Paula narrando
Andar a favela toda de moto, tá aí uma coisa que eu não sabia que sentia falta, por mais que o lins seja completamente diferente de Belford Roxo, que saudade de andar livre assim, eu gosto muito do meu carro e do ar condicionado, mas nada como um vento na cara de uma favela que respira vida, e um cano de moto barulhento.
Chegamos na boca e a mulher achava que estava me intimidando, ela armada, os cara tudo de fuzil me encarando de cara fechada, se ela soubesse de onde eu venho e que eu não sou uma patricinha da pista, ela ia entender que pisar numa boca pra mim é terror nenhum, até porque eu sou cria como ela é, e cria nunca perde a raiz
— entra aí — ela fala abrindo a porta de um “escritório” e eu entro junto com ela — a doutora quer água ? Café ? Ou um tiro na testa pelo abuso de subir na minha favela ? — ela pergunta cheia de marra colocando a arma na mesa e eu dou risada
— primeiro que eu não sou doutora, segundo que arma não me intimada, o papo aqui é outro, e você sabe do que eu vim tratar, mas na real, eu quero entender que p***a aconteceu pra esses papéis virem parar na minha mão, e já de antemão eu te garanto, eu não vou demolir casa de nenhum pai de família — eu falo firme com ela colocando a minha bolsa no sofá quebrado que tinha ali na sala e ela me encara com deboche
— a doutora não sabe então como esses papéis foram pra tua mão, mas subiu aqui com a assinatura do teu marido ? — ela fala sentando na mesa cruzando os braços me encarando com deboche
— marido, falou certo, mas pra esse projeto continuar também precisa da minha, e por isso eu vim entender se era realmente o que estava escrito nessa merda aqui — eu falo com ela que se levanta e vem na minha direção
— e tu viu né ? E tu vai fazer o que ? — ela fala toda marrenta
— nós vamos fazer um acordo — eu não proponho, eu já imponho e ela me olha em dúvida — tu não me conhece, mas eu vim da favela, e se tem malandro querendo ser esperto pra cima de trabalhador, ainda mais safado de governo eu te proponho uma aliança, mas tu vai ter que confiar em mim — eu falo e ela ri
— confiar em tu dona ? Eu nem te conheço — ela fala e eu dou risada
— nem eu te conheço, mas eu conheço luta de trabalhador que o governo quer derrubar, tu vai ouvir meu plano ou não ? — eu falo e ela se senta no sofá me encarando e eu conto o meu plano pra ela
Eu odeio isso, ser safada, mas eu também odeio gente que age na malandragem errada, e eu sou uma ótima pessoa quando decido ser r**m.
— tá aí, eu gostei do teu plano, mas eu tenho que passar pro meu irmão, ele que manda aqui — ela fala e eu concordo
— e cadê ele que não tá aqui ? — eu pergunto já meio impaciente
— fora. Eu passo a visão pra ele e entro em contato contigo — ela fala se levantando parando na minha frente
— e como se nem meu número tu sabe ? — eu pergunto já imaginando a resposta
— Paula, eu só não sei a cor da tua calcinha, tirando isso eu já sei até onde tu mora e o horário que tu janta — ela fala e eu dou risada
— volto amanhã, espero falar com teu irmão, teremos bons negócios — eu falo esticando a mão pra ela
— tu não manda aqui Paula, espera o meu contato — ela fala e eu n**o abaixando a mão
— até amanhã… ? — eu faço citação ao seu nome
— Juliana — ela fala esticando a mão e eu aperto com firmeza — teu carro tá aí fora e manda a Júlia parar de chorar, ainda não vou te matar não — ela fala e eu saio rindo da sua sala
Sai da boca com geral me olhando de cara feia e a Júlia tava encostada no carro abraçada num menino chorando como se eu fosse sair dali morta
— para de chorar garota, eu tô viva, amanhã tô aqui — eu falo parando na sua frente e ela já vem me abraçando
— ai patroa, pelo amor de deus, quase morro do coração, teu marido não para de me ligar, minhas pernas tão até tremendo — ela fala abraçada comigo e eu n**o
— não atende ele e nem ninguém ouviu ? — eu falo e ela me olha em duvida — confia em mim chorona, amanhã eu tô aqui, fica aqui tá, não sai da favela — eu falo dando um beijo nela e entro no meu carro
— mas dona Paula ? — ela vem na janela e eu n**o
— amanhã, Júlia, amanhã — eu falo ligando o carro e dando partida
Eu desliguei o meu celular e saí acelerando pelas ruas do rio, parei num restaurante que eu gosto de almoçar em Belford Roxo mesmo, e fiquei olhando a favela, o ódio que eu tô sentindo do Leandro nem Deus explica, esse homem não é mais o que eu quero pra minha vida, ele não é quem eu conheci um dia, e não tá alinhado com o que eu quero pra mim, e eu posso ter empresa e tudo com ele, mas eu não quero mais ele como homem, eu vou continuar com ele pra seguir o plano que eu tô pro lins, mas eu não vou ficar com ele nada mais que tempo necessário, porque eu não mereço e não aguento mais essa merda desse casamento e desse homem.
Eu continuei meu dia, fui na praia, fui andar, eu queria colocar a minha mente no lugar, mas uma hora eu precisava voltar pra casa, já era noite e eu sabia que eu precisava voltar pra enfrentar o Leandro
Do nada eu senti um impacto sobre o meu carro e vi que tinha atropelado alguém, e imediatamente eu fui descer para poder prestar socorro, eu nem tinha reparado mas eu estava a 110km, numa via que é máxima de 60km/h, quando eu ia abrir a porta alguém voou pra dentro do meu carro e de repente muito barulho de tiros, eu fiquei apavorada, tomei um susto enorme
— segue, sai daqui, acelera essa p***a — um homem enorme estava com tiros no peito e na perna, todo rasgado, com a respiração ofegante, todo machucado, jogado no banco do carona ao meu lado
— mas… eu atropelei alguém, eu preciso prestar socorro — eu falo assustada com ele que me olha com a expressão de muita dor
— você me atropelou e agora precisa me tirar daqui antes que matem a gente — ele fala com a voz grossa e a mão no peito e ele estava perdendo muito sangue
— pra onde ? Quem é você ? Eu tenho que te levar pro hospital — eu falo nervosa acelerando e vendo aquele homem com uma arma toda suja na mão
— me leva pro lins, dona, pro lins — ele fala puto puxando um celular — atende Juliana, c*****o — ele grita puto com o celular na mão e eu só olho pra ele sem acreditar que a vida tinha me pregado uma peça tão grande dessa forma…
Eu tinha atropelado o dono do lins ?
— c*****o — eu grito e acelero ainda mais quando ouço o meu carro tomando um tiro que estoura o vidro de trás
— não para de acelerar — ele fala pulando pro banco de trás e começa a atirar também e eu não acreditava que eu estava passando por isso, parecia cena de filme
E eu em alta velocidade pelas vias cortando todos os sinais vermelhos, desviando de tudo, a caminho do lugar que eu menos acreditava no momento