Capítulo 7

1167 Words
Entre Quatro Paredes Alice voltou para casa com uma pasta de papéis apertada contra o peito e uma sacola de medicamentos pendendo do braço. O médico fizera questão de explicar tudo com calma excessiva, como se temesse que qualquer palavra mais dura pudesse quebrá-la. Repouso absoluto. Zero estresse. Acompanhamento constante. Retorno marcado. Telefones anotados à mão, sublinhados, como se fossem âncoras. Ela sabia. Sabia que fora o senhor Blayck quem pedira aquilo. O médico não dissera abertamente, mas havia algo no jeito como entregara os papéis, na forma como reforçara a gravidade da condição, que deixava claro que Olyver estivera ali, ouvindo, perguntando, insistindo. Ele sabia. Sabia que o problema no coração era sério. Sabia que qualquer abalo poderia ser perigoso — para ela e para a criança. Isso não tornava nada mais simples. Os dois dias seguintes passaram lentos demais. Alice permanecia no apartamento quase o tempo todo, seguindo as orientações à risca. Tomava os remédios nos horários certos, tentava dormir, tentava comer. Chad não saía de perto, como se tivesse assumido uma vigília silenciosa. O telefone tocou algumas vezes. Ela não atendeu. Precisava de tempo. Tempo para respirar sem sentir o peito apertar. Tempo para pensar sem que a presença dele ocupasse todos os espaços. Tempo para existir sem decisões imediatas. Mas o tempo, às vezes, não respeita pedidos. No fim da tarde do segundo dia, a campainha tocou. Alice estava sentada no sofá, uma manta leve sobre as pernas, quando o som ecoou pelo apartamento pequeno. Seu coração acelerou de imediato — um reflexo que ela tentou controlar, colocando a mão sobre o peito e respirando devagar, como o médico ensinara. Talvez fosse alguém do prédio. Talvez fosse engano. A campainha tocou novamente. Ela se levantou com cuidado, caminhando até a porta. Olhou pelo olho mágico e sentiu o chão desaparecer por um segundo. Era ele. Olyver Blayck estava do lado de fora, sério, sem o terno habitual. Camisa simples, mangas dobradas, postura contida. Não parecia o homem confiante do escritório. Parecia alguém que não sabia exatamente onde estava pisando. Alice abriu a porta, ainda sem acreditar. — Senhor Blayck … — disse, num fio de voz. — Posso entrar? — perguntou ele, baixo, quase cauteloso. Ela hesitou por um segundo. Depois deu passagem. O apartamento era pequeno, mas organizado. Tudo no lugar, como sempre. A sala tinha poucos móveis: o sofá, a poltrona, uma estante com livros, algumas plantas. Havia silêncio — aquele silêncio que se constrói quando alguém tenta se proteger do mundo. Alice voltou para o sofá e sentou-se devagar. Olyver fechou a porta atrás de si, observando o espaço com atenção, como se estivesse entrando não apenas numa casa, mas numa parte da vida dela que nunca lhe fora permitida. — Você não me atende quando ligo — disse ele, depois de alguns segundos. Alice manteve o olhar fixo em um ponto qualquer da parede. — Eu precisava de um tempo. Ele assentiu, como se já esperasse aquela resposta. — Eu imaginei — disse. — Mesmo assim… achei que precisava vir. Olyver sentou-se na poltrona, mantendo distância. Não invadiu o espaço. Não se aproximou demais. Cada gesto parecia pensado, contido, como se estivesse pisando em vidro. — Você está bem? — perguntou. — Estou — respondeu Alice. — Dentro do possível. Houve um silêncio desconfortável. Chad apareceu da cozinha, caminhando até a sala com passos lentos e avaliadores. Parou no meio do caminho, encarou Olyver por alguns segundos e, por fim, subiu no sofá ao lado de Alice, enroscando-se contra ela. Alice passou a mão em seu pelo quase sem perceber. — Ele não costuma gostar de visitas — comentou, sem emoção. — Eu entendo — respondeu Olyver. — Acho que eu também não gostaria de mim agora. Alice o olhou pela primeira vez desde que ele entrara. Não havia raiva explícita em seu rosto. Havia cansaço. Um cansaço profundo, que não se resolve com pedidos de desculpa. — Por que você veio? — perguntou. Olyver respirou fundo antes de responder. — Porque eu conversei com o médico — disse. — Sei que você precisa de repouso. Sei que qualquer estresse pode ser perigoso. E… — ele fez uma pausa — eu precisava ver com meus próprios olhos se você estava bem. — Eu não pedi isso — respondeu ela. — Eu sei — disse ele. — E não vim para exigir nada. Nem para pressionar. Só para… estar. A palavra ficou no ar, estranha, indefinida. Alice desviou o olhar. — Estar não apaga o que aconteceu — disse, com firmeza tranquila. — Eu sei — respondeu ele, sem hesitar. — Nada apaga. Olyver passou a mão pelos cabelos, visivelmente tenso. — Eu mandei entregar os medicamentos — confessou. — Não para controlar você. Apenas… para garantir que chegassem direito. — Eu percebi — disse ela. — E sei que você não quer falar comigo agora. Sei que talvez nunca queira. Mas eu precisava dizer algumas coisas pessoalmente. Ela permaneceu em silêncio, permitindo. — Eu assumi tudo comigo mesmo — continuou ele. — Não há mais dúvida. Não há mais negação. O que eu fiz foi imperdoável. E eu não vou tentar mudar essa palavra. Alice fechou os olhos por um momento. O coração batia forte demais. — Então não tente — disse. — Não tente transformar isso em algo mais fácil de carregar do que é. Ele assentiu. — O filho é meu — continuou Olyver. — E eu não vou fugir dessa responsabilidade. Financeira, médica, legal. Do jeito que você decidir. Mas eu não vou tomar decisões por você. Nem agora, nem nunca. — Você não tem esse direito — respondeu ela. — Eu sei — disse ele. O silêncio voltou a se instalar. Dessa vez, menos tenso, mas ainda pesado. — Você pode ir embora — disse Alice, por fim. — Eu preciso descansar. De verdade. Olyver se levantou imediatamente. — Claro — respondeu. — Eu não vou ficar mais. Ele caminhou até a porta, mas parou antes de abri-la. — Senhorita Madson… — chamou. Ela o olhou. — Eu sei que você não confia em mim. Sei que talvez nunca confie. Mas eu vou garantir que você tenha tudo o que precisa. Sem aparecer. Sem invadir. Do jeito que você permitir. Ela não respondeu de imediato. Depois assentiu levemente. — O que eu preciso agora — disse — é silêncio. — Então é isso que você vai ter — respondeu ele. Olyver abriu a porta e saiu, fechando-a com cuidado. Alice permaneceu sentada por alguns minutos, sentindo o corpo tremer levemente depois que a presença dele se foi. Chad se mexeu, subindo em seu colo, como se tentasse ancorá-la naquele espaço seguro. Ela respirou fundo, contando mentalmente, como aprendera. Não estava tudo resolvido. Não estava nem perto disso. Mas, naquele pequeno apartamento, entre quatro paredes organizadas e um silêncio escolhido, Alice Madson retomava, pouco a pouco, algo essencial: o direito de decidir o ritmo da própria vida — e de proteger a que crescia dentro dela.
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