Melina
— Acho que essa é a sua tentativa de garantir uma vaga no céu, Melina. Não ir contra o que os seus pais planejam para você, mesmo sendo o maior absurdo da história, e pagando todos os seus pecados com isso.
— Só vou estar pagando os meus pecados se você fizer questão de transformar a minha vida em um inferno— respondi, em tom de brincadeira.
— São tantos pecados assim?
— Você não faz ideia— deixei as palavras no ar. — E eu já contestei, Tyler. Muito, na verdade. Já fiz todos os questionamentos cabíveis e não desisti quando não obtive respostas. Eu cansei, uma hora precisei aceitar que, nem se um meteoro cair na minha cabeça, nada vai mudar que, daqui a uma semana, eu tenha uma aliança de casamento no meu dedo.
Aproveitando-me do momento, encarei a sua mão direita, apenas para ter certeza de que ele também usava a aliança de namoro. Apesar de não ser culturalmente tão comum nos Estados Unidos, eu insisti para que tivéssemos uma, se tornaria mais fácil explicar um namoro que ninguém entendia, quando existia algum símbolo físico para ele.
Junto a aliança, na minha mão, também havia espaço para o anel de noivado que Tyler me enviou da França. A princípio, pensei que ele não se daria ao trabalho de comprar um e provavelmente pediria para que a sua mãe cedesse o dela. Quando o anel chegou e eu percebi ser uma peça nova, entendi que Tyler jamais me daria algo de tanto valor sentimental e amoroso para a sua família, como símbolo de um relacionamento falso. Eu não podia julga-lo por isso, era uma decisão sensata, muito mais do que revoltada.
Sem pedido, sem romantismo, enfiei sozinha o anel de noivado no meu dedo e segui a minha vida. Quando me perguntavam como foi o pedido de casamento, era exatamente isso que eu tinha vontade de dizer.
— Eu sempre usei, desde que você me mandou um e-mail exigindo que eu os comprasse. Não tiro nem para tomar banho ou dormir —aproveitou estarmos parados em um sinal de trânsito para soltar o volante e circular a aliança com o dedo, comprovando que havia percebido o meu olhar.
— A sua mãe me contou que sugeriu usar o anel de noivado dela— me arrependi de ter tocado no assunto, apesar da curiosidade para saber qual justificativa ele usaria.
— E eu pensei seriamente em aceitar a sugestão. Não pense que não o fiz porque o nosso casamento não é convencional. Pelo contrário, se fosse para dar a alguém um anel com tanto valor familiar, pode ter certeza que eu daria para você!
— Então, por que decidiu comprar um novo?
— Acho que cada casal precisa construir a sua história através dos próprios símbolos. Não acho que seria justo arrancá-lo da mão da minha mãe, junto de toda a história de trinta anos de casamento que ele carrega. Também não gostaria de ver o meu filho tomando o anel de você, para entregar para a mulher com quem ele desejará se casar.
Me surpreendi ao vê-lo falar de filhos. Ao vê-lo sugerir que poderíamos ter filhos juntos. Tentei disfarçar a confusão que se passou pela minha mente, após o seu comentário.
— Você fez uma boa escolha! — admirei o anel na minha mão.
— Eu estava na dúvida se você gostaria de receber o anel mais caro ou o que mais combinaria com você...
— Eu não sou materialista— me defendi.
— Eu sei que não, mas vivemos em uma sociedade que é. E que reclama de quem pensa de forma contrária. Esmeralda pode não valer tanto, nem ser um símbolo de status como o diamante, mas combina com os seus olhos.
O anel era feito de ouro dourado, o que fazia com que ele combinasse com as minhas outras joias. A pedra redonda e verde ao meio era delicada, mas grande o suficiente para ser vista. Era o anel de noivado dos meus sonhos!
O encaixe com a aliança de namoro era tão bonito que eu tentaria combinar os dois com a minha aliança de casamento, no mesmo dedo. Ela era fina e de fundo dourado, com minúsculas pedras preciosas, que julgo também serem esmeraldas, circulando-a.
