Tyler
Cruzei a traseira do meu carro novinho. A BMW X5 branca não era cortesia dos meus pais, era suborno. Pelo casamento, pela minha insatisfação e pela revolta. Mais uma vez, não funcionou.
Entrei no banco de motorista, encarando Melina nos olhos. Pela primeira vez em muitos anos, estávamos sozinhos em um ambiente. A sua respiração era tensa, enquanto eu prendia o cinto de segurança no meu corpo. Conferia se ela havia feito o mesmo e, antes de dar partida, lembrei de perguntar:
— Você veio de carro?
— Não, o meu pai me trouxe, hoje cedo — se explicou.
Rapidamente, coloquei o endereço dos pais de Melina no computador de bordo. Eu não conhecia o tráfego do local, da última vez que estive na Califórnia, era novo o suficiente para não alcançar os pedais da direção, que dirá para tirar carteira de motorista. Percebi que Melina encarava a tela de fundo do celular desbloqueado, mas não comentei sobre isso, enquanto colocava o carro em movimento.
— Você quer que eu dirija? — ouvi o questionamento, em voz baixa, de Melina. Ainda não havíamos saído do estacionamento da faculdade e, mesmo assim, eu já tinha conferido o GPS por pelo menos três vezes.
— Preciso aprender, uma hora —Dei de ombros, tentando passar confiança.
— Você não sabe dirigir? — Os seus olhos se arregalaram.
— Não é isso! Eu sei dirigir, mas nunca encostei em um volante, fora da Europa. Nicole me trouxe— expliquei como havia chegado na sua faculdade. Diferente de mim, a minha irmã mais nova nunca deixou de viajar para os Estados Unidos, então não me surpreendia que ela soubesse se virar tão bem por aqui.
—Nós vamos deixar o campos, cruzar Beverly Hills e logo estaremos em West Hollywood. É simples, mas eu vou te guiar— falou, com o tom de voz calmo. Melina pareceu mais tranquila ao encontrar algo para prestar atenção e nos distrair do silêncio constrangedor. — Não há muito engarrafamento em Paris? Me lembro de perder algumas horas no trânsito, das vezes em que visitei a França.
— Algumas pessoas dizem que Paris é a capital mais engarrafada da Europa, não sei se há fatos que realmente comprovem isso. Eu só dirigia por curtas distâncias, dentro da cidade, e tentava usar o transporte público, que é funcional e eficiente. Gostava de viajar para o interior, nos fins de semana, mas o trânsito ficava mais tranquilo, conforme nos afastávamos do centro.
—Se o transporte público de Los Angeles fosse como o de Nova York... Se bem que há muito trânsito por lá, também— ela deu de ombros.
— Acho que por mais bem estruturada que seja a cidade e o seu transporte público, é difícil fugir dos engarrafamentos quando a população é grande e o número de pessoas circulando diariamente é maior ainda, por conta dos turistas e das pessoas que trabalham ali e moram em cidades mais afastadas. Aquelas cidades planejadas do Oriente Médio, com vias com muitas faixas, não devem ser engarrafadas, mas também não são superpopulosas.
— Brasília, a capital do Brasil, foi desenhada, planejada e construída. Mas, sinceramente, não sei dizer se é uma cidade com congestionamento de tráfego ou não. — Percebi que algumas coisas não haviam mudado, Melina continuava sendo extremamente inteligente e espalhando o seu conhecimento de maneira natural, sem nem perceber o que estava fazendo.
— Também não faço ideia— respondi, dando uma risada fraca. — Ouvi dizer que o Egito está construindo uma nova capital...
— É parecido com o que aconteceu com o Brasil na década de 60. Não sei as razões por trás, no caso do Egito e da substituição de Cairo. No Brasil, muitas pessoas dizem que isso aconteceu para isolar os três poderes do povo, dificultando protestos e a aproximação dos políticos com as grandes massas, como acontecia no Rio de Janeiro. Sei que o Brasil tem dimensões continentais e uma capital no meio do território parece geograficamente viável, mas a população dessa área era muito pequena, comparada com a que circula o Rio e São Paulo, por exemplo, que são duas cidades não muito distantes uma da outra.
— Vejo que você continua apaixonada por história e geografia. E que o tempo que passou no Brasil te fez bem— Falei, enquanto ela me apontava as direções em que eu deveria seguir, com a mão.
