CAPÍTULO 5 — O DOCUMENTO DA MALDIÇÃO

1390 Words
Nicolas Eu segui Ivy para dentro do apartamento sabendo que ela me odiava por isso. Sabendo que eu estava atravessando a fronteira que ela jurou nunca mais permitir que eu ultrapassasse. Mas também sabendo que ela não me expulsaria. Não ainda. Não antes de ouvir a verdade que eu carreguei como veneno por anos, queimando cada parte de mim que tentou fingir que era possível seguir em frente. A porta bateu atrás de nós com um estalo firme. O som ecoou pelo corredor estreito. O cheiro dela, familiar e devastador, tomou tudo. Pele quente, sabonete suave, um toque de café frio vindo da cozinha. Minha memória reconheceu antes que minha mente processasse. O corpo inteiro reagiu com uma mistura brutal de raiva, saudade e uma urgência que eu não sabia mais controlar. Ela ficou parada a poucos passos de mim, respirando rápido demais. O moletom velho pendia solto no corpo dela, mas nada conseguia esconder o impacto que ela tinha sobre mim. Nada escondia as lembranças se movendo por baixo da pele dela, como se nosso passado estivesse se contorcendo para despertar. Ivy tentou manter a postura, mas eu vi a forma como as mãos tremeram. Ela tentou esconder, mas eu sempre enxerguei tudo nela. Mais do que ela queria. Mais do que eu merecia. — Você precisa sair — disse ela, a voz firme, mas arranhada na ponta. Eu não me mexi. Apenas a observei como se cada músculo dela guardasse a resposta que eu procurei pela vida inteira. — Não vou sair antes de você entender por que eu vim. Ela riu. Um riso curto, ferido, carregado de sarcasmo e mágoa. — Você veio porque viu uma notícia e resolveu brincar de dono de novo? Olhei para ela e respirei fundo, tentando conter o impulso de atravessar o espaço que nos separava. — Eu vim porque você está prestes a cometer o pior erro da sua vida. Ela cruzou os braços, erguendo o queixo com aquela coragem que sempre me desafiou. — E você acha que esse erro é o Lucas? Meu maxilar travou. — Sim. Ela balançou a cabeça devagar, como se estivesse cansada, exausta de lutar contra alguém que ela já tinha deixado para trás. — Você continua arrogante, Nicolas. Continua achando que o mundo gira ao seu redor. Dei um passo. Só um. O suficiente para o ar entre nós mudar de forma. — O mundo não gira ao meu redor, Ivy. Mas você gira. Ela piscou, como se eu tivesse atingido aquele lugar que ela tenta esconder desde que eu a perdi. A respiração dela falhou. O rosto dela hesitou. Mas, no segundo seguinte, o orgulho voltou como uma muralha. — Meu mundo acabou no dia em que você acreditou nela — disse ela. — E escolheu a sua mentira em vez de mim. A ferida antiga abriu dentro de mim como se fosse recente. Eu não desviei o olhar. — Eu sei o que fiz. — Sabe? — ela inclinou a cabeça. — Ou só percebeu quando achou que eu estava me casando com outro? — Eu percebi no dia em que acordei sem você — respondi, a voz mais baixa do que eu queria. — E aquilo me destruiu mais do que qualquer coisa na minha vida. Ela respirou fundo, e por um instante eu jurei que ela iria ceder. Mas Ivy sempre foi mais forte do que eu dei crédito. Mais forte do que eu soube merecer. — Isso não muda nada, Nicolas. Eu soltei o ar, cansado de rodear o assunto, cansado de negociar com uma dor que não diminuía. — Muda sim. E eu trouxe a prova. A confusão passou no rosto dela antes que ela conseguisse mascarar. Eu coloquei a pasta que carregava desde que desci do avião em cima da mesa. O som seco pareceu dividir o ar. Ela arregalou os olhos, surpresa pela brutalidade do gesto. — O que é isso? — O documento — respondi. — Que documento? Minha mão deslizou devagar sobre a pasta enquanto eu a abria. O papel estava ali. Intacto. Branco demais. Limpo demais. Como uma cicatriz que