Capítulo 05

988 Words
Paula narrando Eu não conseguia raciocinar direito. Meu corpo inteiro estava em estado de alerta e eu sentia o coração bater tão forte que parecia estar pulsando dentro da garganta, porque tudo estava acontecendo rápido demais e eu ainda tentava entender em que momento o meu dia tinha virado aquela loucura. Horas antes eu estava sentada numa boca de favela negociando com a irmã daquele homem, tentando impedir centenas de famílias de perderem suas casas, tentando montar um plano, pensando em como destruir o projeto do Leandro e em como virar aquele jogo sem ferrar trabalhador nenhum, e agora eu estava correndo pela cidade com o carro praticamente voando, atravessando sinal vermelho, ouvindo tiro comer atrás de mim e com o homem que eu tinha passado o dia tentando conhecer sangrando dentro do meu carro. Parecia tão absurdo que minha cabeça simplesmente não acompanhava a velocidade das coisas, porque eu ainda estava tentando entender quem estava atrás dele, o que tinha acontecido, quem teve coragem de encostar no dono daquela favela daquele jeito e, principalmente, por que a vida tinha decidido cruzar a nossa história daquela forma. Eu conhecia o caminho do Lins. Conhecia exatamente. Horas antes eu tinha passado pelas ruas da comunidade, tinha entrado, saído, rodado, subido e descido aquelas vielas atrás de respostas e agora meus olhos nem precisavam pensar para meu corpo agir, porque eu sabia exatamente para onde ir. O problema não era o caminho. O problema era o homem no banco de trás. O problema era olhar pelo retrovisor e ver que ele estava perdendo sangue demais. O problema era perceber que, apesar do tamanho absurdo daquele homem, apesar da cara fechada, da fama, da postura e do jeito que todo mundo parecia temer ele, naquele momento ele estava destruído. A camisa estava encharcada, o banco do meu carro já estava completamente manchado e eu conseguia sentir o cheiro forte de sangue misturado com pólvora entrando pelas janelas quebradas enquanto o vento da velocidade batia no meu rosto. Eu apertava o volante com tanta força que meus dedos estavam doendo e, pela primeira vez em muito tempo, eu estava nervosa num nível que não conseguia controlar. Olhei rápido pelo retrovisor e vi a cabeça dele pender pro lado por alguns segundos. Meu estômago afundou na mesma hora e sem perceber eu acelerei ainda mais, porque uma sensação horrível atravessou meu corpo. Eu não sabia o nome dele. Eu não sabia quase nada sobre ele. Só sabia que aquele homem era o dono do Lins, que era irmão da Juliana, que protegia aquela favela e que a comunidade inteira parecia colocar a vida na mão dele. Mas eu sabia reconhecer quando alguém estava apagando, e aquilo me apavorou de um jeito que eu nem soube explicar. — Ei… — eu falei olhando pelo espelho enquanto desviava de um carro. — Ei, não faz isso comigo não, ouviu? Fica acordado. — eu falo e pressiono o ferimento dele com uma das mãos fazendo ele voltar — c*****o o jc, ele rodou, c*****o…— ele resmunga ainda de olhos fechados e meio apagado, e eu não fazia ideia do que ele estava falando mas eu estava morrendo de medo — Pelo amor de Deus, abre esse olho. — minha voz saiu nervosa e eu nem percebi. — Eu já tô metida nessa merda até o pescoço, então colabora comigo porque eu não vou chegar na tua favela carregando um cadáver no banco do meu carro — eu falo nervosa demais Eu entrei no Lins com o coração batendo tão forte que parecia que meu peito ia rasgar por dentro, porque eu conhecia aquele caminho, eu sabia exatamente por onde seguir, eu tinha passado por aquelas ruas poucas horas antes com a Júlia chorando do meu lado e a Juliana me conduzindo como se estivesse testando até onde ia a minha coragem, mas agora tudo parecia diferente, tudo parecia mais estreito, mais escuro, mais perigoso, mais vivo, como se a favela inteira tivesse sentido antes de mim que alguma coisa muito errada estava acontecendo. Eu abaixei os vidros de uma vez, comecei a piscar o farol sem parar e buzinei desesperada enquanto diminuía perto da barricada, tentando mostrar que não estava entrando escondida, que não estava fugindo, que precisava de passagem, porque no banco de trás o homem que eles chamavam de patrão estava perdendo sangue demais, respirando pesado demais e ficando quieto demais para alguém daquele tamanho, daquela fama, daquela presença absurda que mesmo ferido ainda parecia ocupar o carro inteiro. Os vapores saíram de todos os cantos ao mesmo tempo, armados, tensos, gritando uns com os outros, e o meu carro foi cercado antes mesmo de parar direito. Um deles bateu a mão no capô mandando eu frear, outro apontou o fuzil na minha direção, e eu reconheci na hora o mesmo moleque que tinha parado minha entrada mais cedo, o mesmo menino de quinze anos com cara dura demais pra idade, olhar velho demais pra quem ainda devia estar pensando em escola e não em arma. Ele veio até a minha janela com a mesma postura de antes, mas parou quando me viu, como se não esperasse que eu tivesse coragem de voltar ali tão rápido. — Tu de novo aqui, dona, tá viajando entrando desse jeito na favela, quer tomar um tiro c*****o… — ele falou já irritado, só que a voz dele morreu no meio quando os olhos passaram por mim e bateram no banco do meu lado, onde o Bomba estava caído, ensanguentado, com a cabeça pendendo de lado e a camisa grudada no corpo por causa do sangue. O moleque mudou completamente, e eu vi o desespero tomar conta do rosto dele antes mesmo da arma baixar. — Que p***a é essa? O que tu tá fazendo com o patrão, p***a? Que merda tá acontecendo? — ele gritou, e na mesma hora a favela inteira pareceu entrar em ebulição.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD