1| A merda até aqui..
{ 22 DE JANEIRO DE 20220}
Com uma taça de vinho, um vestido vermelho marcante e uma boa companhia, eu era capaz de me sentir saciada por algumas horas. Talvez fosse o efeito do álcool que não me deixassem pensar mais no passado, porém ainda é bem nítido tudo o que vivi. Também tenho a teoria de que talvez, seja apenas a minha própria cabeça cansada de viver com as mesmas lembranças todos os santos dias.
{FLASHBACK ON}
"Atravessei a mesa e dei um abraço demorado na minha madrasta Fernanda, depois brinquei um pouco com o Dhiren. Juro que ele emitiu um "bubu" para mim! E me deixou boba de ver que sou a única que ele tenta conversar assim. Tenho certeza que quando ele crescer mais um pouco, vamos ser grandes irmãos.
Como é sábado, acho que meu pai iria pescar ou algo do tipo, contando de levar o genro favorito junto. Dei um sorriso provador por homem moreno, aproveitando o momento para encher o saco do amor de "Paulo Marques" pelo meu namorado:
_ Boior pai! O seu genro favorito tá viajando hoje.
Meu pai desviou seus olhos dos meus rapidamente, esperando a confirmação do Henrique, como se não pudesse confiar apenas nas minhas provocações. O garoto francês que já estava sentado ao meu lado na mesa, comendo seus olhos mexidos, olhou para o meu pai com seu sorriso provador.
_ Desculpa sogrão! Tenho que tentar ganhar 50 mil dólares e um título de chef juvenil! Talvez assim logo logo eu possa casar com sua filha.- Retrucou Henrique, no mesmo momento engasguei com um pedaço de pão.
Toda a minha família me encaram com sorrisos gigantes nos rostos. Queria que fosse eles que tivesse ouvido isso. Imagina eu casar?! Com vestido branco, padrinhos, bolo e até lua de mel...( Não que eu quero, só acho cedo).
_ Então meu genro querido, muita boa sorte lá nesse concurso. E depois que você ganhar e tal, nois planejamos o casamento de vocês.- Prossegiu o Paulo Marques com um sorriso taveco.
_ Papai! Eu que escolho quando eu vou casar ok?! Século vinte um!- Defendi-me, mas de nada adiantou.
Como parecia que estava falando com as paredes, resolvi renegar todos os comentários sobre "casamento" e terminar meu café da manhã.
Assim que meu namorado terminou seu café da manhã, ele se despediu da minha família como sempre faz, quando dorme aqui em casa e precisa ir para casa (com exceção que desta vez iria demorar ele voltar). Eu não estava afim de despedir dele como se meu namorado nunca mais fosse retornar para minha vida.
Henrique, como se adivinhasse os rumos dos meus inquietos pensamentos, perguntou guardando a carteira no bolso do short jeans:
_Quer me levar até a porta?
_ Sim. Eu te levo.- Concordei esperando ele vim até mim.
Fomos andando em completo silêncio até o portão da minha casa. Henrique me surpreendeu me encostando com detém contra a parede, me obrigando encarar aqueles olhos azuis, tão belíssimos e mais vivos do que os meus azuis. Apesar de tanto tempo de namoro, eu ainda sou capaz de me sentir envergonhada no simples fato de olhar nos fundos dos seus olhos. Ele era a única pessoa no mundo inteiro, que sabia as coisas antes de eu abrir a boca e me dava apoio.
_ Nem precisa me dizer que estais com medo que eu nunca mais voltar para a sua vida, porém eu posso ter dar isso.- Disse Henrique tranquilo e tirando algo do seu bolso.
De lá retirou o seu cólar com uma pedra verde. Eu sabia o quanto significava aquele cólar para ele, já que desde que o conheço, o Henrique nunca retirou ele do seu pescoço. Era tão simbólico e sentimental para ele, que eu sabia que me passar ele só mostrava o quanto ele se importava comigo.
_ Quero que cuide desse cólar para mim. Além da rosa que lhe dei, você vai poder usá-lo até eu retornar e não se esquecer de mim. Eu te amo Isa. E tenha certeza que eu vou voltar ok?!- Declarou o meu francês, colando ainda mais seu corpo no meu.
_ Obrigada. Eu também te amo! Mas promete que vai aproveitar o máximo que puder e que só vai voltar com esse título?- Perguntei sabendo que ele ia te que prometer.
_ Prometo minha vida. E você promete me ligar todos os dias?- Disse Henrique com um olhar ternuroso, cheio de amor.
_ Claro que prometo meu francesinho. - Concordei indo para cima dele.
Aproveitei aquele momento para grudar com desejo a minha boca na dele, pois aquele poderia ser sim meu último beijo com ele. Mas eu o amo demais para obriga-ló ficar, mas essa sensação não vai sumir com facilidade..."
