Capítulo 11

1130 Words
Entre o Cuidado e o Desejo Alice não queria admitir, nem para si mesma. Mas via. Via o esforço de Olyver em cada detalhe silencioso do dia. Via na forma como ele acordava cedo e se fechava no notebook, trabalhando de casa para não deixá-la sozinha. Via na maneira como ele falava baixo ao telefone, como se o mundo inteiro precisasse diminuir o volume para não perturbá-la. Via no cuidado excessivo com os horários das medicações, mesmo sabendo que Alfredi já tinha tudo anotado com precisão quase cirúrgica. E via, principalmente, quando ele achava que ela não estava olhando. O apartamento pequeno parecia ainda menor com a presença dele, mas, curiosamente, não sufocante. Olyver aprendera a ocupar espaços com cautela. Não sentava perto demais. Não tocava sem permissão. Não invadia o silêncio quando ela precisava dele intacto. Quando precisava sair, Alfredi ficava. — O senhor Blayck volta no fim da tarde, senhorita Madson — dizia o mordomo, sempre com a mesma calma. — Já deixei tudo organizado. Alice assentia, grata e, ao mesmo tempo, estranhamente inquieta. Ela nunca dependera de ninguém daquela forma. Desde o orfanato, aprendera a ser funcional, discreta, invisível quando necessário. Agora, seu corpo exigia pausa. Seu coração impunha limites. E havia uma vida crescendo dentro dela, silenciosa e decisiva. E havia Olyver. Ele voltava sempre antes do horário prometido. Alice percebia quando a porta se abria com cuidado extra, quando ele entrava como se estivesse pisando em um terreno sagrado. Às vezes, ela estava na sala, sentada com Chad no colo. Outras, deitada, olhos fechados, tentando ignorar a estranha mistura de cansaço e sensibilidade que a gravidez trazia. — Está tudo bem? — ele perguntava, sempre. — Está — ela respondia, quase sempre. Mas havia momentos em que seus olhares se encontravam por tempo demais. Olyver Blayck era bonito. Não de forma óbvia ou espalhafatosa. Era um tipo de beleza perigosa, contida, que não pedia permissão para existir. Os traços firmes, o olhar intenso, o corpo moldado por uma disciplina que ia além da estética. Um pedaço de mau caminho, como Alice pensava, com um misto de ironia e desconforto. Ela se odiava um pouco por perceber isso. Porque ele mexia com ela. Mexia de um jeito silencioso, involuntário, quase c***l. Não pelo toque — que não vinha —, mas pela presença. Pelo cuidado. Pela forma como ele a observava quando achava que ela não percebia. Pelo respeito quase doloroso com que mantinha distância. Era mais fácil lidar com um Olyver indiferente. Mais fácil com um vilão definido. Mas aquele homem ali, que aprendia a preparar refeições simples, que aceitava correções de Alfredi sem orgulho ferido, que desligava reuniões importantes ao menor sinal de que ela precisava… esse homem confundia tudo. Numa tarde chuvosa, Alice estava sentada perto da janela, observando a água escorrer pelo vidro. Chad dormia enrolado em suas pernas. Olyver estava na mesa improvisada de trabalho, concentrado, óculos apoiados no nariz, mangas da camisa dobradas até os antebraços. Ela desviou o olhar rápido demais quando percebeu que o observava. Mas não rápido o suficiente. — O que foi? — ele perguntou, sem levantar a voz. — Nada — respondeu ela. — Você parece distante. — Estou cansada — disse, o que não era mentira. Olyver fechou o notebook e se levantou devagar. — Quer que eu peça algo quente para você beber? — Não precisa. Ele parou a poucos passos dela, mantendo a distância combinada. — Alice… — começou, e parou. Ela levantou os olhos. — O que foi? — Se em algum momento a minha presença… te incomodar — disse ele, com cuidado —, você me diz. Eu posso trabalhar do outro apartamento. Não quero que você se sinta pressionada. Ela engoliu em seco. — Não é isso. — Então o que é? Alice hesitou. Não sabia se tinha o direito de dizer. Não sabia se queria dar forma àquilo. — É confuso — respondeu, por fim. — Ver você assim. — Assim como? — Tentando — disse ela. — Mudando. Cuidando. Olyver respirou fundo. — Eu não faço isso esperando nada em troca. — Eu sei — respondeu ela, rapidamente. — E talvez seja isso que mais me confunde. O silêncio se estendeu entre eles, denso, carregado de coisas não ditas. Alice sentiu um leve calor subir pelo corpo, algo que não sentia havia muito tempo. Um reconhecimento físico que a irritou e assustou ao mesmo tempo. Ela desviou o olhar, focando novamente na chuva. — Você mexe comigo — pensou, mas não disse. E isso a deixava furiosa consigo mesma. Porque ainda havia dor. Havia memória. Havia uma ferida que não cicatrizara. Mas havia também aquele homem que agora se esforçava todos os dias para não ser o mesmo. Naquela noite, Alice teve dificuldade para dormir. Olyver estava no sofá, como sempre, respeitando o espaço. O apartamento estava silencioso, iluminado apenas pela luz suave da cozinha. Ela se levantou com cuidado e foi até a sala. — Não conseguiu dormir? — ele perguntou, imediatamente atento. — Não. — Quer água? — Não — respondeu. — Só… companhia. Ele assentiu, sem se mover, dando a ela o controle da distância. Alice sentou na outra ponta do sofá. Chad pulou para o chão, irritado com a interrupção. — Eu odeio sentir isso — disse ela, de repente. — Sentir o quê? Ela respirou fundo. — Que meu corpo reage a você — disse, com honestidade crua. — Mesmo depois de tudo. Olyver ficou imóvel. — Você não tem obrigação nenhuma de entender isso agora — continuou ela. — Nem de lidar. Mas eu precisava dizer. Porque fingir que não existe… me faz sentir falsa comigo mesma. Ele passou a mão pelo rosto lentamente. — Alice… — começou, e parou. — O que você sente não te invalida. Nem diminui o que você sofreu. Ela o encarou. — E você? — perguntou. — O que sente? Ele demorou a responder. — Culpa — disse. — Medo de te ferir mais. E… uma vontade absurda de te proteger, mesmo sabendo que fui eu quem te colocou em risco. Ela assentiu. — Então estamos presos nisso — murmurou. — Talvez — respondeu ele. — Mas não precisamos decidir nada agora. Alice recostou a cabeça no encosto do sofá, exausta. — Só… não desapareça — disse, quase num sussurro. — Eu não vou — respondeu ele. — Mas também não vou avançar um passo que você não queira. Ela fechou os olhos. O coração bateu firme, constante. O desejo estava ali, incômodo, real, misturado com dor, medo e confusão. Olyver Blayck continuava sendo um pedaço de mau caminho. Mas, pela primeira vez, era um que parava antes da curva. E Alice sabia que, cedo ou tarde, teria que decidir o que fazer com isso.
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