Confesso que quando Henrique disse que éramos apenas amigos, aquilo me doeu por dentro, e acabei ficando sem jeito perto dele, pelo resto do dia. Acho que talvez, ele deve ter percebido, mas tentei ficar o mais longe possível. Queria afastar qualquer tipo de pergunta, e achei que as chances de eu ter encontrado o garoto certo para mim, havia acabado.
Naquele dia preferi almoçar sozinha no refeitório, fui minutos antes de todos os alunos chegarem lá para ninguém se sentar à mesa comigo. Queria poder ficar um pouco sozinha e pensar nas coisas que estavam acontecendo no hotel, e no meu coração. O que eu queria para mim? Seria Henrique? Mas, depois de hoje de manhã, comecei a duvidar disso.
— O que a minha menininha está fazendo aqui sozinha? — Perguntou Edu, me fazendo desligar-me dos meus pensamentos.
— Almoçando. — Respondi, tentando esquecer as coisas que se passavam por dentro de mim.
— Mas, por que sozinha? Vai me dizer que todos te abandonaram? — Ele perguntou.
— Não. Eu que preferi almoçar um pouco mais cedo hoje, o café da manhã não foi o suficiente. — Falei, tentando disfarçar.
— Me fala, o que aconteceu? — Ele perguntou.
— Henrique. Uma hora parece que a gente tem tudo, e outra hora parece que não temos nada. — Respondi, baixo.
— Os meninos são assim mesmo, mas tenha certeza de que quando ele não é tudo aquilo, não é por m*l. É porque algo deve estar acontecendo. — Ele falou.
Acabei fazendo companhia para Eduardo, enquanto o mesmo almoçava. Ficamos conversando e ele me deu vários conselhos em relação a homens e seus modos de agir. Digamos que as coisas que ele me falou, fez eu esclarecer várias dúvidas que tinha. Depois ele falou que tinha alguém para encontrar e se despediu. Acabei indo para a rede me deitar.
Naquele momento provavelmente todos estavam almoçando, e eu estava ali descansando e pensando na vida. Era h******l se sentir confusa com meus sentimentos, parecia que ia destruindo tudo dentro de mim. Não gostava daquela sensação.
Vi Aline indo até a porta do quarto, abriu e olhou procurando algo dentro, e depois virou-se para dentro. Quando me olhou, sorrio e veio até mim.
— Estava te procurando, não vai descer para almoçar? — Perguntou.
— Já almocei. — Respondi.
— Sozinha? — Perguntou novamente.
— Digamos que sim. — Respondi.
Ela desceu para almoçar, havia deixado Jonathan e os meninos esperando por ela lá em baixo. Enquanto isso, fiquei lá novamente sozinha. Tudo estava calmo, pouco que era o barulho que vinha do refeitório. O resto, era só a pura paisagem do lugar.
Resolvi ir dar uma volta na praia. Enquanto andava pela areia, comecei a reparar em cada canto do lugar onde estávamos, era tudo tão tranquilo. Não havia muitas pessoas na praia. Alguns meninos surfavam, fiquei sentada na areia olhando, e tentando entender como faziam todas aquelas manobras.
Olhei para o lado e um garoto alto, colocou uma prancha na areia, e começou a fazer alguns ajustes. Fiquei olhando, sem me tocar, que naquele instante ele também me olhava e não escondia o seu sorriso.
— Você é daqui? — Perguntou.
— Na verdade não, estamos com uma viagem da faculdade. — Respondi.
— Ah sim, você surfa? — Perguntou.
— Não, mas confesso que gostaria de aprender. — Respondi.
— Se você não tiver nada para fazer, eu posso te ensinar. Você só precisa esperar eu buscar outra prancha, mas é aqui perto. — Ele falou.
— Aceito sim. — Falei, e vi ele virando-se para ir buscar a prancha.
Alguns minutos se passaram, o que pareceu uma eternidade para mim. O menino, surfista não voltava. Quando ouvi um barulho, vi ele vindo para a areia, com outra prancha na mão. Ele sorria. Seus dentes eram bastante brancos.
Me levantei, e ele me entregou uma prancha. Me ensinou coisas básicas na areia, como se equilibrar na prancha, remar, etc... Então depois de alguns minutos na areia, fomos para o mar. Eu acho que até estava indo bem, mas uma onda acabou me desequilibrando e eu devo ter batido a cabeça em algum lugar, porque acabei apagando na hora.
Senti uma falta de ar imensa, e logo um lábio grudou o meu, me entregando todo o ar que eu precisava. Ouvia vozes por todos os lados. Foi quando eu consegui abrir os olhos, e um pouco da água salgada saía da minha boca.
