz alguém pedir para parar enquanto dorme. O ar ficou pesado. Lorrany apertou a xícara entre os dedos. Durante anos, ela aprendera a esconder. A rir. A responder com sarcasmo. A nunca mostrar fraqueza. Mas aquele homem… Não pressionava. Apenas esperava. — Quando eu era mais nova… — começou, hesitante — eu acreditava fácil nas pessoas. Nikólaos permaneceu em silêncio absoluto. — Um garoto da escola fingiu gostar de mim. Era aposta. A voz saiu baixa. Controlada demais. — Descobri quando começaram a rir… na frente de todo mundo. Ela riu sem humor. — Disseram que ninguém realmente ia querer alguém como eu. O maxilar de Nikólaos travou. Uma raiva fria surgiu dentro dele. 😡😡😡😡😡😡😡😡😡 — Depois disso… — continuou — eu parei antes das coisas ficarem sérias com qualquer homem. Ela deu de ombros. — Beijo, abraço… acabou ali. Silêncio. — Porque eu sempre espero a piada chegar. A confissão ficou suspensa no ar. Crua. Vulnerável. Nikólaos aproximou-se devagar. Sem invadir. Sem tocar. — Eles eram crianças cruéis — disse calmamente. Ela balançou a cabeça. — Crueldade cresce junto com as pessoas. Ele negou suavemente. — Não. Algumas pessoas apenas nunca aprendem o valor do que têm diante delas. Os olhos dela encontraram os dele. E não havia pena ali. Nem desejo bruto. Havia respeito. Admiração. Algo que a desarmou completamente. — Você acha que eu sou fraca? — perguntou. Nikólaos soltou uma respiração curta. — Acho que você sobreviveu ao suficiente para ser perigosa. Ela riu surpresa. — Perigosa? — Sim. Ele finalmente tocou sua mão. Leve. Quase reverente. — Porque mesmo depois de tudo… você continua gentil. O coração dela acelerou. Não havia pressa naquele toque. Nenhuma tentativa de avançar. Apenas conexão. E aquilo assustava mais do que qualquer sedução. Porque Lorrany percebeu algo novo. Ela não queria fugir. E Nikólaos percebeu algo ainda mais perigoso: Ele não queria apenas protegê-la. Queria ser digno da confiança dela. Do lado de fora do prédio, porém… Dentro de um carro estacionado há horas… um homem observava novamente. Telefone em mãos. Fotografando. Esperando. O jogo ainda estava apenas começando. 🔥👑🔥
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