O Peso da Decisão
A clínica estava silenciosa naquela manhã. O cheiro característico de antisséptico misturava-se ao ar frio do ar-condicionado, criando uma atmosfera que sempre deixava Alice levemente tonta.
Ela caminhava devagar pelo corredor, a bolsa pendendo do ombro, os passos calculados como aprendera a fazer desde o desmaio.
O coração parecia bater mais forte do que devia, e ela mantinha a mão sobre o peito, sentindo cada pulsação como um lembrete constante de que seu corpo agora exigia cuidado.
Olyver estava ali.
Encostado na parede próxima à porta do consultório, com os braços cruzados e o semblante sério, ele se levantou assim que a viu. Não sorriu. Não falou nada de imediato. Apenas esteve presente. Alice não pedira para que ele fosse, mas, estranhamente, não sentiu vontade de mandá-lo embora.
Naquele momento, não havia mais ninguém.
Nenhum parente próximo.
Nenhum amigo íntimo.
Nenhuma rede de apoio além da vida que crescia dentro de si — e do homem que, gostasse ela ou não, era o pai daquela criança.
— Bom dia — disse o médico ao chamá-los. — Podem entrar.
Alice sentou-se com cuidado na cadeira diante da mesa. Olyver permaneceu em pé por um instante, depois sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa. O médico abriu a pasta, revisando exames, resultados, anotações.
— Os exames confirmaram o que suspeitávamos — começou. — A condição cardíaca é rara, mas há tratamento. Exige acompanhamento rigoroso e disciplina absoluta.
Alice assentiu, em silêncio.
— O tratamento envolve injeções regulares — continuou o médico. — Medicamentos específicos, importados. Infelizmente, são caros.
Alice sentiu o estômago se contrair. Antes mesmo que o médico mencionasse valores, ela já sabia. Seu salário sempre fora suficiente para viver com dignidade, mas aquilo… aquilo estava muito além de suas possibilidades.
Ela virou o rosto lentamente e olhou para Olyver.
Não pediu nada.
Não disse nada.
Mas o olhar dizia tudo.
Olyver entendeu.
— Eu pago — disse ele, sem hesitar.
O médico ergueu os olhos da pasta.
— O tratamento é longo — reforçou. — Não estamos falando de algo pontual.
— Não importa — respondeu Olyver. — Ela vai fazer tudo o que for necessário.
Alice respirou fundo. Aquilo mexia com algo profundo dentro dela. Dependência nunca fora uma opção confortável. Ainda mais dele. Mas agora havia algo maior do que seu orgulho, maior do que sua necessidade de controle.
Havia uma criança.
— A senhorita tem alguém para ajudá-la em casa? — perguntou o médico, voltando-se para Alice. — Repouso é essencial. Ela não pode ficar sozinha lidando com tudo.
Alice hesitou.
— Eu… — começou.
Antes que terminasse, Olyver se adiantou.
— Eu sou o pai — disse, firme. — Eu cuido dela.
Alice o olhou, surpresa. Não esperava aquela prontidão. Não esperava aquela afirmação tão direta.
O médico assentiu, satisfeito.
— Ótimo. Então preciso ser claro — disse. — Ela não pode subir escadas. Esforço físico está terminantemente proibido. Repouso absoluto. E, apesar dos riscos, se seguirmos tudo corretamente… a gravidez pode seguir em frente.
As palavras ecoaram na mente de Alice.
Pode seguir em frente.
Quando saíram da clínica, o sol estava mais forte. Olyver caminhava ao lado dela, atento a cada passo, como se temesse que ela tropeçasse a qualquer momento.
— O elevador do prédio está em manutenção — disse Alice ao chegarem à portaria.
Olyver franziu o cenho.
— Quantos andares?
— Dois.
Ele olhou para a escada, depois para ela.
— Posso? — perguntou, baixo.
Alice hesitou apenas um segundo.
Pensou no coração.
Pensou no bebê.
Pensou em tudo que poderia dar errado se insistisse em subir sozinha.
— Pode — respondeu.
Olyver se aproximou com cuidado, passando um braço sob as pernas dela e outro por suas costas.
Alice sentiu o corpo ser erguido com facilidade.
Era leve.
Sempre fora.
Nunca pensara nisso até aquele momento.
O cheiro dele chegou primeiro. Um perfume discreto, misturado ao cheiro natural de alguém que acabara de sair de um consultório médico, de alguém real. O calor do corpo dele atravessou o tecido da roupa, e Alice fechou os olhos por um instante, tentando não pensar demais no que aquilo despertava.
Não era desejo.
Era memória.
Era confusão.
Olyver subiu as escadas devagar, com cuidado extremo. O silêncio entre eles era denso, mas não hostil. Alice sentia o ritmo da respiração dele, firme, controlada. Sentia-se estranhamente segura — e isso a incomodava.
Quando chegaram ao apartamento, ele a colocou no sofá com delicadeza.
— Vou ter que ficar aqui com você — disse ele, quase como uma constatação.
— Não precisa — Alice respondeu de imediato. — Eu consigo me virar.
— Não — disse ele, firme. — Você não pode subir escadas, não pode fazer esforço, não pode ficar sozinha passando m*l. E eu não vou embora.
Era estranho mas o nome dele escapou.
— Olyver… — ela começou.
— Eu já decidi — interrompeu, sem agressividade, mas com convicção. — Não como seu chefe.
Não como alguém que manda.
Como o pai do filho que você está carregando.
Alice fechou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras. Tudo nela queria dizer não. Tudo nela queria manter distância. Mas o corpo estava frágil, o coração exigia cuidado, e a realidade não lhe oferecia muitas alternativas.
— Isso não muda o que aconteceu — disse ela, por fim.
— Eu sei — respondeu ele. — E não estou pedindo que mude. Só estou assumindo o que me cabe agora.
O apartamento parecia ainda menor com ele ali. Mas, ao mesmo tempo, havia algo diferente no ar — uma tensão silenciosa, misturada a uma estranha sensação de inevitabilidade.
Chad apareceu da cozinha, observando Olyver com desconfiança. Ele se agachou, estendendo a mão devagar.
— Eu sei… — murmurou. — Você não gosta de mim.
O gato apenas o encarou antes de se aproximar de Alice.
— Justo — disse Olyver, levantando-se.
Ele caminhou até a cozinha, observando o espaço.
— Vou organizar alguma coisa para você comer — disse. — O médico falou que você precisa se alimentar direito.
Olyver pensou como iria fazer pois nunca fez nada nada só mandar ou pedir e ja estava pronto.
Alice o observava em silêncio. Aquele homem, que um dia fora apenas o chefe distante, depois o agressor que ela temia, agora se movia pela sua casa com cuidado, assumindo um papel que nenhum dos dois imaginara.
Nada estava resolvido.
Nada estava curado.
Mas ali, naquele pequeno apartamento, com um coração frágil e uma vida em formação, uma nova realidade se impunha.
E Alice sabia: a partir daquele momento, tudo seria mais complexo — e mais definitivo.