— Ah você acordou. — Falou Lucas, o surfista.
— Você podia ter matado ela. — Ouvi a voz de Henrique soar desesperada.
Fiquei olhando em volta, ainda muito assustada e não conseguia dizer. Lucas me ajudou a levantar, e Aline me abraçava apertado, sua feição era como uma criança assustada, como se quase tivesse perdido alguma coisa.
— Parem de discutir e levem a Gabi para descansar. — Ela falou, me soltando.
Lucas fez questão de me pegar no colo e me levar até o meu quarto no hotel. Ele me pediu desculpa no caminho, e disse que nunca se perdoaria se algo tivesse acontecido comigo. O mesmo me colocou deitada na minha cama, com uma toalha de baixo para não molhar as coisas.
— Eu moro aqui perto, então se você precisar de alguma coisa, eu vou estar disposto a ajudá-la. Aqui está o meu número. — Ele falou, me entregando um pedaço de papel.
— Tudo bem. — Falei e nos despedimos.
Coitado do menino, na minha primeira aula de surfe já havia me deixado desmaiar, também, olha só, eu no mar, não dá certo. Depois mandaria alguma mensagem para ele não se preocupar. Naquele momento me levantei e tomei um banho, tirei a toalha da cama, e troquei o lençol. Alguém bateu na minha porta, quando abri Henri estava lá, me olhando.
— Fiquei preocupado. — Ele falou, entrando no quarto.
— Está tudo bem, foi só um susto. — Falei.
— Você poderia ter se machucado, aquele garoto quase te matou. — Ele falou.
— A culpa não foi do Lucas, ele me explicou tudo, eu que sou desajeitada. — Falei.
Me ajeitei na cama, e deixei um espaço para que ele viesse se deitar ao meu lado, e foi o que ele fez. Ele colocou seu braço em volta de mim, e coloquei minha cabeça em cima do seu peito. Ficamos nos encarando por um bom tempo.
— Estava com saudades. — Falei baixo.
— Eu também. Nunca mais vou ficar longe de você. — Falou seguro.
— Não briga mais comigo. — Falei manhosa.
— Desculpa, isso não vai se repetir. — Ele falou.
Inclinei um pouco a cabeça, para que ficasse da altura da dele. E selamos um beijo, que foi se tornando mais intenso e maior. Até que alguém abriu a porta rápido demais para que pudéssemos parar o beijo.
Quando olhei para a porta vi Eduardo parado nos olhando. Não sabia distinguir a sua feição. Ele não parecia nem bravo, nem normal. Fiquei lhe encarando por um tempo, até ele se aproximar cada vez mais.
— Como você está? — Perguntou. — Fiquei sabendo do que aconteceu. — Continuou.
— Estou bem. Foi apenas um susto. — Respondi.
— E pelo visto já tem alguém cuidando de você, então qualquer coisa me chama. — Ele falou, beijando o topo da minha cabeça.
— Obrigada. — Falei.
Ele foi até a porta e se retirou. Ficou um silêncio imenso entre eu e Henrique e aquilo já estava me assustando.
— Pensei que ele iria falar alguma coisa. — Falou Henri.
— Ele está ciente do que está acontecendo entre nós dois. — Falei, e ele fez uma cara de espanto.
— Você contou para ele? — Perguntou.
— E para minhas duas amigas também. — Respondi, e ele sorrio satisfeito.
— Contei para Jonathan. — Ele falou rindo.
Nós rimos, porque nenhum de nós seguimos com o nosso trato de não contar para ninguém o que estava acontecendo. Conversamos um pouco mais sobre nossa situação, e resolvemos ir aos poucos. Cada vez mais as coisas iriam ficar mais sérias.
Em nenhum momento me preocupei de soltar sua mão, depois que saímos do quarto. Fomos passando pelas pessoas, e todos ficavam nos olhando. Quando chegamos ao nosso grupo de amigos que estavam na mesa, eles começaram a nos aplaudir. Morri de vergonha naquele momento, e escondi meu rosto no peito do Henrique.
Fomos fazer nossos pratos, e depois nos juntar a eles. Sentamos numa mesa separada onde estavam Aline, Jonathan, Larissa e Ricardo. Eles sorriram ao ver nós dois juntos. Tentei me recompor, e me senti mais aliviada, só pelo simples fato de não precisar encarar todos aqueles olhares, sozinha.
— Estou feliz por vocês. — Aline falou.
— Eu também estou bastante animada com a ideia, de podermos sair em casais. — Larissa falou, olhando para Ricardo, como uma indireta.
— Gente calma, não estamos namorando, como Aline diz estamos só nos conhecendo. — Falei.
