Melina
Caro leitor, a história que hoje venho-lhes contar se iniciou de forma confusa e, para poupa-los de meia dúzia de flashbacks, antes de oficialmente iniciar a narrativa, os convido para um pequeno resumo da vida louca e turbulenta que venho levando. Prometo me esforçar para narrar da forma mais interessante e compacta possível!
A minha vida realmente começou a mudar no dia em que o meu pai me confessou que todas as brincadeirinhas, sobre um casamento entre mim e o meu então melhor amigo, tinham um fundo de verdade. Quer dizer, mais que um fundo, aquilo deveria acontecer de qualquer maneira, gostássemos nós ou não.
Ele prometeu dizer o motivo, mas aparentemente esse momento ainda não havia chegado, ou não era a hora certa, como ele gostava de dizer, quando era questionado. Era confuso e complicado aceitar que teria que se casar, que não havia outra alternativa, mesmo sem saber os motivos que levaram até aquela decisão tão extrema.
Tyler, ou o cara que descobri que se tornaria o meu "noivo", estava se mudando para a França naquela época, para viver na terra dos pais. Enquanto isso eu, filha de mãe brasileira e pai italiano, continuava com a minha vidinha normal e pouco agitada na Califórnia.
Algo que me marcou muito foi o que o meu pai disse sobre aproveitar a vida, porque um dia eu teria que deixar de ser solteira, querendo ou não querendo aquela união. Eu realmente aproveitei cada momento da minha adolescência e dos primeiros dois anos da faculdade de direito.
Sobre o meu antigo melhor amigo, nada ocorreu como os nossos pais tinham planejado. Nunca mais o vi, desde que se mudou para o velho continente. Era constrangedor pensar que logo iríamos nos casar, mais embaraçoso ainda era lembrar de todas as mentiras que venho inventando para meus amigos, tentando encobrir algo forjado.
Além dos nossos pais e irmãs, ninguém poderia saber, absolutamente ninguém.
Há dois anos eu fui avisada de que deveria iniciar uma especulação de relacionamento. Isso durou por alguns meses, até que fiz uma viagem para Paris e deveria voltar de lá com um namoro concretizado. Isso até aconteceu, o detalhe é que o filho da mãe preferiu passar as férias com os amigos na Alemanha, do que estar lá para me encarar, na primeira oportunidade que tivemos de nos encontrar.
Ele inventou uma mentira por lá e eu uma por aqui, mas no final os nossos amigos acreditavam no relacionamento e a mídia começou a cair em cima de nós. Ao que sabiam, ambos estávamos vivendo romances, mas o detalhe que não tinha sido vazado é que "estávamos" um com o outro.
E desde então, feriados e férias sempre foram assim, viagens fingidas e desencontros. Todas as pessoas próximas de mim, pensando que eu estava com ele. Quando, na verdade, era tudo uma grande armação e eu não o via há anos.
O tempo passou, o anel de noivado apareceu no meu dedo e, mais ainda, tive que me fechar para o mundo, sustentando a mentira e cuidando para não o deixar com fama de homem traído. Esperava que ele estivesse a fazer o mesmo por mim.
Eu sinceramente não me sentia pronta para encará-lo, naquele ponto. Era assustador e eu também queria fugir, mas o que me deixava ainda mais em pânico era a possibilidade de subir no altar sem recriar os laços, a amizade e a i********e que tínhamos na infância.
Por mais desconfortável que fosse, se tivéssemos convivido um pouco nos últimos dois anos, iria ser mais tranquilo, depois do casamento.
E então, finalmente, chegamos ao momento atual. Eu corri atrás de tudo, organizei um casamento sozinha, cuidei de cada detalhe do lugar onde moraríamos sem a sua ajuda, sem saber dos seus gostos, sem ter noção se ele aprovaria as minhas escolhas. Até mesmo a viagem de lua de mel foi escolhida por mim e justamente por isso ela seria bem curta, apenas para que não estranhassem a ausência de uma comemoração nupcial.
