Capítulo IV

1595 Words
Melina Quando senti os lábios de Tyler ao encontro do meu, um arrepio se espalhou pelo meu corpo. Foi casto, raso, apenas um encostar de lábios, talvez nem pudesse considerar como um selinho. As nossas bocas estavam coladas, mas nenhum de nós fez algum movimento. Parecia impossível me desgrudar dele, entretanto. Eu sentia uma nuvem imaginária sobre a minha cabeça. Ela era pesada, escura, mostrando estar prestes a chover e derrubar, junto da água, todos os meus problemas, espalhando-os pelos cantos, como em uma enchente. Não conseguia pensar direito, porque naquele momento, eu quis que ele me beijasse de verdade, que tirasse o meu ar. Fazia dois anos que eu não beijava ninguém, os meus hormônios estavam a flor da pele e tentei me convencer de que aquela seria a única vez em que me permiti desejar Tyler. A surpresa que atingiu as pessoas na nossa volta foi barulhenta, expressa em voz alta. Eu podia ouvir o barulho dos seus queixos caindo e, enquanto eu me perguntava se eles haviam realmente entendido que o meu noivo era Tyler, ele decidiu tornar as coisas ainda mais claras, para nos livrar de falsas interpretações: — Como o noivo dela não gostaria de assistir esse vídeo, se o noivo sou eu? — ele repetiu a palavra que nomeava o nosso relacionamento por duas vezes, em voz alta. A sua voz surpreendeu-me, quando as suas mãos caíram do arredor da minha cintura. Firmei os meus pés no chão, ao ouvir a vibração rouca, calma e sexy. Um dia pensei que não existia voz mais sexy que a de Henry Cavill. É claro que o sotaque britânico contribuía com o ator, mas a voz de uma versão adulta de Tyler, com um muito sutil sotaque francês, em meio ao inglês americanizado, foi sem dúvidas a mais sexy que já escutei. Como eu lidaria com ele falando? Esperava que Tyler fosse mais quieto do que na infância, ou então, eu estaria em uma enrascada. — Eu não acredito que você está aqui— as palavras pularam para fora da minha boca, em um fio de voz que me restou. Tyler abriu um sorriso e deixou um beijo suave na minha testa, como ele fazia quando éramos crianças. —Meu amor, me perdoe! Eu sei que te prometi revelarmos o nosso relacionamento ao público somente no altar, mas eu não estava mais aguentando de saudades suas! — ele falou em voz alta, para que todos na nossa volta conseguissem ouvir. O silêncio em volta de nós se tornou mortal, se uma agulha caísse no chão, eu poderia ouvir o barulho. Todos pareciam muito concentrados em nosso diálogo, tentando ouvir cada palavra. — Eu estava com tantas saudades de você! Eu deveria, mas nem consigo ficar brava contigo, por ter mudado o nosso combinado. — falei, mais uma vez no automático. Ainda estava atordoada. Tyler iria responder alguma coisa para mim, mas antes que pudesse começar a falar, ouvi a voz de Cara se aproximando de nós: —Eu sabia! Eu sempre desconfiei que era você! Na verdade, eu tinha certeza— falou alto, da maneira contraditória dela de ser— A sua noiva teve coragem de mentir para mim na cara dura, dizendo que eu estava ficando doida de imaginar que ela se casaria com você— fez queixa de mim, exatamente como eu imaginei que ela faria. —Me desculpe, Cara. Eu não podia falhar em nosso combinado— Ofereci a ela uma falsa explicação. Tyler passou o braço em volta dos meus ombros, colando a lateral dos nossos corpos, antes de também se justificar: — Nós preferimos manter o nosso relacionamento privado, para que a mídia não especulasse e forçasse a barra. Você sabe, um relacionamento a distância, uma amizade que se manteve desde a infância— mentiu na cara dura, dando de ombros. — Achávamos que assim conseguiríamos proteger o nosso relacionamento— complementei. — E funcionou? — Cara questionou. Eu sabia muito bem do que ela estava falando: o que eu sofri aqui na Califórnia. Era bom que Tyler tivesse uma resposta inteligente na ponta da língua, se não, acabaria odiado pela minha melhor amiga. — Não fazíamos ideia do que aconteceria, que dariam um jeito de prejudicar a imagem e reputação de Nina —Ninguém me chamava desse jeito a anos, era estranhamente familiar —Pensamos que aceitariam o nosso status de relacionamento, imaginando que eles coexistiam. Ou logo matariam a charada e perceberiam que estávamos juntos. Nunca passou pela nossa cabeça que iriam acreditar em mim e não em Melina, que criariam histórias tão absurdas para colocá-la no papel de obcecada. — E por que não voltaram atrás, então? — Cara voltou a questionar. Eu