Jantamos naquela noite tranquilamente. Ficamos conversando durante o jantar todo. Todos concordamos que gostaríamos que aquelas férias se estendessem ainda mais. Mas sabíamos que daqui uma semana tudo voltaria ao normal.
Quer dizer, não tão normal assim. Teria o fato de Henrique e eu estarmos juntos e que tudo seria diferente. Aquilo me deixou bastante empolgada e tive que conter o meu enorme sorriso. Entregamos nossos pratos para uma das mulheres que limpavam lá, e fomos tomar sorvete, em uma sorveteria lá perto.
— Sorvete. — Henri, deu um berro ao entrarmos na sorveteria, e todos rimos.
— Ixi, estou vendo que o Henrique vai deixar essa sorveteria sem sorvete. — Falei rindo.
— Não nos faça passar vergonha, por favor. — Jonathan disse.
Fizemos nossos potinhos de sorvete e acertamos. Nos sentamos na frente da sorveteria, onde havia algumas mesas. Estávamos nós seis, sentados, tomando sorvete e rindo bastante com as caretas que Henrique fazia ao deliciar-se com o sorvete.
Estava distraída olhando as graças do Henrique e dos outros meninos, quando ouvi meu nome ser chamado algumas vezes. Não era ninguém que estava na mesa, então fiquei olhando para todos os lados, para procurar. Olhei para a frente e vi Lucas acenando para mim. Me levantei, e fui até ele.
— Oi Gabi. — Ele falou, dando um beijo na minha bochecha.
— Oi Lucas, como está? — Perguntei.
— Estou bem, mas me diz, você está melhor? — Perguntou ele.
— Claro que sim. — Respondi sorrindo.
— Acho que alguém esqueceu de me ligar. — Ele falou rindo.
— Ah, verdade. Me desculpa, é que recebi muita atenção depois que você saiu. — Falei.
— Entendo, mas vê se me liga, para podermos marcar alguma coisa. Tchau. — Ele me deu outro beijo e saiu.
Quando voltei, Henrique estava me olhando, e em nenhum momento ficou de cara f**a, estava normal, sorrindo e conversando. Fiquei feliz com o seu comportamento. Sorri para ele, como forma de agradecimento.
O papo estava legal, era sobre o novo casal. Eu e Henrique. Eles ficavam falando enormes besteiras, e insinuando coisas absurdas. Jonathan aproveitou o momento e pediu Aline em namoro, mas sem a aliança, claro. Só quando voltássemos ele iria comprar.
Fiquei super feliz pela minha amiga, ela até acabou deixando algumas lágrimas caírem. Tentei não chorar junto, enquanto Henri apertava minha mão. Sorri para ele, e o mesmo retribuiu meu sorriso.
— Um dia vai ser a gente. — Ele falou baixinho no meu ouvido.
— Quem sabe né. — Falei sorrindo.
— Quem sabe tu vai ver menina. — Ele falou, fazendo cara de bravo.
Quando estávamos indo para o quarto, Aline passou reto com Jonathan, e os meninos ficaram no nosso quarto. Não entendi muito bem no começo. Só depois foi cair a ficha de que eles tinham coisas a comemorar.
Peguei meu pijama e fui para o banheiro me trocar. Quando voltei, Larissa estava deitada ao lado de Ricardo. E Henri havia deitado na minha cama, o mesmo sem camisa. Estavam assistindo algum filme na tv, pois, todos olhavam para a mesma.
Guardei minha roupa, e deitei ao lado dele, que se encolheu para que nós dois coubéssemos na cama de solteiro. Ele me abraçou como sempre faz, quando deitamos juntos. E senti um enorme arrepio. Olhar para ele, era como se visse a eternidade ao seu lado. Todos nós juntos, meus amigos também estavam todos unidos, e aquilo para mim era intenso.
— Eu tenho que dizer uma coisa. — Ele falou.
— Pode dizer. — Falei, olhando para ele.
— Eu acho que talvez, eu esteja te amando. — Falou, dando-me um beijo na testa.
"Se você quiser me contar seus segredos, sou de todo ouvido. Se os seus sonhos não derem certo, estarei sempre lá para você. Se precisar se esconder, terá sempre minha mão. Mesmo se o céu desabar, estarei sempre contigo. Sempre que precisar de um lugar, haverá meu canto, pode ficar. Se alguém quebrar seu coração, juntos cuidaremos. Quando sentir um vazio, você não estará sozinho. Se você se perder lá fora, te buscarei. Te levarei para algum lugar, se precisar pensar. E quando tudo parecer estar perdido, e você precisar de alguém, eu estarei sempre aqui."