{ FLASHBACK OFF}
Minha vida virou de cabeça para baixo depois desse dia. E tudo por conta do Cooking in França Juvenil! Tudo porque eu não fui forte o bastante para persistir. Eu desistir na primeira dificuldade. Agora não me adianta mais chorar, e sim "passez" como si diz aqui na França.
Desde do começo da minha adolescência eu trabalhei como modelo, graça a influência da minha madrasta na minha vida. Só que a minha vida profissional realmente mudou quando cheguei em Paris. Comecei fazendo um desfile para uma empresa mais exclusiva e fui indo até me tornar uma das 10 melhores modelos parisienses. Orgulho-me disso, é graça ao meu suor de cada dia eu tenho o meu apartamento, o meu carro, os meus desejos totalmente realizados e uma carreira de sucesso. Eu acabei tornando a minha beleza em dinheiro e de minha vida uma verdadeira escravidão. Minha psicóloga sempre fala para eu tentar não trabalhar demais, porém é nele que eu me agarro há 4 anos.
Hoje desfilei igual a uma condenada para uma coleção de verão Parisiense. Depois de colocar vestido, retirar vestido, retorcar maquiagem,"flash flash" , muito suor e sorriso amarelo, eu finalmente troquei minha roupa para ir embora. De calça jeans mais larga com um moletom listrados e salto alto nos pés, peguei a minha bolsa cor de pele e procurei pela Gabyela.
Logo avistei a minha vizinha e a única pessoa que eu me importava de verdade aqui em Paris. Gaby é uma morena afro-americana, do cabelo cacheado de dar inveja e de um corpo também chamado de "luxuriant". Metade brasileira e metade americana, eu achava nela uma excelente amiga e a única família que eu tinha para me apoiar aqui. Era uma sorte que ela cuidasse de mim, mesmo não sabendo um terço da minha vida.
_ Pensei que você ia demorar a vida toda. -Reclamou com sempre, mas havia um sorriso na Gabi que dizia: "estou morrendo de saudade".
_ Valeu por me esperar. O Thiago ia ter um outro ataque daqueles. E tudo porque uma modelo faltou por motivo de doença. O nosso chefe sendo nosso chefe, sabe como é?!- Respondi cumprimentando ela com um beijo na bochecha.
_ Aquele cabra da peste. Vamos jantar agora?- Questionou ela que sempre está com fome.
Apesar de eu evitar de todas as formas qualquer coisa que me lembre do meu passado, existia um lugar aqui na França que eu eu amava muito e praticamente passava as minhas horas livres nele. O restaurante Castanhol é um dos restaurantes mais conceituado do mundo e o lugar mais calmo dessa cidade parisiense inteiro.
"Pensar que um dia eu já fui a nora do dono..."
Sentando na nossa mesa de sempre, o garçom já sabia que iríamos pedir vinho tinto para apreciar a conversa e iniciar a noite. Mexendo no celular, um iPhone de capinha verde, Gaby estava lindamente sexy em um vestido florido e um moletom nudes. Ela é do tipo que não sai com ninguém, e meu amigo, a mulher ou o homem para conseguir a atenção dessa deusa, tem que ser a exclusivamente perfeito(a)!
José trouxe o nosso pedido e colocou as taças da mesa nos servindo a primeira rodada. Eu simplesmente amo o clima francês, que combina incrívelmente com uma taça de bom vinho e essa companhia maravilhosa ao meu lado.
_ Obrigada José!- Agradeci provando da taça.
Gaby também seguiu meu exemplo, provando do vinho com um sorriso. Simplesmente não imagino algo que combine mais do que vinho e eu. Então no bar lateral do restaurante, avistei um cara de 22 anos bebendo algo em uma taça espumante e com olhos devoradores encima de mim. Isso porque eu estava usando meu moletom que não tinha decote algum!
_ Hum, resolvi que vou tirar férias por dois meses sei lá, não decidir ainda.- Contei sentindo o sabor do líquido na minha língua, descer com rapidez pela minha garganta queimando levemente o interior da minha alma sombria.
_ Sériooooo?! Vai viajar para algum lugar? Visitar sua família?- Perguntou surpresa, Gaby parecia nem me reconhecer.
_ Não sei. Talvez eu fique por aqui mesmo, jantando com a amiga que eu gosto e dando um flerte com o carinha ali no bar.- Comentei arrumando o cabelo atrás da orelha.
Minha amiga então segue meu olhar, observando o carinha do bar que lançou mais uma troca de olhares intensos.
_ Já vi que vou sobrar novamente. Pode pelo menos jantar comigo sem deixar eu comer sozinha por uma transa casual por favor?- Pediu Gabyela muito melodramática.
_ Claro senhora Gabriela! O que vamos pedir hoje?- Concordo dando uma risada, ao qual tenho a sensação de ter mostrado todos os meus dentes como comercial de tratamento odontológico.
Já estávamos jantando nossa galinhada com molho de capitury, quando o carinha que estava no bar sentou-se ao nosso lado. Surpreendente Gaby me deu uma piscadela e ambas encaramos o homem, esperando que ele dissesse alguma coisa.
