Entre Quatro Paredes
Alice voltou para casa com uma pasta de papéis apertada contra o peito e uma sacola de medicamentos pendendo do braço. O médico fizera questão de explicar tudo com calma excessiva, como se temesse que qualquer palavra mais dura pudesse quebrá-la.
Repouso absoluto.
Zero estresse.
Acompanhamento constante.
Retorno marcado.
Telefones anotados à mão, sublinhados, como se fossem âncoras.
Ela sabia.
Sabia que fora o senhor Blayck quem pedira aquilo.
O médico não dissera abertamente, mas havia algo no jeito como entregara os papéis, na forma como reforçara a gravidade da condição, que deixava claro que Olyver estivera ali, ouvindo, perguntando, insistindo. Ele sabia. Sabia que o problema no coração era sério. Sabia que qualquer abalo poderia ser perigoso — para ela e para a criança.
Isso não tornava nada mais simples.
Os dois dias seguintes passaram lentos demais. Alice permanecia no apartamento quase o tempo todo, seguindo as orientações à risca. Tomava os remédios nos horários certos, tentava dormir, tentava comer. Chad não saía de perto, como se tivesse assumido uma vigília silenciosa. O telefone tocou algumas vezes. Ela não atendeu.
Precisava de tempo.
Tempo para respirar sem sentir o peito apertar.
Tempo para pensar sem que a presença dele ocupasse todos os espaços.
Tempo para existir sem decisões imediatas.
Mas o tempo, às vezes, não respeita pedidos.
No fim da tarde do segundo dia, a campainha tocou.
Alice estava sentada no sofá, uma manta leve sobre as pernas, quando o som ecoou pelo apartamento pequeno. Seu coração acelerou de imediato — um reflexo que ela tentou controlar, colocando a mão sobre o peito e respirando devagar, como o médico ensinara.
Talvez fosse alguém do prédio.
Talvez fosse engano.
A campainha tocou novamente.
Ela se levantou com cuidado, caminhando até a porta. Olhou pelo olho mágico e sentiu o chão desaparecer por um segundo.
Era ele.
Olyver Blayck estava do lado de fora, sério, sem o terno habitual. Camisa simples, mangas dobradas, postura contida. Não parecia o homem confiante do escritório. Parecia alguém que não sabia exatamente onde estava pisando.
Alice abriu a porta, ainda sem acreditar.
— Senhor Blayck … — disse, num fio de voz.
— Posso entrar? — perguntou ele, baixo, quase cauteloso.
Ela hesitou por um segundo. Depois deu passagem.
O apartamento era pequeno, mas organizado.
Tudo no lugar, como sempre.
A sala tinha poucos móveis: o sofá, a poltrona, uma estante com livros, algumas plantas. Havia silêncio — aquele silêncio que se constrói quando alguém tenta se proteger do mundo.
Alice voltou para o sofá e sentou-se devagar. Olyver fechou a porta atrás de si, observando o espaço com atenção, como se estivesse entrando não apenas numa casa, mas numa parte da vida dela que nunca lhe fora permitida.
— Você não me atende quando ligo — disse ele, depois de alguns segundos.
Alice manteve o olhar fixo em um ponto qualquer da parede.
— Eu precisava de um tempo.
Ele assentiu, como se já esperasse aquela resposta.
— Eu imaginei — disse. — Mesmo assim… achei que precisava vir.
Olyver sentou-se na poltrona, mantendo distância. Não invadiu o espaço. Não se aproximou demais. Cada gesto parecia pensado, contido, como se estivesse pisando em vidro.
— Você está bem? — perguntou.
— Estou — respondeu Alice. — Dentro do possível.
Houve um silêncio desconfortável.
Chad apareceu da cozinha, caminhando até a sala com passos lentos e avaliadores. Parou no meio do caminho, encarou Olyver por alguns segundos e, por fim, subiu no sofá ao lado de Alice, enroscando-se contra ela. Alice passou a mão em seu pelo quase sem perceber.
— Ele não costuma gostar de visitas — comentou, sem emoção.
— Eu entendo — respondeu Olyver. — Acho que eu também não gostaria de mim agora.
Alice o olhou pela primeira vez desde que ele entrara. Não havia raiva explícita em seu rosto. Havia cansaço. Um cansaço profundo, que não se resolve com pedidos de desculpa.
— Por que você veio? — perguntou.
Olyver respirou fundo antes de responder.
— Porque eu conversei com o médico — disse. — Sei que você precisa de repouso. Sei que qualquer estresse pode ser perigoso. E… — ele fez uma pausa — eu precisava ver com meus próprios olhos se você estava bem.
— Eu não pedi isso — respondeu ela.
— Eu sei — disse ele. — E não vim para exigir nada. Nem para pressionar. Só para… estar.
A palavra ficou no ar, estranha, indefinida.
Alice desviou o olhar.
— Estar não apaga o que aconteceu — disse, com firmeza tranquila.
— Eu sei — respondeu ele, sem hesitar. — Nada apaga.
Olyver passou a mão pelos cabelos, visivelmente tenso.
— Eu mandei entregar os medicamentos — confessou. — Não para controlar você. Apenas… para garantir que chegassem direito.
— Eu percebi — disse ela.
— E sei que você não quer falar comigo agora. Sei que talvez nunca queira. Mas eu precisava dizer algumas coisas pessoalmente.
Ela permaneceu em silêncio, permitindo.
— Eu assumi tudo comigo mesmo — continuou ele. — Não há mais dúvida. Não há mais negação. O que eu fiz foi imperdoável. E eu não vou tentar mudar essa palavra.
Alice fechou os olhos por um momento. O coração batia forte demais.
— Então não tente — disse. — Não tente transformar isso em algo mais fácil de carregar do que é.
Ele assentiu.
— O filho é meu — continuou Olyver. — E eu não vou fugir dessa responsabilidade. Financeira, médica, legal. Do jeito que você decidir. Mas eu não vou tomar decisões por você. Nem agora, nem nunca.
— Você não tem esse direito — respondeu ela.
— Eu sei — disse ele.
O silêncio voltou a se instalar. Dessa vez, menos tenso, mas ainda pesado.
— Você pode ir embora — disse Alice, por fim. — Eu preciso descansar. De verdade.
Olyver se levantou imediatamente.
— Claro — respondeu. — Eu não vou ficar mais.
Ele caminhou até a porta, mas parou antes de abri-la.
— Senhorita Madson… — chamou.
Ela o olhou.
— Eu sei que você não confia em mim. Sei que talvez nunca confie. Mas eu vou garantir que você tenha tudo o que precisa. Sem aparecer. Sem invadir. Do jeito que você permitir.
Ela não respondeu de imediato. Depois assentiu levemente.
— O que eu preciso agora — disse — é silêncio.
— Então é isso que você vai ter — respondeu ele.
Olyver abriu a porta e saiu, fechando-a com cuidado.
Alice permaneceu sentada por alguns minutos, sentindo o corpo tremer levemente depois que a presença dele se foi. Chad se mexeu, subindo em seu colo, como se tentasse ancorá-la naquele espaço seguro.
Ela respirou fundo, contando mentalmente, como aprendera.
Não estava tudo resolvido. Não estava nem perto disso.
Mas, naquele pequeno apartamento, entre quatro paredes organizadas e um silêncio escolhido, Alice Madson retomava, pouco a pouco, algo essencial: o direito de decidir o ritmo da própria vida — e de proteger a que crescia dentro dela.