— Como você sabe que passei um tempo no Brasil? —Me questionou, parecendo surpresa.
— Nos falávamos com mais frequência nessa época, eu acho. Ainda trocávamos mais do que mensagens de Feliz Natal, Ano Novo e Aniversário— Falei, tentando não soar grosseiro, mas dizendo a verdade.
— Como permitimos que as coisas chegassem a esse ponto? — Era uma pergunta retórica, nós dois sabíamos que a culpa era minha.
— No fim do dia, cada um de nós seguiu o seu caminho. Sabíamos que os nossos destinos precisariam se cruzar lá na frente, acho que precisávamos ser "independentes um do outro"— dei a minha opinião, como um covarde que não conseguia admitir os próprios sentimentos, as próprias confusões.
— Você não está conformado com isso, está? —Melina me perguntou, de forma direta. Respirei fundo, pego de surpresa e tentando buscar as palavras corretas para me expressar.
— Eu não achei que fossemos ter essa conversa tão cedo— desabafei, também de forma espontânea.
— Não deveríamos, talvez— ela deu de ombros. Percebi que Melina se arrependeu de ter entrado naquele assunto e que agora tentava fugir— Eu tenho muita coisa com o que me preocupar. Preciso terminar a organizar as coisas do casamento e temos que planejar os detalhes da nossa farsa, para que ninguém nos pegue na mentira.
— Não precisa ter medo de me perguntar as coisas, Nina— falei, tentando estreitar os nossos laços, de uma forma ou de outra.
— Eu só... Não consigo parar para pensar nas milhares de coisas que eu preciso fazer, sem antes ter certeza de que não vou ser abandonada no altar! — Notei o medo e angústia na sua voz, pela primeira vez. Eu não conseguia acreditar que, para Melina, o pior cenário seria ser abandonada no altar. O pior cenário seria não conseguir cumprir um pedido dos seus pais, pedido esse que ela ao menos queria realizar.
E eu entendia que seria uma humilhação imensa, mas isso não aconteceria. E se acontecesse, ela se livraria da culpa de ter dado errado, podendo usufruir da liberdade oferecida pelo erro. Honestamente, se houvesse chance disso acontecer, eu estaria torcendo para ser abandonado no altar.
— Eu nunca faria isso contigo, Melina. Não importa a raiva que eu sinta dos meus pais por tudo isso, quem pagaria o preço da humilhação seria você e, bem, não é você quem está me obrigando a casar. Eu não te faria pagar por um erro que não é seu! — Mais uma vez falei o que precisava ser dito, sem joguinhos e sem mentiras. Não havia por que e nem como mentir para ela, ela perceberia. E eu seria o pior ser humano do mundo se apenas pensasse em fazer algo do tipo com ela.
— Eu não sabia se podia ter certeza disso, até ouvir da sua própria boca. Eu não te conheço mais, Tyler. E não sei se você ainda sabe quem eu sou.
— Nós dois somos vítimas dessa situação, Nina. Até que os nossos pais tenham coragem de nos contar o porquê disso tudo, não saberemos se eles também podem ser considerados vítimas. Podemos enxergar o casamento de maneiras diferentes: eu culpo os nossos pais, você se lembra do arrependimento que eles demonstram. Independente disso, nós estamos do mesmo lado! Quem irá pagar? Quem sofrerá as consequências? Nós! Isso aqui não é um jogo para jogarmos um contra o outro. Somos uma equipe novamente!
— E se eles também forem vítimas, Tyler? — Consegui perceber o choro travado na sua garganta, o medo e o desconforto que aquela conversa trazia, que o nosso futuro iria expor.
— Normalmente uma vítima tenta se defender, tem a tendência de dizer que não é culpada e explicar o porquê. Se eles estão assumindo a culpa por algo ou alguém, vou acha-los de uma grandeza e bravura imensa: correram o risco de serem odiados pelos próprios filhos, em prol de algo, de uma causa.
— Mas eles nunca tentaram nos explicar, nem uma vez— ela chegou as suas próprias conclusões. Concordei com a cabeça e continuei a dizer:
—Eles nos comunicaram e buscaram uma maneira de nos fazer aceitar. Nós fomos manipulados, isso não é o tipo de coisa que se diz para uma criança, porque ela vai concordar e achar incrível. E quando crescer, vai perceber que é tarde demais para voltar atrás, que aquele "sim" dito em anos de imaturidade vão definir a sua vida.