— Como foi? — o questionei, ainda guiando o caminho até a minha casa. O engarrafamento estava nos tomando bons minutos parados.
— Como foi, o quê? — Rebateu, parecendo confuso.
— Como foi, para você, o período em que passamos fingindo a distância?
— Se quer saber se eu estive com outras mulheres, nesse período, a resposta é não. — Disfarcei o suspiro aliviado, ele me deu uma resposta para uma pergunta que eu não fiz, mas que sanou dúvidas que vinham tirando o meu sono.
— Esse não foi bem o intuito da pergunta, mas me deixa mais tranquila saber que não fui a única forçada ao celibato.
— Posso dizer que foi menos difícil, para mim, do que para você. Quando eu disse que estava namorando e falei querer manter o meu relacionamento privado, todos pareceram me entender e pararam de perguntar. A falta de contato com a mídia, nos últimos anos, também ajudou. Tinham poucas informações, só souberam pelo que postei e pela aliança que surgiu no meu dedo. Quando os meus amigos perguntavam sobre você, eu fugia de respostas que poderiam entregar a sua identidade e te chamava de Nina.
— Eu te chamava de Martin —Dei uma risada fraca.
— Sentiu muita raiva de mim, nesse tempo? — questionou. Na infância, eu só o chamava assim quando estava estressada com Tyler.
— O tempo todo— confessei.
— Intimidador! As coisas não foram tão simples, para você, não é?
— Não foi tão difícil com os meus amigos. Eles me respeitam e nunca demonstraram desconfiança, apesar de eu perceber sentirem, as vezes. Mas eles nunca deixaram de me apoiar, enquanto eu me sentia péssima por precisar mentir. A parte mais complicada nem foi a mídia, porque eles tentavam especular sobre quem você era e eu já imaginava que isso iria acontecer.
— Quem fez da sua vida um inferno foram os seus colegas de faculdade? —me perguntou.
— Exatamente. Foram eles que começaram a levantar os boatos de um noivo inexistente. Eles fizeram isso chegar na mídia e, pense bem, a informação parecia confiável, quando veio de pessoas que convivem comigo diariamente.
— E o que eles pensavam? Que você iria subir o altar sozinha e se casar consigo mesma?
— Ouvi alguns dizerem que eu fingiria ter sido abandonada no altar. Outros falavam que eu me aproveitaria da situação para revelar a minha paixão nunca superada e, como você provavelmente seria um dos convidados do casamento, eu tentaria te forçar a casar comigo, por pena. Mas acho que a maioria achava que o casamento não aconteceria, o que era a hipótese mais coerente, de toda essa loucura.
— Porque nem os convites foram distribuídos ainda...
— Exatamente! Se eles vissem o convite com o seu nome, antes de você estar aqui, tentariam me internar em um manicômio ou algo do tipo.
— Acho que os seus colegas de faculdade andam assistindo muitos filmes de comédia romântica. No século em que nós estamos, cogitar essas possibilidades não parecem coerentes.
— E ter um casamento arranjado é normal, na nossa sociedade e no tempo em que estamos, Tyler? — questionei, com a voz cheia de ironia.
— É, você tem um bom de um argumento. Mas não defenda essa gente, eles pensavam que você era doida.
— Achar que eu sou doida é o de menos. Você mesmo estava insinuando isso, quando descobriu que eu não estou revoltada como você está, com esse casamento forçado.
Tyler ficou sério do nada, passando alguns segundos em total silêncio. Eu já estava começando a ficar incomodada e prestes a puxar um assunto bobo, quando ele enfim voltou a dizer:
— Preciso te perguntar algo.
— Diga, oras.
— Você, em algum momento, já me enxergou como um irmão?
— Eu deveria responder que sim? Porque, honestamente, não acho que tenha te visto dessa forma, em algum momento. Não é só porque crescemos juntos que precisamos, automaticamente, ter criado um laço de irmandade.
— Que bom, porque eu penso da exata mesma maneira!
— Eu não aceitaria me casar com você, se te enxergasse como o meu irmão. Seria estranho, ainda mais!
