O salão principal do hotel nunca esteve tão iluminado.
Cristais pendiam do teto como estrelas artificiais.
Champanhe circulava em bandejas douradas.
Empresários, investidores e jornalistas ocupavam cada espaço do ambiente.
Era a noite oficial de apresentação da possível compra internacional do hotel.
E Lorrany estava trabalhando dobrado.
Vestido preto elegante.
Cabelo preso.
Maquiagem discreta.
Profissional.
Intocável.
Mas por dentro… nervosa.
Porque Helena Stavros estava presente.
E não parava de observá-la.
Como um predador paciente.
— Você está linda — Clara cochichou.
— Estou trabalhando, não desfilando.
— Pois devia desfilar. O grego não tira o olho de você.
Lorrany evitou olhar.
Mas sentia.
Nikólaos conversava com investidores, porém seus olhos sempre voltavam para ela.
Não desejo vulgar.
Algo mais profundo.
Orgulho.
E aquilo era perigoso demais.
Helena observava tudo.
Cada troca de olhar.
Cada aproximação sutil.
Cada segundo em que Lorrany parecia pertencer àquele ambiente.
Inaceitável.
Ela fez um sinal discreto para um dos organizadores.
Minutos depois, o mestre de cerimônias pegou o microfone.
— Gostaríamos agora de agradecer à equipe responsável pelo funcionamento impecável deste hotel…
Lorrany continuou organizando documentos.
Até ouvir:
— Senhorita Lorrany, poderia subir ao palco?
Ela congelou.
Não estava programado.
Mas recusaria diante da imprensa?
Impossível.
Respirou fundo.
Subiu.
Sorrisos e flashes a cegaram momentaneamente.
— Esta jovem começou como faxineira e hoje ocupa posição administrativa — anunciou o apresentador.
Alguns aplausos educados.
Helena aproximou-se lentamente do palco.
Elegante.
Perigosa.
Pegou o microfone com um sorriso perfeito.
— Histórias de superação sempre emocionam… não é?
O instinto de Lorrany gritou perigo.
— Principalmente quando pessoas… conseguem subir socialmente através de boas oportunidades.
O salão ficou silencioso.
Nikólaos virou o rosto imediatamente.
Algo estava errado.
Helena continuou:
— Afinal, hotéis internacionais valorizam funcionários dedicados… e agradáveis aos olhos dos investidores.
Algumas pessoas trocaram olhares desconfortáveis.
A mensagem era clara.
Ela estava insinuando favoritismo.
Insinuando que Lorrany usava aparência para crescer.
O coração de Lorrany bateu forte.
Velho sentimento.
Velha vergonha.
A escola.
As risadas.
A aposta.
Por um segundo…
Ela quase recuou.
Quase.
Mas então lembrou quem era agora.
Pegou o microfone calmamente.
Sorriu.
— A senhora tem razão.
O público ficou atento.
— Eu comecei limpando quartos.
Pausa.
— E aprendi algo importante naquela época.
Helena manteve o sorriso arrogante.
— Que caráter não depende da posição que ocupamos… mas de como tratamos quem está abaixo de nós.
Um murmúrio percorreu o salão.
Lorrany continuou:
— Trabalhei muito para estar aqui.
Estudando à noite, enfrentando preconceito e recusando propostas que não respeitavam minha dignidade.
Agora o silêncio era absoluto.
— Então, sim… eu valorizo oportunidades.
Ela olhou diretamente para Helena.
— Mas nunca precisei diminuir outra mulher para conquistar meu espaço.
O impacto foi imediato.
Alguns aplausos começaram.
Depois aumentaram.
Helena perdeu o sorriso por um segundo.
E foi nesse momento…
Que Nikólaos subiu ao palco.
Sem aviso.
Sem protocolo.
Ele pegou o microfone.
O salão inteiro silenciou.
— Gostaria de esclarecer algo.
A voz grave dominou o ambiente.
— A senhorita Lorrany permanece neste hotel exclusivamente por competência profissional.
Ele olhou diretamente para Helena.
— Qualquer tentativa de questionar isso é desrespeitosa… e incorreta.
A tensão podia ser cortada.
Helena endureceu.
— Nikólaos—
— Esta noite celebra mérito — ele interrompeu calmamente. — Não insegurança.
O golpe foi público.
Definitivo.
Ele virou-se para Lorrany.
E apenas disse:
— Obrigado pelo excelente trabalho.
Nada íntimo.
Nada impróprio.
Mas a escolha estava feita.
Diante de todos.
Helena saiu do palco primeiro.
Furiosa.
Os aplausos explodiram.
Mas Lorrany m*l ouvia.
Porque algo havia mudado.
Ele tinha escolhido defendê-la.
Publicamente.
E homens como Nikólaos não faziam isso sem consequências.
Quando desceu do palco, ele se aproximou dela.
Baixo.
Só para ela ouvir:
— Isso vai piorar antes de melhorar.
Ela respirou fundo.
— Estou acostumada a lutar.
Ele sustentou o olhar dela.
— Eu sei.
O celular dele vibrou.
Ele olhou a tela.
E pela primeira vez…
A expressão dele ficou realmente preocupada.
— Preciso voltar para a Grécia.
O coração dela apertou.
Porque agora…
Justamente agora…
Ele iria embora.