O Peso de Cuidar
Olyver Blayck sempre acreditara que dinheiro resolvia tudo.
Não por arrogância pura, mas por hábito. Desde muito cedo aprendera que bastava uma ligação, um gesto impaciente, uma assinatura, e o mundo se movia. Comida chegava pronta. Problemas desapareciam. Pessoas obedeciam. A vida de bilionário era feita de atalhos — e ele jamais precisara aprender o caminho inteiro.
Até Alice.
Na pequena cozinha do apartamento dela, Olyver encarava o fogão como se fosse um inimigo silencioso. Uma panela estava ali, limpa, vazia, esperando algo que ele não sabia oferecer. Havia comprado ingredientes pela manhã, orientado por um aplicativo qualquer, mas agora eles repousavam sobre a bancada como peças de um quebra-cabeça impossível.
Ele passou a mão pelos cabelos, respirou fundo.
— Ridículo — murmurou para si mesmo.
Não era sobre cozinhar. Era sobre perceber, de forma brutal, o quanto ele não sabia cuidar de alguém de verdade. Não daquele jeito. Não sem terceirizar.
E, ainda assim, Alice precisava dele. Isso ele sabia. Precisava de repouso, de estabilidade, de alguém que estivesse ali quando o coração falhasse, quando o corpo fraquejasse, quando o medo aparecesse sem aviso.
Mesmo que ela não quisesse.
Ele saiu da cozinha em silêncio e foi até a sala. Alice dormia no sofá, coberta por uma manta fina. Chad estava enroscado em suas pernas, como um guardião felino. A luz da tarde entrava suave pela janela, iluminando os cabelos loiros espalhados pelo travesseiro.
Olyver sentiu algo apertar no peito.
Ela parecia frágil. Mais do que antes. Não apenas pelo corpo — mas pelo que carregava dentro de si.
Ela e o filho.
Ele se afastou antes que o impulso de se aproximar fosse maior do que o respeito que prometera. Pegou o celular e discou um número que não usava havia anos para algo tão… humano.
— Alfredi — disse assim que a ligação foi atendida.
— Senhor Blayck — respondeu a voz calma do mordomo, como sempre. — Em que posso ajudar?
— Preciso de você em São Lázaro. Hoje — disse Olyver. — Traga algumas roupas minhas. Coisas simples. E… fique.
Houve um breve silêncio do outro lado.
— Entendo — disse Alfredi. — Algo mais, senhor?
Olyver hesitou por um segundo.
— Sim. Preciso de ajuda. Aqui.
A resposta veio sem surpresa.
— Estarei aí em duas horas.
Ele desligou e, em seguida, fez outras ligações. Muitas. Diretas. Objetivas.
O elevador quebrado do prédio fora apenas mais um detalhe incômodo quando ele chegara ali pela primeira vez. Agora, tornara-se um risco. Alice não podia subir escadas. Não podia se esforçar. Não podia se estressar.
A solução veio rápida, como sempre vinha para ele.
Comprou o prédio.
Não foi um gesto teatral. Foi prático. Assinaturas digitais, transferência imediata. O antigo proprietário nem discutiu. Em menos de uma hora, o edifício agora pertencia ao Grupo Blayck.
Olyver contratou uma equipe inteira de engenharia para resolver o elevador, revisar a estrutura, melhorar a iluminação, reforçar a segurança. Nada seria feito de forma barulhenta ou invasiva. Alice não precisava saber de tudo — não agora.
E, pensando adiante, resolveu outro problema.
Havia um apartamento vazio no mesmo andar.
Ele o comprou também.
Não para si — ainda não. Mas para Alfredi. Para ter alguém ali. Alguém que soubesse cuidar, cozinhar, organizar, observar sem invadir. Alguém que pudesse ajudar sem que Alice se sentisse cercada por ele.
Quando Alice acordou, algumas horas depois, encontrou o apartamento estranhamente diferente.
Não fisicamente — tudo estava no lugar. Mas havia um cheiro novo vindo da cozinha. Algo quente. Caseiro. Reconfortante.
Ela se sentou devagar, o coração controlado, Chad pulando do sofá para o chão.
— Olyver? — chamou.
— Aqui — respondeu ele, surgindo da cozinha com uma expressão quase… constrangida.
— O que é esse cheiro?
— Tentativa — respondeu. — Fracassada. Mas tentativa.
Ela arqueou levemente a sobrancelha.
— Você tentou cozinhar?
— Não ria — disse ele. — Isso é sério.
Um canto da boca dela se levantou, quase imperceptível.
— Estou surpresa por você não ter mandado trazer algo.
— Eu mandei — respondeu. — Ajuda.
Ela franziu a testa.
— Ajuda?
Antes que pudesse perguntar mais, a campainha tocou.
Olyver foi atender. Alfredi entrou com duas malas médias, postura impecável, olhar atento. Ao ver Alice, inclinou levemente a cabeça.
— Senhorita Madson — disse, com respeito genuíno.
Ela piscou, surpresa.
— Boa tarde…
— Alfredi trabalha comigo há muitos anos — explicou Olyver. — Ele vai… nos ajudar.
Alice olhou de Alfredi para Olyver, processando.
— Você chamou o seu mordomo para minha casa?
— Eu chamei alguém que sabe cuidar — respondeu ele. — Melhor do que eu.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu não pedi isso — disse, por fim.
— Eu sei — respondeu Olyver. — Mas você precisa.
Ela suspirou, cansada demais para discutir.
— Desde que ele respeite meus limites — disse, olhando para Alfredi.
— Absolutamente — respondeu o mordomo. — Estarei à disposição apenas quando solicitado.
Alfredi se instalou no apartamento do mesmo andar naquela noite. Discreto. Silencioso. Eficiente. Preparou refeições leves. Organizou os horários das medicações. Garantiu que Alice descansasse sem se sentir vigiada.
E Olyver observava tudo.
Observava como ela relaxava um pouco mais quando percebia que não era ele quem estava ali o tempo todo. Observava como sua presença precisava ser dosada, medida, controlada.
Mesmo assim, algo dentro dele se mantinha firme.
Ela precisava dele. Quisesse ou não.
Não como homem. Não como chefe. Não como agressor arrependido.
Mas como alguém que não iria desaparecer.
Naquela noite, quando o elevador voltou a funcionar silenciosamente e o prédio dormia sob uma nova administração invisível, Olyver ficou sentado no sofá do apartamento de Alice, luz baixa, mãos entrelaçadas.
Ele sabia que nada do que fazia apagava o passado.
Sabia que cuidado não era redenção.
Mas também sabia que abandonar seria outra violência.
— Eu vou ficar — murmurou para si mesmo. — Do jeito certo. Mesmo que doa.
No quarto, Alice dormia profundamente.
E, pela primeira vez desde que tudo desmoronara, havia uma estrutura — frágil, tensa, imperfeita — sustentando o que vinha pela frente.
O futuro não prometia perdão.
Mas prometia presença.
E, naquele momento, isso era tudo o que Olyver Blayck tinha a oferecer.