— E se houvesse um motivo plausível, acha que eles nos contariam? — deu corda para mim, me instigando a revelar mais dos meus pensamentos.
— Seria infinitamente mais fácil. Se fosse um motivo plausível, nós aceitaríamos com mais facilidade, não é? Além de tudo, eles não confiam que somos maduros o suficiente para sabermos da verdade, o que é ridículo. Somos adultos para nos casar e limpar a barra deles, mas não para saber o porquê de precisarmos fazer isso?
— Então, na sua cabeça, eles estão fazendo isso de propósito? Eles não têm uma motivação além da vontade de nos ver juntos e uma dose de m*l-caratísmo? — Voltou a me apertar por mais respostas.
— Na minha cabeça, eles acreditam que essa é a melhor escolha, para nós dois. E para mim, quando eles fizeram esse acordo, eram jovens, inexperientes e extremistas quanto a esse tópico. Fizeram algum tipo de acordo que não pode ser revertido, que envolve dinheiro ou algo ainda pior, e se arrependeram logo em seguida. Mas ainda assim, acho que eles vão gostar de nos ver casados, acho que se culpam somente pela forma como isso vai acontecer, não pela união.
— Se parece com uma teoria da conspiração, para mim. Acha que eles não nos contam o motivo, porque o motivo é ridículo demais para nos convencer a levar isso para frente— ela não me questionou, aquela era apenas a sua leitura e interpretação do que eu havia lhe dito— Acha que vamos conseguir ficar casados?
— Acha que não? — Rebati a série de perguntas que Melina havia me feito— Não vejo porque não conseguiríamos. Você mesma se acostumou com essa hipótese, depois de ouvi-la por tantos anos.
—Me dói saber que, para você, isso nunca se tornou algo natural. Não é pela decepção ou pelo medo da rejeição, mas porque eu genuinamente não queria que esse casamento se parecesse com o inferno, para você.
— Você está na exata mesma situação que eu, Nina.
— Não, não estou. Eu encarei as coisas de uma maneira diferente, eu aceitei digerir isso, ano após anos. Para você isso se transformou em uma acidez que o meu estômago já foi capaz de combater. Eu nunca deixei que isso se tornasse um pesadelo e, não me entenda a m*l, eu não te julgo pela maneira como você decidiu levar essa situação, mas ela te levou para um caminho diferente do meu, isso é nítido.
— Sentiu medo de como seria, quando nos encontrássemos? — Foi a minha vez de perguntar.
— O tempo todo! Senti mais ainda, depois que descobri da sua revolta. Quando pensava em me casar dessa forma, quando entendi que não havia outra saída, só consegui agradecer por ser com você, por você ser o meu noivo. Um pesadelo seria se fosse com um homem que eu não conheço, porque apesar de não saber mais quem você é, eu conheço a sua índole, eu sei que você não me machucaria, nem física, nem emocionalmente. Ainda assim, achei que você não ia querer olhar na minha cara, quando voltasse. Pensei que teria raiva de mim, por aceitar um destino que você ainda luta para combater.
As palavras sumiram da minha boca, que de repente ficou seca. Senti uma leve tontura me atingir e segurei o volante com força, antes de dizer da forma mais impessoal que consegui:
— O mínimo que os seus pais poderiam fazer era garantir que, já que estão obrigando a se casar, o seu noivo não seja um monstro que vai te humilhar, te bater ou te estuprar. — Deus, eu fico enojado só de pensar nessa hipótese. Se há um ponto bom nesse casamento é que, pelo menos assim, eu posso garantir que Melina não estará junto de um homem que a fará passar por isso.
— Os nossos pais tiveram que tomar escolhas difíceis, mas estão fazendo isso por amor a nós, às nossas irmãs. Pode parecer um amor torto e incompreensível, mas eu sei que quando pudermos entender, tudo fará sentido!
— Eu admiro a sua maneira positiva de encarar a vida, Nina! Se eu não te conhecesse a tanto tempo, até diria que você está gostando dessa ideia de casamento e que é apaixonada por mim— falei, tentando aliviar o clima que se formou entre nós. Ela riu alto, pela primeira vez, desbloqueando antigas memórias dentro de mim. Sorri também, eu sentia falta dela.
— Talvez um dia você acabe descobrindo que a ideia de casamento foi minha e que eu precisei convencer os nossos pais a levarem ela para frente. —Brincou também.