Nicolas
Eu segui Ivy para dentro do apartamento sabendo que ela me odiava por isso. Sabendo que eu estava atravessando a fronteira que ela jurou nunca mais permitir que eu ultrapassasse. Mas também sabendo que ela não me expulsaria. Não ainda. Não antes de ouvir a verdade que eu carreguei como veneno por anos, queimando cada parte de mim que tentou fingir que era possível seguir em frente.
A porta bateu atrás de nós com um estalo firme. O som ecoou pelo corredor estreito. O cheiro dela, familiar e devastador, tomou tudo. Pele quente, sabonete suave, um toque de café frio vindo da cozinha. Minha memória reconheceu antes que minha mente processasse. O corpo inteiro reagiu com uma mistura brutal de raiva, saudade e uma urgência que eu não sabia mais controlar.
Ela ficou parada a poucos passos de mim, respirando rápido demais. O moletom velho pendia solto no corpo dela, mas nada conseguia esconder o impacto que ela tinha sobre mim. Nada escondia as lembranças se movendo por baixo da pele dela, como se nosso passado estivesse se contorcendo para despertar.
Ivy tentou manter a postura, mas eu vi a forma como as mãos tremeram. Ela tentou esconder, mas eu sempre enxerguei tudo nela. Mais do que ela queria. Mais do que eu merecia.
— Você precisa sair — disse ela, a voz firme, mas arranhada na ponta.
Eu não me mexi. Apenas a observei como se cada músculo dela guardasse a resposta que eu procurei pela vida inteira.
— Não vou sair antes de você entender por que eu vim.
Ela riu. Um riso curto, ferido, carregado de sarcasmo e mágoa.
— Você veio porque viu uma notícia e resolveu brincar de dono de novo?
Olhei para ela e respirei fundo, tentando conter o impulso de atravessar o espaço que nos separava.
— Eu vim porque você está prestes a cometer o pior erro da sua vida.
Ela cruzou os braços, erguendo o queixo com aquela coragem que sempre me desafiou.
— E você acha que esse erro é o Lucas?
Meu maxilar travou.
— Sim.
Ela balançou a cabeça devagar, como se estivesse cansada, exausta de lutar contra alguém que ela já tinha deixado para trás.
— Você continua arrogante, Nicolas. Continua achando que o mundo gira ao seu redor.
Dei um passo. Só um. O suficiente para o ar entre nós mudar de forma.
— O mundo não gira ao meu redor, Ivy. Mas você gira.
Ela piscou, como se eu tivesse atingido aquele lugar que ela tenta esconder desde que eu a perdi. A respiração dela falhou. O rosto dela hesitou. Mas, no segundo seguinte, o orgulho voltou como uma muralha.
— Meu mundo acabou no dia em que você acreditou nela — disse ela. — E escolheu a sua mentira em vez de mim.
A ferida antiga abriu dentro de mim como se fosse recente. Eu não desviei o olhar.
— Eu sei o que fiz.
— Sabe? — ela inclinou a cabeça. — Ou só percebeu quando achou que eu estava me casando com outro?
— Eu percebi no dia em que acordei sem você — respondi, a voz mais baixa do que eu queria. — E aquilo me destruiu mais do que qualquer coisa na minha vida.
Ela respirou fundo, e por um instante eu jurei que ela iria ceder. Mas Ivy sempre foi mais forte do que eu dei crédito. Mais forte do que eu soube merecer.
— Isso não muda nada, Nicolas.
Eu soltei o ar, cansado de rodear o assunto, cansado de negociar com uma dor que não diminuía.
— Muda sim. E eu trouxe a prova.
A confusão passou no rosto dela antes que ela conseguisse mascarar. Eu coloquei a pasta que carregava desde que desci do avião em cima da mesa. O som seco pareceu dividir o ar. Ela arregalou os olhos, surpresa pela brutalidade do gesto.
— O que é isso?
— O documento — respondi.
— Que documento?
Minha mão deslizou devagar sobre a pasta enquanto eu a abria. O papel estava ali. Intacto. Branco demais. Limpo demais. Como uma cicatriz que nunca fechou.
— O nosso divórcio.
O rosto dela empalideceu.
