Paula narrando
— Eu não fiz nada com ele! — eu gritei de volta, já sentindo minha voz falhar de nervoso, porque todo mundo começou a falar ao mesmo tempo e por um segundo eu tive medo de alguém puxar o gatilho por impulso antes de entender qualquer coisa.
— Eu achei ele na pista, ele entrou no meu carro baleado, tinha gente atrás dele atirando, eu trouxe ele pra cá porque ele mandou vir pro Lins, então tira essa arma da minha cara e ajuda ele antes que ele morra dentro do meu carro! — eu falei tudo de uma vez, com a respiração embolada, e o moleque olhou de mim pra ele, dele pra mim, completamente transtornado, como se o cérebro dele também não estivesse conseguindo encaixar aquela cena absurda.
O rádio começou a chiar, gente começou a correr, alguém gritou o nome da Juliana e outro moleque saiu disparado morro acima, mas antes que qualquer ordem fosse realmente dada, eu ouvi o ronco de uma moto vindo rápido demais, cortando a rua com violência, e quando virei o rosto vi Juliana surgindo como um furacão, descendo em alta velocidade, sem capacete direito, com os olhos arregalados e a arma presa na cintura. Ela freou do lado do meu carro com tanta força que a moto quase atravessou, jogou a perna por cima antes mesmo de estabilizar e veio até a janela empurrando quem estava na frente, gritando com uma voz que eu ainda não tinha ouvido nela, uma voz quebrada de medo e ódio.
— Libera essa p***a agora! Sai da frente, c*****o! Abre caminho! — ela berrou, mas quando olhou para dentro do carro e viu o irmão daquele jeito, o rosto dela perdeu a cor de uma forma tão humana que por um segundo eu não vi mais a frente do dono, não vi a mulher armada, não vi a marra, eu vi só uma irmã olhando para o homem que amava sangrar como se a vida estivesse escorrendo dele.
— como tu conhece o caminho p***a ? — ele fala marrento mas completamente fora de si, mas querendo manter a pose
— cala a boca que eu to tentando salvar a tua vida — eu falo curta e grossa com ele sem nem um pingo de paciência com a adrenalina a mil
Juliana bateu a mão na lataria do carro e apontou para a rua com desespero.
— Segue minha moto, Paula, segue minha moto e não deixa ele morrer — ela fala desesperada e aquilo só me deixou mais nervosa
Ela subiu na moto de novo e arrancou na frente, e eu fui atrás, passando pela barricada enquanto os vapores abriam caminho aos berros, tirando moto, cadeira, pedaço de madeira, qualquer coisa que estivesse no meio, e eu dirigia com o corpo inteiro tremendo, tentando acompanhar Juliana pelas ruas apertadas, pelos buracos, pelas curvas impossíveis, enquanto o carro balançava tanto que eu tinha medo de piorar ainda mais os ferimentos dele.
Foi numa dessas curvas que eu olhei de relance para o banco e percebi que o Bomba tinha apagado de novo, mas dessa vez o silêncio dele me pareceu diferente, pesado, fundo demais. Meu sangue gelou.
— Ei, não faz isso comigo não… — eu falei num desespero baixo, esticando a mão sem tirar completamente os olhos da rua, apertando o ferimento que sangrava mais forte perto do peito, mas ele não reagiu, não xingou, não respirou mais alto, não fez nada que me desse certeza de que ainda estava ali comigo. Apertei de novo, mais forte, sentindo o sangue quente escorrer pelos meus dedos, e mesmo assim ele continuou mole no banco, com a cabeça virada para o lado e a boca entreaberta.
— Acorda, c*****o, acorda agora, porque eu não atravessei essa cidade inteira levando tiro pra tu morrer faltando duas ruas! — eu gritei, já fora de mim, e quando ele não voltou, quando o corpo continuou pesado e silencioso, eu enfiei os dedos no ferimento do ombro, sem pensar, movida só pelo pânico de perder ele antes de chegar.
O berro que ele deu cortou o carro inteiro e quase me fez perder a direção.
— p**a que pariu, sua desgraçada! Tu enfiou o dedo no meu tiro, c*****o! — ele rugiu, voltando como se tivesse sido arrancado de um buraco, os olhos arregalados de dor e fúria, a mão tentando agarrar meu braço pelo espaço entre os bancos. Eu respirei tão fundo que quase chorei de alívio, mas a raiva veio junto, grossa, quente, desesperada.
— Enfiei e enfio de novo se tu apagar outra vez! Fica acordado, p***a! Tu é dono dessa favela ou é um homem mole que vai morrer no banco do meu carro sem nem me explicar que inferno aconteceu? — eu gritei, e ele me encarou pelo retrovisor com uma mistura de ódio, dor e alguma coisa que eu não consegui entender, porque mesmo acabado daquele jeito, mesmo com a vida escorrendo dele, ainda havia uma força absurda naquele olhar.
— Tu é maluca… — ele rosnou, apertando o ombro com a mão ensanguentada enquanto tentava se ajeitar no banco respirando fraco
Quando chegamos ao postinho, eu entendi imediatamente que aquilo era mais improviso do que estrutura. Era uma construção antiga, com a pintura descascada, luz branca falhando na entrada, maca enferrujada aparecendo pela porta aberta e um cheiro de álcool, mofo, sangue velho e desespero misturado no ar. Juliana largou a moto no chão e correu para o carro antes mesmo de eu frear direito. Os moleques já vieram junto, abrindo as portas, gritando por enfermeira, por médico, por gaze, por maca, por qualquer coisa que pudesse manter aquele homem vivo, e quando puxaram o Bomba para fora, ele tentou resistir por instinto, tentou xingar, tentou mandar alguém sair de perto, mas o corpo já não obedecia como antes. Eu desci junto com as pernas bambas, as mãos cobertas de sangue, a roupa manchada, o cabelo grudando no rosto por causa do suor e do vento, e fiquei parada por um segundo olhando eles carregarem aquele homem enorme para dentro daquele lugar precário, decadente, apertado, onde a vida dele agora dependia de gente correndo no improviso e de uma favela inteira segurando a respiração do lado de fora.
Juliana passou por mim como um raio, mas parou antes de entrar, voltou dois passos e me encarou com os olhos vermelhos, a boca tremendo de raiva e medo.
— O que aconteceu com meu irmão, Paula? — ela perguntou, e pela primeira vez desde que eu conheci aquela mulher, a voz dela não saiu cheia de deboche, saiu quebrada, quase implorando por uma resposta que eu não tinha.
Eu olhei para minhas mãos sujas de sangue, depois para a porta do postinho onde os gritos se misturavam com ordens desesperadas, e senti o peso daquela noite cair inteiro sobre mim.
— Eu não sei, Juliana… — falei com a voz baixa, mas firme, porque eu também precisava entender aquela p***a antes que ela engolisse todo mundo. — Eu só sei que encontraram ele antes de mim, tentaram matar ele na pista, e se eu não tivesse atropelado teu irmão, talvez ele estivesse morto agora — eu falo agoniada vendo minhas mãos toda suja de sangue sem acreditar no que eu tinha acabado de viver
— cadê o jc ? Alguém acha o jc e os seguranças AGORA — a Juliana berra no meio de todo mundo e eu paro do seu lado vendo ela se tremer todinha e engolir o choro
— Juliana ? — eu chamo ela pelo nome e ela sai entrando no postinho e foi por puro instinto eu saí seguindo ela com o coração na mão, se eu já estava me sentindo presa a esse morro antes agora a vida tinha colocado uma corrente no meu pé e me arrastado aqui pra dentro com tudo…