— Eu provavelmente estaria com o rosto enfiado na privada, nesse momento, se te considerasse a minha irmã— ele disse.
— Por que?
— Porque nos beijamos.
— Podemos considerar aquilo como um beijo?
— Quando sabemos que virão outros, acho que ganhamos esse direito.
A nossa convivência e amizade de infância envolvia uma paixão platônica, pelo menos da minha parte. Se não tivéssemos sido afastados pela distância entre Paris e Los Angeles, aquele sentimento provavelmente teria sido descoberto, aprofundado, desbravado e evoluído, ainda na adolescência.
Eu sabia que teria me apaixonado por ele, se ele tivesse ficado.
Mas ele foi embora.
E agora que voltou, não sei se ainda há tempo.
Não sei se continuamos sendo os mesmos.
Não sob as novas circunstâncias da nossa vida, do nosso relacionamento.
— Vire aqui— voltei a prestar atenção no caminho, enquanto nos aproximávamos da minha casa.
— Quais serão os limites do nosso relacionamento?
— Como assim, Tyler? Está me perguntando se os nossos pais vão nos obrigar a consumar esse casamento? Porque não teria como eles saberem.
— Não, não é isso. Eles não seriam tão loucos...
— É nítido que precisaremos nos beijar, nos tocar. Seja no altar ou no dia a dia, precisaremos nos esforçar para parecermos convincentes. Acredito que, assim como eu, você não queria passar pela humilhação de descobrirem que o seu relacionamento é uma farsa.
— Deixe para lá, Nina —Ele desistiu de explicar o que queria dizer, o que me deixou nervosa com a situação. Respirei fundo, tentando buscar uma forma de amenizar as coisas:
— Sei que você está há dois anos sem ter ninguém, assim como eu. Acho arriscado mudarmos isso agora, às vésperas do nosso casamento. Mas depois, nós vamos dar um jeito nisso e os olhos não estarão mais tão focados para nós. Então, quando sentir necessidade, me avise. Eu quero saber, eu quero ter certeza de que você está com alguém de confiança, em um local seguro dos olhos alheios.
— Melina, eu não vou t*****r com outra mulher, enquanto estivermos casados. Deus, nem que eu morra com o meu p*u atrofiado. Eu não estava sugerindo uma traição!
— Não se sinta m*l por pensar nisso, Tyler. Eu também me preocupo com isso. Não é porque aceitei a situação que concordo com todos os termos...
— Você pretende dormir com outros caras? —questionou-me, sério.
— Se eu não fiz isso nos últimos vinte e quatro meses, enquanto você estava longe e nunca iria descobrir, não vai ser contigo aqui, depois de nos casarmos, que eu vou fazer.
— Pensou em fazer isso alguma vez, enquanto eu estava longe? —me perguntou, de forma direta.
— Não vou negar, Tyler. Senti desejo, mas nunca nem cogitei a possibilidade de te trair! Você, assim como eu, sabe como isso tem sido difícil. Mas isso está parecendo um interrogatório —falei, me sentindo desconfortável.
— Estou tentando entender como esse casamento mudou a sua vida, Nina. Acho que preciso conhecer as consequências da minha presença, entender como a farsa ajudou a formar a mulher que você é hoje, como você lidou com cada situação. Só depois que eu entender e descobrir quem você é hoje, vou poder comparar com a pessoa que eu conhecia lá atrás.
— Tenho um pouco de medo dessa forma bruta de nos conhecermos, tenho medo de que acabemos forçando uma i********e que costumávamos ter lá atrás, mas que não faz mais parte de quem somos hoje, apenas para que a situação aparente estar mais confortável para nós. — Confessei de uma vez. Eu falava demais, quando estava nervosa. Explicava a mesma coisa várias vezes.
— Precisamos dar um jeito de encontrar algo que faça isso funcionar, Melina. Não quero viver em um inferno com você, te prejudicar e atrapalhar a sua vida é a última das intenções, apenas quero e preciso provar para nossos pais que eles foram imprudentes.
— Tenho quase certeza de que eles já descobriram isso por si só...