nunca fechou. — O nosso divórcio. O rosto dela empalideceu. — Nicolas… o que você está querendo? — A verdade — respondi. — A que você merece ouvir desde o começo. A que eu deveria ter contado antes de deixar você ir. Puxei o papel e o coloquei sobre a mesa entre nós. Assinatura dela. Assinatura do advogado dela. Assinatura do juiz. E o espaço vazio onde a minha deveria estar. Um vazio que gritou na sala inteira como se fosse uma maldição. Ivy levou a mão à boca, chocada. — Você… Ela engoliu seco. — Você não assinou. — Não. — Por quê? Respirei fundo. — Porque eu não consegui. Ela deu um passo para trás, como se eu tivesse empurrado o peito dela com força. — Você teve anos, Nicolas. Anos. Tempo não faltou. — Eu tentei — confessei. — Juro que tentei. Mas toda vez que eu colocava a caneta no papel, alguma coisa dentro de mim… não deixava. O olhar dela se encheu de uma mistura c***l de dor e fúria. — Isso é covardia, não amor. — Pode ser — respondi. — Mas foi a única coisa que me impediu de te perder por completo. Ela apertou os lábios. — Você já tinha me perdido. — Não. — Nicolas… — Não — repeti, firme. — Eu perdi sua confiança, seu coração, sua presença. Mas nunca deixei de ser seu marido. O ar entre nós ficou pesado, vivo, quente. Ela olhou o documento, depois me olhou. — Isso não muda o que você fez. — Não, não muda — admiti. — Mas muda o que vamos fazer agora. Ela se aproximou, até ficar perto o bastante para que o perfume dela entrasse no meu sistema como um golpe. — E o que você acha que vai fazer? Minha voz saiu baixa, densa, íntima. — Consertar. Os olhos dela ficaram brilhantes, mas não de emoção. De raiva. — Você não pode simplesmente voltar aqui, mostrar esse papel e achar que tudo volta ao começo. — Não volta — respondi. — Mas também nunca acabou. Ela fechou os olhos por um instante, como se tentasse arrancar a emoção do peito. Quando abriu, a voz estava firme. — Eu não sou sua, Nicolas. Não mais. — É. — Não. — Você é minha mulher legalmente. Ela empalideceu. — Isso é baixo. — Não, Ivy. Baixo foi acreditar na Karen. Baixo foi te machucar. Baixo foi deixar você ir. Isso aqui… é só a verdade. Ela respirou fundo, a raiva explodindo no corpo inteiro. — Você acha mesmo que um documento vai me obrigar a ficar com você? Eu dei o passo que estava segurando desde que entrei no apartamento. — Não. Ela abriu a boca para responder, mas eu continuei. — Mas vai me dar tempo. Os olhos dela tremeram. — Tempo para quê? Minha resposta veio como um golpe que eu não podia mais prender dentro de mim. — Para você lembrar quem eu sou para você. O silêncio entre nós ficou tão intenso que quase doeu. Ivy tentou fugir do que estava sentindo — eu vi no rosto dela, vi no movimento da respiração, vi no jeito como ela mordeu a parte interna da bochecha, lutando contra algo que sempre foi maior do que nós dois. — Eu não quero esse passado de volta — ela sussurrou. — Não quero o passado — respondi. — Quero você agora. Ela engoliu seco, lutando para não quebrar. Mas quando meus dedos tocaram o documento sobre a mesa, empurrando-o suavemente na direção dela, algo dentro dela explodiu. — Eu não posso te amar de novo — ela sussurrou, quase inaudível. Eu segurei o queixo dela, devagar, como se segurasse algo que sempre foi meu. — Então é uma pena, Ivy. Porque eu nunca parei. O estômago dela afundou. Eu vi. E antes que ela pudesse responder, antes que a emoção tomasse conta, antes que o orgulho a obrigasse a fugir, eu disse a única verdade que ela precisava ouvir: — Você nunca deixou de ser minha mulher. E agora… você vai ter que lidar com isso. As palavras ficaram no ar, pesadas, inevitáveis. E ela, pela primeira vez em anos, não encontrou resposta.
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