O Que Não Se Diz em Voz Alta
Olyver sabia.
Não por intuição vaga ou desejo de acreditar, mas porque havia aprendido a reconhecer a verdade quando ela vinha sem defesas. Alice não era mulher de jogos. Quando falava, falava inteira — mesmo quando isso a machucava.
E naquela noite, quando ela abrira o coração, ele soubera que não havia encenação alguma ali.
Ela tinha dito que ele mexia com ela.
E aquilo o atravessara como nada antes.
Não era vaidade. Não era triunfo. Era um choque silencioso, quase doloroso, porque vinha misturado à consciência pesada do que ele havia feito. Do que nunca poderia desfazer. Ainda assim, ouvir aquilo — dito com honestidade, com medo, com conflito — o obrigara a encarar algo que vinha tentando manter sob controle.
Ela também mexia com ele.
Muito mais do que qualquer outra mulher antes.
Desde a noite em que sua memória falhara e depois voltara como um golpe brutal de realidade, Olyver não saíra com ninguém. Não tocara ninguém. Não buscara distrações. Não por penitência performática, mas porque simplesmente… nada fazia sentido.
Antes, mulheres eram presenças fáceis. Bonitas, disponíveis, passageiras. Ele nunca prometera nada, nunca pedira nada além do momento. Tudo era simples. Superficial. Controlável.
Com Alice, nada era.
Ela não se dobrava ao dinheiro. Não se impressionava com poder. Não aceitava cuidados sem questionar. Não cedia espaço sem impor limites. E, ainda assim, estava ali — frágil, grávida, doente — confiando nele o suficiente para não mandá-lo embora.
Já fazia um mês.
Um mês desde que ele passara a morar ali literalmente. Não como visita. Não como hóspede. Mas como alguém que acordava e dormia naquele espaço pequeno, organizado, silencioso. Como alguém que aprendera o ritmo da casa, o horário em que o sol batia na janela da manhã, o jeito que Chad exigia comida antes de qualquer outra coisa.
Um mês observando Alice se transformar.
O corpo mudando aos poucos. O rosto mais sensível. O cansaço vindo mais cedo. A mão, às vezes, pousando instintivamente sobre o ventre ainda discreto. E aquilo… aquilo mexia com ele de um jeito que não sabia nomear.
O filho estava ali.
Dentro dela.
E isso era um fato incontornável.
Às vezes, Olyver acordava no meio da noite com a estranha sensação de que ela estava ao seu lado. Não fisicamente — ela permanecia no quarto, ele no sofá —, mas como presença. Como se o silêncio da casa carregasse o ritmo da respiração dela. Como se o espaço entre eles tivesse diminuído sem que nenhum dos dois desse um passo.
Ele ficava deitado, olhos abertos, encarando o teto, sentindo algo que nunca sentira antes: pertencimento misturado com medo.
Naquela manhã, Alice acordara mais sensível que o normal. Enjoada, quieta. Alfredi preparara algo leve, e Olyver permanecera por perto, sem pressionar.
— Você não precisa ficar me olhando o tempo todo — ela disse, sem dureza.
— Eu sei — respondeu ele. — Só… fico atento.
Ela assentiu, aceitando, e comeu em silêncio.
Mais tarde, sentaram-se na sala. A luz suave da tarde entrava pelas janelas. Chad dormia em cima da estante, indiferente a qualquer drama humano.
— Olyver — ela chamou, de repente.
— Estou aqui.
— Eu fui sincera com você ontem — disse ela, olhando para as próprias mãos. — E preciso saber se você também está sendo comigo.
Ele não respondeu de imediato. Levou alguns segundos para escolher palavras que não fossem fuga.
— Eu estou — disse, por fim. — Pela primeira vez em muito tempo.
Ela ergueu o olhar.
— Então me diga.
Ele respirou fundo.
— Depois que eu vi o que fiz… depois que entendi — começou —, nada mais fez sentido. Nenhuma mulher. Nenhuma distração. Não porque eu me acho indigno ou porque quero provar algo, mas porque… tudo parece vazio perto disso.
— Disso? — ela perguntou.
— De você — respondeu. — Do que existe aqui. Do que está crescendo dentro de você.
Alice sentiu o coração acelerar, e levou a mão ao peito por reflexo.
— Olyver…
— Eu sei que isso é confuso — ele continuou, rápido, como se precisasse dizer antes que perdesse a coragem. — Sei que existe dor, memória, limites que precisam ser respeitados. Eu não estou pedindo nada. Não estou avançando. Só estou sendo honesto.
Ela permaneceu em silêncio.
— Você mexe comigo — disse ele. — De um jeito que não tem a ver com desejo apenas. É… mais profundo. Mais assustador.
— Assustador? — ela repetiu, quase num sussurro.
— Porque envolve responsabilidade — respondeu. — Envolve permanecer. Envolve mudar. Envolve olhar para o pior de mim e ainda assim escolher não fugir.
Alice fechou os olhos por um instante.
— Eu não quero que você confunda cuidado com posse — disse ela. — Nem presença com direito.
— Eu sei — respondeu ele imediatamente. — E se em algum momento você sentir isso… eu paro. Eu me afasto. Eu escuto.
Ela respirou fundo.
— Às vezes eu sinto como se… — ela hesitou. — Como se meu corpo estivesse reagindo a algo que minha cabeça ainda não consegue aceitar.
— Isso não te torna fraca — disse ele. — Nem incoerente.
— Me faz sentir culpada — ela confessou. — Como se eu estivesse traindo a mim mesma.
Olyver se inclinou um pouco para frente, mas manteve a distância.
— Alice — disse, com firmeza calma —, você não deve lealdade à dor. Você deve lealdade à sua verdade, seja ela qual for no tempo certo.
Ela o encarou longamente.
— E se minha verdade nunca incluir você dessa forma? — perguntou.
— Então eu continuo aqui — respondeu ele. — Como pai. Como apoio. Como alguém que não vai desaparecer.
Ela sentiu os olhos arderem, mas conteve as lágrimas.
Naquela noite, quando o silêncio se instalou novamente e cada um ocupou seu espaço, Olyver demorou a adormecer. Pensava nela. No filho. No futuro incerto que não se resolvia com dinheiro ou poder.
Pensava no quanto aquela mulher, que não lhe pertencia e talvez nunca pertencesse, já mudara tudo.
Alice, no quarto, também estava acordada. A mão repousava sobre o ventre, sentindo algo que ainda não era movimento, mas era presença. Ela pensava em Olyver na sala, acordado talvez, atento mesmo sem vê-la.
— Não é amor — murmurou para si mesma. — Ainda não.
Mas também não era indiferença.
Entre culpa e desejo, cuidado e limite, algo novo se formava. Não romantizado. Não apressado. Não apagando o passado.
Algo que exigiria tempo.
E, pela primeira vez, nenhum dos dois queria fugir disso.
Olyver fechou os olhos, sentindo o peso doce e terrível daquilo que não podia controlar.
Ela estava ali.
O filho estava ali.
E isso mudara tudo — para sempre.