PROMESSAS NÃO DITAS

567 Words
O silêncio dentro do carro parecia mais pesado do que qualquer discussão. A cidade passava pelas janelas em luzes borradas enquanto Lorrany mantinha o olhar fixo à frente, tentando organizar o turbilhão dentro do peito. A humilhação ainda queimava. Mas não era isso que doía. Era a palavra que ele tinha dito. Grécia. Distância. Partida. Ao lado dela, Nikolas Stavros dirigia em silêncio, os dedos firmes no volante, como se lutasse contra pensamentos que não queria compartilhar. Ele nunca pareceu tão distante. E aquilo assustava mais do que qualquer rival. — Por quanto tempo? — ela perguntou finalmente. A pergunta saiu baixa. Cautelosa. Nikolas demorou alguns segundos para responder. — Não sei. A honestidade dele foi pior que uma mentira. Lorrany assentiu devagar. Ela já tinha vivido promessas vagas antes. Homens que diziam volto logo e desapareciam para sempre. O corpo dela reagiu antes da razão — uma antiga defesa emocional tentando erguer muros novamente. Ele percebeu. Sempre percebia. Parou o carro diante do prédio dela e desligou o motor, mas não saiu. O silêncio voltou. Pesado. Quase íntimo demais. — Você acha que eu vou embora e não volto — disse ele, sem olhar para ela. Não era pergunta. Era compreensão. Lorrany engoliu seco. — Eu acho… que pessoas importantes sempre vão embora. A frase escapou antes que pudesse impedir. E ali estava. O trauma. Nu. Real. Nikolas virou lentamente o rosto para ela. Não havia desejo em seus olhos. Havia algo mais profundo. Dor compartilhada. — Meu pai me ensinou que amor é fraqueza — ele confessou. — Que confiar em alguém é entregar uma arma apontada para o próprio peito. Ela o encarou surpresa. Ele raramente falava de si. — Mas você… — ele continuou — destruiu tudo que eu acreditava. O coração dela acelerou. — Não pela forma como você me olha… — ele murmurou. — Mas pela forma como continua se levantando mesmo quando o mundo tenta te quebrar. Lorrany sentiu os olhos arderem. Ninguém jamais tinha admirado sua força. As pessoas só notavam suas cicatrizes. Nikolas ergueu a mão devagar, afastando uma mecha cacheada do rosto dela. O toque era cuidadoso. Quase reverente. — Eu não quero você porque é bonita. Ela prendeu a respiração. — Eu quero você porque é impossível não respeitar quem você é. E ali… algo mudou. Não era paixão explosiva. Era segurança. Era escolha. Era amor começando a criar raízes. Ele apoiou a testa contra a dela. — Confia em mim? A pergunta não exigia resposta imediata. Exigia coragem. Lorrany fechou os olhos. Confiar significava correr o risco de sofrer novamente. Mas também significava permitir algo novo. Algo verdadeiro. — Eu vou tentar — sussurrou. O sorriso dele foi pequeno. Aliviado. E quando ele a beijou, não havia urgência. Não havia posse. Apenas promessa. Um beijo lento. Profundo. Como se ambos soubessem que aquela noite marcaria um antes e depois. — Horas depois, já sozinha em seu apartamento, Lorrany permaneceu acordada olhando o teto. O perfume dele ainda estava em sua pele. Mas, pela primeira vez… o medo não era abandono. Era saudade antecipada. Ela não percebeu quando adormeceu segurando o telefone. Nem que, do outro lado da cidade, Nikolas permanecia acordado também. Observando a passagem aérea aberta na tela. Destino: Atenas. E junto com a viagem… vinha uma verdade que ele ainda não tivera coragem de contar. Algo capaz de destruir tudo que estavam construindo.
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