_ Brasileiras?- Questionou olhando para os nossos pratos.
_ Sim vejo que você também é. Eu sou a Isabela e essa é minha amiga Gabyela.- Apresentei dando um sorriso, enquanto minha amiga também ofereceu seu melhor sorriso.
_ Hum. Eu sou Matheus, e sei quem vocês são. Duas modelos que lindamente arrasam desfilando. É Gabyela, você acha que se eu chamar sua lindíssima amiga para sair comigo ela aceitaria?- Declarou Matheus, direcionando a atenção para minha amiga.
_ Não seja por isso, Tchau Isabela! Nos vemos amanhã.- Despediu minha amiga pegando a bolsa dela e indo embora dando beijos nos ares.
Sentando na cadeira ao qual minha amiga se encontrava até segundos antes, conversei com o até então estranho que chamava Matheus. Segundo o próprio, ele trabalhava como analista de uma empresa francesa e que pretendia morar mais um ano até voltar por Brasil no final do ano. Eu o achei ele um cara muito fácil de puxar conversa, então quando terminei o meu jantar, me levantei da mesa e pendurei a bolsa no ombro.
_ Vamos?- Perguntei olhando para ele com sorriso malicioso.
_ Claro.- Respondeu me acompanhando.
Já estou acostumada a receber flerte assim quando estou distraidamente comendo por exemplo. Não é atoa que estou na cidade do amor. Só que não é aquele amor que as pessoas idealizam tanto. Pelo menos não é por amor que levo estranhos por meu apartamento, apenas por puro prazer de estar curtindo sem compromisso ou se incomodar demais com a vida dos outros.
E mais uma vez levei um desconhecido para cama, porém desta vez eu estava tão cansada que não consegui nem ver a hora que Matheus foi embora. Acho que ele nem foi, porém o sono e o cansaço de mais um dia não me fez surtar com ele logo. Sorte dele!
No outro dia quando acordei, percebi que alguém já se movimentava ao meu lado, me acordando juntamente com os raios do sol que atravessava a cortina. Olhando para o corpo magro e bem fora de forma, avistei o Matheus ser arrumando. Me levantando da cama, tratei logo de me vestir uma camisa e olhando para ele pergunto:
_ Você já vai embora né?
_ Vou. Estou super atrasado para meu emprego. Se eu não chegar às 9 eles me matam.- Respondeu Matheus abotoando a camisa com agilidade.
_ Ótimo! Porque eu também tenho compromisso agora.- Disse e pegando o casaco de frio dele o estendi na sua direção.
Mentalmente eu rezei para que ele fosse embora mais rápido possível, até mostrando o caminho da porta para ele tentando não demonstrar que louca para me livrar dele. Ainda ser arrumando e tentando não ficar constrangido, o analista olhou-me de cima a baixo ao passar pela porta e perguntou com charme:
_ Ainda vamos nos ver um dia?
_ É, quem sabe. Tchau!- Respondi rapidamente fechando a porta na cara dele.
Ninguém nunca escreveu um manual de como não ficar constrangido após dormir com um desconhecido e acordar pela manhã do outro dia. Então não vai ser eu Isabela Marques que vou querer dar uma de simpática com alguém que eu conheci na noite passada ora!
Tomando banho, vesti minha roupa de caminhada com tênis e pegando meu iphod fui fazer minha vitamina da manhã. Bati banana, com maçã e leite e adicionei um pouco de açúcar. Tomando um copo cheio de uma única vez, avistei meu iPad na minha bolsa que sempre prendo no meu braço.
Como todos os dias, corri os dois quarteirões da minha rua e depois os rodeando duas vezes. Apenas nas terças-feiras eu caminhava até o consultório da Doutora Merry andando. Essa mulher pode até não ser uma dona de um banco, mas só o que recebeu de mim por 4 anos é maior do que minhas próprias loucuras! Doutora Merry mandou muito bem quando decidiu ser psicóloga, pelo menos ela não e que preocupar com as calorias!
O consultório da Doutora Merry é um ambiente que me deixa tão ansiosa e com medo quanto um hospital. Mesmo as placas e a música pacífica que a assistente dela colocava, o lugar não mudava a característica principal desse lugar existir: a necessidade de ter outra pessoa para ouvir os seus problemas, mas não para chamar de louco ou problemático, imagina! O único propósito é para você ver o que tem que mudar e seguir a vida sempre contando para ela o que aconteceu de extraordinário. Obrigada Doutora Merry!
Hoje a Solange parecia uma pessoa mais calma mesmo atendendo, falando e digitando ao mesmo tempo. Ela sim era mesmo uma super assistente pessoal!
-Boujur Isabela! Le Dr Merry vous verra bientôt. Attendez comem toujurs.- Falou ela simpática e já acostumada a ver minha cara suada toda terça-feira.
- Merci Solange.- Agradeci sentando na cadeira na recepção minúscula.
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