Tyler
Eu fugi.
Eu fugi e não me orgulho.
Mas vamos com calma, não me interpretem m*l.
Eu não fugi do casamento, ok?
Mas eu fugi em todas as oportunidades que tive de encontrar Melina, minha noiva, nos últimos anos.
Eu arrumei uma desculpa para cada vez que ela veio a Paris. Viagem para a Alemanha com amigos, trabalho voluntário, cursos, aulas extras durante as férias, tudo para justificar a minha ausência na cidade.
E quando eu precisava ir para Los Angeles? Documentos vencidos, problemas de saúde, trabalhos da faculdade e professores pouco flexíveis.
Foi covardia? Sim.
Foi maldade com ela? Com certeza, eu admitia.
Meu propósito era afetá-la, negativamente? De forma alguma.
Havia uma explicação? Se estiverem dispostos a aceitá-la, sim havia.
Melina era minha melhor amiga de infância, fomos grudados, inseparáveis, por muitos anos. Na verdade, desde o parto. Nós nascemos no mesmo dia, no mesmo hospital, no mesmo quarto.
Até acredito que essa seja uma história que a minha mãe adoraria contar, mas já que ela é do tipo que gosta de se prolongar, prefiro ser mais prático. Ao que eu sei, as duas entraram em trabalho de parto no mesmo dia, mas quando eu nasci, a bolsa de Janaína ainda não tinha estourado. Ela, contrariando os médicos, saiu do seu quarto e foi nos ver. Mas aí tudo aconteceu muito rápido e, exatamente uma hora mais tarde que eu, Nina nasceu na maca ao lado da minha incubadora.
Nina, só eu a chamava assim. Quer dizer, talvez as coisas tenham mudado depois que eu deixei Los Angeles. Mas até então, ela era Tata para os familiares próximos, Mel para o resto das pessoas. Nina somente para mim.
Na verdade, tudo se tornou completamente diferente e desconhecido do dia para noite. Em um mês meus pais me informam da nossa mudança de volta para a França, que os meus avós estão doentes, que precisam de cuidado e de atenção de perto. Estavam no fim da vida e queriam estar perto da família, assim como nós também queríamos estar perto deles, eu entendia isso.
30 dias depois, estávamos no avião. E foi exatamente nesse mês que se passou, entre a notícia da mudança e a partida, que eu fiquei sabendo quais seriam os próximos passos. E ali a minha opinião não me importava, de qualquer forma, um dia eu estaria casado com Melina.
No início tudo parecia uma grande brincadeira, uma piada, ou algo que nem era tão r**m. Afinal, nós éramos melhores amigos, nos dávamos muito bem e todo mundo apostava que quando ficássemos mais velhos, aquela parceria toda acabaria evoluindo para um relacionamento.
Conforme o tempo passou, a adolescência chegou e nós nos afastamos, devido à distância. Mas os meus pais continuaram a insistir naquele assunto, dizendo que não podiam me explicar o porquê de tudo aquilo, mas que iríamos mesmo nos casar. O que me restou foi começar a entender que não era o tipo de decisão que era revogada, tampouco que estava nas minhas mãos.
Não sabia se a abordagem dos pais de Melina foi a mesma dos meus. Tampouco poderia imaginar se ela pensava o mesmo e se lidava da mesma forma que eu, mas eu preferia acreditar que ela não se conformaria de ter o seu destino roubado das suas próprias mãos.
Isso bagunçou minha cabeça de uma forma inexplicável. Me causou revolta, porque o meu futuro estava sendo decidido por terceiros, quando ele deveria depender de mim e só dizia respeito a mim.
Debater, bater pé, nada disso funcionou. A instrução que eu tive era objetiva: eu deveria viver, aproveitar a vida com responsabilidade e me preparar para o dia do aviso final, quando tivéssemos que começar a fingir.
E quando esse dia chegou, outra instrução muito clara: "Para todo o mundo, você está num relacionamento. Então nem pense em traí-la, qualquer boato desse tipo terá consequências muito graves. A respeite e a honre, temos certeza que ela está fazendo o mesmo e não há com o que se preocupar".
Não há com o que me preocupar? Era sem propósito.
Por que teríamos que nos casar? Para nos divorciarmos anos depois? Porque era nítido que isso aconteceria. Eu não sabia de nada, eu não tinha respostas para nenhum dos meus questionamentos.
Parecia algo do Século XIX que eu jamais iria entender e nunca imaginaria que continuava acontecendo no mundo. Não deveria ser ilegal ou algo do tipo?
Por que eu fugi de Melina? E lá vem a resposta para suas perguntas.
Simples, se tivesse oportunidade de vê-la, se nos encontrássemos para arquitetar e colocar o plano em prática, eu resgataria os laços perdidos com o tempo. E isso não poderia acontecer.
Tudo bem, eu não seria hipócrita. Era óbvio que isso acabaria acontecendo depois do casamento, mas a revolta era a única arma que eu tinha para lutar contra aquela união e, uma vez me aproximando dela novamente, seria inevitável, eu abriria as portas para a aceitação, para a conformação, o que não deveria acontecer naquele momento.
Eu queria e precisava deixar claro para os meus pais que aquilo não me fazia feliz. Eu faria isso até o dia em que precisasse subir no altar.
A minha intenção não era machucar Melina com tudo isso, de forma alguma. O meu intuito era a nossa autoproteção, esperava que um raio caísse na minha cabeça e toda essa mentira fosse cancelada.
Da mesma forma que não me queria nessa situação, também não queria que ela estivesse passando por isso. Mas dentro de mim, um pedacinho agradecia por ser com ela e não com qualquer outra garota que passou pela minha vida.
Eu tive que a ajudar com algumas pequenas coisas do casamento e por muito pouco eu não coloquei o meu plano abaixo. Trocar poucas palavras com Melina já me deixavam na vontade de perguntar como ela estava, de querer conversar, de retomar a amizade que tínhamos.
Mas se eu o fizesse, eu daria uma baita carta na manga para nossas famílias, que diriam que já éramos amigos novamente e que a relação com certeza evoluiria.
Além disso, alguns outros tópicos estavam em jogo e me deixavam, de certa forma, inseguro. Eu e Melina éramos, havíamos nos tornado, pessoas diferentes de tantos anos atrás. O tempo e a maturidade adquirida nos faz entender quem somos e o que queremos.
Eu não sabia mais quem ela era. E ela, bom, ela com certeza conhecia pouco sobre mim.
Os dois lados da moeda me deixavam ligeiramente ansioso. Era o desconhecido, eu não conhecia as suas histórias, seus traumas, medos, as experiências boas e más que ela viveu, os desafios que ela enfrentou. Eu não podia nem saber se a cor preferida dela continuava a mesma.
Como iria me casar, conviver na mesma casa, fingir ao lado de uma pessoa que eu praticamente desconhecia?
E eu também sabia que ela conhecia muito pouco de mim. Alguns lados da minha história demoraram para ser entendidos e compreendidos, até mesmo dentro do meu peito.
No fundo, eu não sabia como faríamos dar certo. Mas pelo jeito, e ao menos que algo acontecesse a tempo de barrar a união, não tinha para onde correr. Estávamos oficialmente mergulhando no meio da tempestade e a história começaria com a minha chegada em Los Angeles.
Sem escolhas, sem possibilidades, sem poder retroceder numa decisão que ao menos tinha sido tomada por mim, era hora de encarar os desafios e acreditar que um futuro bom havia sido reservado para nós dois.