— Nicolas… o que você está querendo?
— A verdade — respondi. — A que você merece ouvir desde o começo. A que eu deveria ter contado antes de deixar você ir.
Puxei o papel e o coloquei sobre a mesa entre nós.
Assinatura dela.
Assinatura do advogado dela.
Assinatura do juiz.
E o espaço vazio onde a minha deveria estar.
Um vazio que gritou na sala inteira como se fosse uma maldição.
Ivy levou a mão à boca, chocada.
— Você…
Ela engoliu seco.
— Você não assinou.
— Não.
— Por quê?
Respirei fundo.
— Porque eu não consegui.
Ela deu um passo para trás, como se eu tivesse empurrado o peito dela com força.
— Você teve anos, Nicolas. Anos. Tempo não faltou.
— Eu tentei — confessei. — Juro que tentei. Mas toda vez que eu colocava a caneta no papel, alguma coisa dentro de mim… não deixava.
O olhar dela se encheu de uma mistura c***l de dor e fúria.
— Isso é covardia, não amor.
— Pode ser — respondi. — Mas foi a única coisa que me impediu de te perder por completo.
Ela apertou os lábios.
— Você já tinha me perdido.
— Não.
— Nicolas…
— Não — repeti, firme. — Eu perdi sua confiança, seu coração, sua presença. Mas nunca deixei de ser seu marido.
O ar entre nós ficou pesado, vivo, quente.
Ela olhou o documento, depois me olhou.
— Isso não muda o que você fez.
— Não, não muda — admiti. — Mas muda o que vamos fazer agora.
Ela se aproximou, até ficar perto o bastante para que o perfume dela entrasse no meu sistema como um golpe.
— E o que você acha que vai fazer?
Minha voz saiu baixa, densa, íntima.
— Consertar.
Os olhos dela ficaram brilhantes, mas não de emoção. De raiva.
— Você não pode simplesmente voltar aqui, mostrar esse papel e achar que tudo volta ao começo.
— Não volta — respondi. — Mas também nunca acabou.
Ela fechou os olhos por um instante, como se tentasse arrancar a emoção do peito. Quando abriu, a voz estava firme.
— Eu não sou sua, Nicolas. Não mais.
— É.
— Não.
— Você é minha mulher legalmente.
Ela empalideceu.
— Isso é baixo.
— Não, Ivy. Baixo foi acreditar na Karen. Baixo foi te machucar. Baixo foi deixar você ir. Isso aqui… é só a verdade.
Ela respirou fundo, a raiva explodindo no corpo inteiro.
— Você acha mesmo que um documento vai me obrigar a ficar com você?
Eu dei o passo que estava segurando desde que entrei no apartamento.
— Não.
Ela abriu a boca para responder, mas eu continuei.
— Mas vai me dar tempo.
Os olhos dela tremeram.
— Tempo para quê?
Minha resposta veio como um golpe que eu não podia mais prender dentro de mim.
— Para você lembrar quem eu sou para você.
O silêncio entre nós ficou tão intenso que quase doeu.
Ivy tentou fugir do que estava sentindo — eu vi no rosto dela, vi no movimento da respiração, vi no jeito como ela mordeu a parte interna da bochecha, lutando contra algo que sempre foi maior do que nós dois.
— Eu não quero esse passado de volta — ela sussurrou.
— Não quero o passado — respondi. — Quero você agora.
Ela engoliu seco, lutando para não quebrar.
Mas quando meus dedos tocaram o documento sobre a mesa, empurrando-o suavemente na direção dela, algo dentro dela explodiu.
— Eu não posso te amar de novo — ela sussurrou, quase inaudível.
Eu segurei o queixo dela, devagar, como se segurasse algo que sempre foi meu.
— Então é uma pena, Ivy. Porque eu nunca parei.
O estômago dela afundou. Eu vi.
E antes que ela pudesse responder, antes que a emoção tomasse conta, antes que o orgulho a obrigasse a fugir, eu disse a única verdade que ela precisava ouvir:
— Você nunca deixou de ser minha mulher. E agora… você vai ter que lidar com isso.
As palavras ficaram no ar, pesadas, inevitáveis.
E ela, pela primeira vez em anos, não encontrou resposta.