Na manhã seguinte, Lorrany acordou com uma sensação estranha.
Como se algo estivesse prestes a acontecer.
Não era medo.
Era instinto.
Ela chegou ao hotel antes das sete. Precisava de foco. De controle. De normalidade.
Mas assim que entrou no lobby, percebeu que o equilíbrio havia sido quebrado.
Havia uma mulher sentada no sofá central.
Elegante.
Impecável.
Vestido creme de corte europeu. Óculos escuros grandes demais para o ambiente interno.
Postura de quem não pede licença.
Ela não parecia hóspede.
Parecia inspeção.
— Posso ajudá-la? — Lorrany perguntou, profissional.
A mulher retirou lentamente os óculos.
Olhos verdes frios.
Avaliadores.
— Imagino que você seja Lorrany.
O sotaque não era brasileiro.
Era grego.
O estômago dela apertou.
— Sou a gerente geral.
A mulher levantou-se com elegância calculada.
— Helena Stavros.
O sobrenome caiu como pedra.
Stavros.
— Parente do senhor Nikólaos? — Lorrany perguntou, mantendo a compostura.
Um leve sorriso surgiu.
— Esposa.
O mundo pareceu desacelerar.
Mas o rosto de Lorrany não demonstrou nada.
— O senhor Stavros não mencionou que estaria acompanhado.
Helena caminhou pelo lobby como se estivesse avaliando cada detalhe.
— Meu marido não costuma mencionar tudo.
Meu marido.
As palavras ecoaram.
Mas algo não encaixava.
Não havia aliança.
Não havia marca de uso recente.
Não havia… emoção ao falar.
Era estratégico.
— Ele está na suíte presidencial — Lorrany informou. — Posso avisá-lo da sua chegada.
Helena inclinou a cabeça.
— Prefiro surpreendê-lo.
Claro que preferia.
E naquele momento, Lorrany percebeu:
Aquilo não era visita conjugal.
Era território.
No último andar, Nikólaos estava concentrado em documentos quando a porta foi aberta sem aviso.
Ele levantou os olhos.
E congelou.
— Helena.
Ela fechou a porta atrás de si.
— Senti sua falta.
Ele ficou em silêncio por dois segundos.
Depois fechou a pasta devagar.
— Nosso acordo foi claro.
Ela deu um sorriso elegante.
— Separação não significa divórcio finalizado.
Então era isso.
Não esposa.
Ainda.
Mas quase-ex.
— Você não deveria estar aqui.
— Eu deveria estar onde meu nome ainda está vinculado.
O olhar dele ficou mais frio.
— Você não tem mais vínculo comigo.
Ela se aproximou.
— Eu tenho tudo a perder se você assinar aqueles papéis.
Ah.
Agora estava claro.
Dinheiro.
Participação societária.
Imagem.
Ela tocou a mesa.
— E ouvi dizer que você já encontrou distrações por aqui.
Os olhos dele escureceram.
— Não mencione assuntos que não lhe dizem respeito.
Ela riu baixo.
— A gerente.
Ele não respondeu.
Mas o silêncio confirmou.
No lobby, Lorrany mantinha a postura impecável.
Mas por dentro, pensamentos conflitavam.
Ele não era homem de mentir.
Ela tinha certeza disso.
Então por que não mencionou que ainda era casado?
Ou quase?
O elevador abriu.
Helena saiu primeiro.
Postura intacta.
Logo atrás, Nikólaos.
O olhar dele foi direto para Lorrany.
Não culpa.
Não vergonha.
Mas tensão.
Helena aproximou-se dela com elegância cortante.
— Você administra bem este lugar.
— Faço o meu melhor.
— Imagino que também faça o seu melhor para impressionar meu marido.
A frase foi baixa.
Mas venenosa.
Nikólaos interveio imediatamente.
— Helena.
O tom dele era firme.
— Não confunda sua frustração com acusações.
Helena virou-se para ele.
— Estou apenas observando.
Ela colocou os óculos novamente.
— Voltarei à Grécia em dois dias. Espero que até lá você tenha decidido agir como homem responsável.
Ela saiu.
O salto ecoando pelo mármore.
O silêncio ficou pesado.
Lorrany manteve os olhos fixos na agenda em suas mãos.
— Você ainda é casado? — perguntou, objetiva.
Ele se aproximou.
Mas manteve distância respeitosa.
— Legalmente, sim.
A honestidade foi imediata.
— O divórcio está em andamento há meses.
— E por que ela veio agora?
Ele sustentou o olhar dela.
— Porque ouviu que eu poderia estar… seguindo em frente.
O coração dela deu um pequeno salto involuntário.
Mas ela não demonstrou.
— Sua vida pessoal não interfere na gestão do hotel — disse fria.
Ele respirou fundo.
— Não, não interfere.
Mas o silêncio que veio depois dizia o contrário.
— Você devia ter me contado — ela completou.
Ele não tentou se justificar.
— Você está certa.
Isso a desarmou.
Homens como ele não costumavam admitir erro.
— Eu não escondi por estratégia — ele continuou. — Eu apenas não considerei relevante… até se tornar.
Ela o encarou.
— Eu não me envolvo com homens indisponíveis.
A frase saiu firme.
Limite claro.
Ele assentiu lentamente.
— Eu não estou indisponível.
— Ainda está casado.
O olhar dele suavizou.
— Você acha que eu estaria aqui se ainda existisse algo naquele casamento?
Ela não respondeu.
Porque a dúvida não era sobre sentimento.
Era sobre risco.
Envolver-se com ele agora significava entrar em uma guerra que não era dela.
E ela já tinha batalhas suficientes.
O telefone dele vibrou.
Ele olhou.
Expressão mudou.
Séria.
Mais fria.
— O que foi? — ela perguntou.
Ele guardou o telefone.
— Um problema na Grécia.
— Negócios?
Ele a encarou por um segundo.
— Família.
E algo no modo como disse aquilo fez Lorrany perceber:
A chegada de Helena não era o único fantasma atravessando o oceano.
E talvez se envolver com Nikólaos significasse enfrentar um mundo muito maior do que o bairro estreito onde cresceu.