queria brigar com ela por estar fazendo aquelas perguntas na frente de tanta gente que estava esperando um furo para nos destruir, mas eu sabia que ela estava preocupada. — Você conhece bem a sua amiga, quando ela começa algo, ela não desiste por nada no mundo. Conheço Nina desde o dia em que nascemos e ainda não consegui descobrir se o seu orgulho é a sua principal qualidade ou o seu maior defeito! — Em todas as vezes que te imaginei como noivo de Melina, sempre pensei que não revelariam porque isso te prejudicaria, de alguma forma. Mas parece que eu estava enganada — ela deu de ombros, sem vergonha de admitir que tinha o julgado m*l. — Não me prejudicaria em nada. Mas eu teria dito, mesmo se me prejudicasse. Sempre quis contar, desde que descobri das besteiras que falavam de Nina, mas respeitei os seus desejos, queria que ela decidisse a melhor forma de encarar a situação. Afinal, quem estava sofrendo na pele era ela, não eu. — Que fofo, você ainda a chama Nina, como na infância— Cara demonstrou a sua animação. Olhei em volta, procurando por Nicole, mas ela continuava parada a alguns passos de distância de nós. A minha cunhada tinha chegado em Los Angeles há mais de quinze dias, desde então, estava sendo o meu braço direito nos últimos preparativos do casamento. — Parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui— bufei, revirando os olhos para a interação espontânea dos dois. E eu ainda tinha pensado que eles poderiam não se dar bem. —Me desculpe, meu amor! E você deve ser a Cara, acertei? — Tyler questionou. Como ele a conhecia? Tinha perdido tempo investigando as minhas redes sociais? — Sim, vejo que alguém andou falando bem de mim— ela piscou um olho na minha direção— Melhor amiga dessa traíra aqui, que nem para me contar a verdade. — Com certeza, Nina sempre fala sobre você, sinto que já te conheço só pelo que ela já me disse, mesmo sem nunca termos sido oficialmente apresentados— Tyler abriu um sorriso amarelo, mas pareceu conseguir convencer Cara com a sua resposta. — Vamos, vamos todos juntos fazer um lanche. Eu estou com fome e morrendo de curiosidade sobre a história de vocês! Dom, Ethan, venha conhecer o Tyler— Cara gritou, praticamente. Me vi em uma enrascada, sem saber o que fazer. Eu e Tyler definitivamente precisávamos conversar, antes de nos expormos dessa maneira, em uma conversa. — Cara, nós —Tentei a cortar, mas Tyler parecia ter formado as frases com mais facilidade. — Se incomoda de deixar os planos para hoje a noite, Cara? Estou com muitas saudades da minha noiva, se é que me entende, e pretendo levá-la para visitar a nossa nova casa hoje. Você sabe, acabaram de instalar os móveis— ele piscou um olho na direção dela. Ouvi Tyler ser malicioso pela primeira vez na minha vida e não pude evitar, as minhas bochechas queimaram. A sugestão praticamente explícita também envergonhou a minha melhor amiga, que forçou uma tosse nervosa. — E quem precisa de móveis mesmo, não é? — Sugeriu— Nos vemos mais tarde, então. Eu te mando mensagem para combinar tudo. Isso é, se vocês não estiverem muito ocupados para responder... — Eu acho que isso é seu— Nicole parou do meu lado, me pegando de surpresa. Ela me deu um abraço rápido, antes de me entregar o bouquet ao qual se referia. — Deus, é tanta emoção que eu esqueci disso— falei para a irmã mais nova de Tyler. — Bem, eu só vim com Tyler até aqui para evitar que ele tivesse um ataque do coração, antes de te ver. Ou que essas flores fossem parar no chão, na hora da emoção. Agora que já fui usada como bengala emocional, vou aproveitar que estou perto da estilista e ir experimentar o meu vestido para o grande dia— ela piscou para mim, me dando mais um abraço rápido e batendo com a mão no peito do seu irmão, antes de sair andando. — Nós já vamos indo, não é Martin? — falei com ele, o chamando pelo nome do meio. Cara abriu um sorriso satisfeito, ao reconhecer que eu não mentia quando chamava o meu namorado de Martin. Bati com a mão na direção de Ethan e Dom, não entendi o motivo de não terem se aproximado e interagido com Tyler, mas eu pensaria sobre isso depois. — Claro— o meu noivo desceu a mão dos meus ombros para a minha cintura, me guiando em direção ao banco de passageiro do seu carro. — NOS VEMOS MAIS TARDE— Cara gritou, antes que ele abrisse a porta para mim. Me joguei no assento e respirei fundo, pelo menos uma parte tinha dado certo.
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