Às vezes, bem esporadicamente, eu mandava algumas ideias para ele e para a sua mãe, por e-mail, esperando aprovação antes de confirmar. Era só, essa era a ajuda que ele tinha dado, além da financeira. E em certo ponto, deixei de me importar se ele aprovaria ou não as minhas decisões. Se ele abriu mão de participar do processo, que não tivesse direito de reclamar do resultado.
Era cansativo, porque eu não sabia como ele estava em relação a esse casamento. Sabia que assim como eu, não aprovava, que ele não concordava ou estava feliz. Mas estava conformado? Revoltado? Eu não fazia ideia.
A maioria das pessoas que me conheciam achava que eu estava armando toda uma situação atrás de fama. Pensavam que eu estava criando um relacionamento escondido, com alguém que não existia, e que eu forjaria um abandono no altar, para me fazer de coitada.
Não foram poucos os apelidos relacionados a mim, pelos corredores da faculdade. Mentirosa e iludida eram os mais leves, entre eles. Até criaram um boato dizendo que eu tinha inventado tudo isso, por não ter superado uma paixão de infância por Tyler. Falaram que eu estava com inveja do relacionamento privado dele e que a farsa foi uma solução para que eu não "saísse por baixo".
Como sempre, a mulher sendo vista como a louca que armaria planos e faria de tudo para chamar atenção. Me enxergavam como a garota que usa da privacidade para fingir ter alguém. Enquanto isso, ele era apenas um cara legal que queria proteger a namorada da mídia.
Mas até que era prazeroso saber que logo eu calaria a boca de todos eles.
Engolindo todo o meu orgulho, talvez eu preferisse que aqueles boatos fossem verdadeiros, quem sabe seria mais fácil lidar com burburinho criados por pessoas com quem eu não me importava, do que ter a minha vida modificada por algo que eu não consigo entender e, aparentemente, ainda não posso saber a razão.
Se em algum momento eu tive raiva dos meus pais? Sim, mais de uma vez.
Eu tive muitos anos para administrar a situação. Quando soube, não era madura o suficiente para entender a profundidade do assunto, então pareceu até... Legal.
Durante a adolescência, em muitos momentos de revolta, fiz questão de expor quão insatisfeita essa situação me deixava. Gritei pelos meus pensamentos e pelos meus direitos, mas foi algo que com o tempo passou a fazer parte de mim.
Era tão difícil olhar para os dois pares de olhos cheios de culpa, dos meus pais. Eu não sabia o que eles tinham feito, porque eu teria que pagar o preço daquela situação, mas uma coisa que a maturidade me fez ter certeza é que eles se arrependiam muito e, se pudessem, fariam o possível e o impossível para me tirar dessa situação.
Nós nos acostumamos com as ideias. Depois, por maior seja seu medo de encarar um desafio, ele passa a parecer mais "fácil". É uma questão de aceitar o seu destino, quando não há outra opção. Posso dizer que foi isso que aconteceu comigo.
Era um processo complicado. Realmente, foi difícil administrar aquilo, porque na hora da raiva eu sempre usava como argumento, sempre jogava na cara dos meus pais e, no fim, eu me arrependia.
Eu não os entendia e sei que não conseguiria entender, se não me contassem a verdade. Eu sabia que eles me amavam e prezavam pela minha segurança, saúde e felicidade. Então, se eu precisava fazer isso por eles, eu faria, por mais injusto que fosse, porque eu também os amava incondicionalmente e faria de tudo por eles.
Mas agora, era a hora de encarar um dos maiores desafios: O processo até o casamento.
Isso porque um grande esquema havia sido montado para a chegada do noivo e a oficialização do relacionamento, poucos dias antes da união. Todos os focos estariam voltados para nós, mas eu não ligava. Já estava fingindo a tanto tempo, que ninguém poderia me acusar de estar casando por impulso, quando eu passei os últimos dois anos dizendo ter um namorado.
Mas algo me amedrontava de maneiras mais profundas do que eu conseguia imaginar: a ideia de casar com um cara que, hoje, era praticamente um desconhecido para mim.