Capítulo 6

1257 Words
O Peso da Consciência Olyver Blayck voltou à clínica no fim da tarde, quando os corredores estavam mais silenciosos e o movimento havia diminuído. Caminhava devagar, como se cada passo exigisse um esforço maior do que o normal. O mundo, que sempre parecera obedecer ao seu ritmo, agora avançava pesado demais, lento demais, carregado de uma verdade que ele não podia mais negar. Parou diante da porta do quarto. Respirou fundo antes de entrar. Alice dormia. Havia algo profundamente delicado naquela imagem. Ela estava de lado, parcialmente coberta pelo lençol branco, o soro gotejando com regularidade, marcando o tempo de um modo cruelmente preciso. Seus cabelos loiros estavam soltos, espalhados pelo travesseiro, como se alguém tivesse retirado a armadura que ela usava todos os dias no escritório. A pele clara parecia mais viva, menos tensa do que ele se lembrava, apesar da fragilidade evidente. Parecia um anjo. O pensamento o atingiu como um soco. Não por idealização, mas pela contradição violenta entre aquela imagem serena e o que ele tinha feito. O que ele era capaz de fazer. Olyver aproximou-se devagar, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama. Não tocou nela. Não ousou. As mãos permaneceram entrelaçadas, rígidas, como se qualquer movimento em falso pudesse quebrar algo irreparável — se é que já não estava quebrado. Como ele pôde fazer aquilo? A pergunta martelava sem cessar. Ele fechou os olhos por um instante, e as imagens do vídeo voltaram com força: a própria postura agressiva, o corpo dela tentando se afastar, a ausência de qualquer consentimento. Não havia desculpa possível. Não havia confusão. Não havia “zona cinzenta”. Havia um fato nu e c***l, gravado, irrefutável. Ele tinha atravessado um limite que jamais deveria ter sido tocado. E agora, havia consequências que não podiam ser apagadas. Grávida. A palavra ecoava na mente de Olyver com um peso quase insuportável. Um filho. Seu filho. Algo que nunca estivera em seus planos, nunca fora pensado com responsabilidade, agora existia — e existia nas piores circunstâncias possíveis. Ele olhou para o ventre ainda discreto de Alice, sentindo um nó se formar em sua garganta. Não havia alegria ali. Não havia expectativa romântica. Havia medo. Culpa. Uma responsabilidade que ele não podia transferir, não podia terceirizar, não podia ignorar. — Eu preciso falar com você — murmurou, mesmo sabendo que ela não podia ouvir. Precisava pedir perdão. Precisava ouvir o que ela tivesse a dizer — mesmo que fosse ódio, mesmo que fosse silêncio. Precisava assumir o que fizera, não como um homem poderoso protegido pelo sobrenome, mas como alguém que cometera um crime moral profundo. Alice se mexeu levemente na cama. Olyver prendeu a respiração. Ela franziu a testa por um instante, como se estivesse atravessando um sonho difícil, depois relaxou novamente. Ele permaneceu ali, imóvel. O tempo passou sem que ele percebesse. Em algum momento, a luz do quarto mudou, ficando mais suave. O som distante de passos no corredor marcava a passagem de outras vidas, outros problemas, outras histórias. A mente de Olyver voltou ao passado. Lembrou-se de Alice no escritório, sempre correta, sempre distante. Da forma como ela organizava tudo sem jamais se impor. Do respeito silencioso que conquistara ao longo dos anos. Lembrou-se do pai falando dela com admiração, algo raro vindo de Otto Blayck. Ele nunca tinha olhado para ela como uma pessoa completa. Nunca tinha permitido isso. E agora, aquela negligência cobrava seu preço da forma mais dura possível. Alice começou a despertar devagar. Primeiro, os dedos se mexeram levemente. Depois, os cílios tremeram. Olyver levantou-se num reflexo, como se tivesse sido pego em flagrante, mas permaneceu ali. Ela abriu os olhos lentamente, confusa no início. O quarto branco, o soro, o cheiro característico de hospital. A consciência voltou em ondas. Então ela o viu. O corpo dela enrijeceu de imediato. — O que você está fazendo aqui? — a voz saiu baixa, mas firme. Olyver engoliu em seco. — Eu… eu precisava voltar — respondeu. — Precisava falar com você. Alice virou o rosto, evitando encará-lo. Não havia pânico em seus olhos — havia cansaço. Um cansaço profundo, antigo, como se tivesse se acumulado ao longo de anos. — Não há nada para falar — disse ela. — O médico já disse tudo. — Não — ele insistiu, dando um passo à frente e parando, respeitando a distância. — Há muita coisa para falar. E eu não vou fugir disso. Ela fechou os olhos por um momento. — Você riu de mim — disse, sem emoção. — Disse que nunca tínhamos ficado. Como se eu estivesse inventando. Olyver sentiu a vergonha queimar. — Eu não lembrava — respondeu, a voz embargada. — Mas isso não muda nada. Não apaga nada. Eu vi o vídeo, Alice. Ela abriu os olhos lentamente e o encarou. — Viu? — Vi tudo — disse ele. — E não existe justificativa. Nenhuma. Eu estava bêbado, mas isso não explica. Não desculpa. Não diminui. O silêncio se estendeu entre eles. — Eu sinto muito — continuou ele, com dificuldade. — Sei que isso não conserta nada. Sei que talvez você nunca me perdoe. Mas eu precisava dizer. Eu precisava assumir. Alice respirou fundo. As palavras que ele dizia não traziam alívio. Não apagavam o medo que ela sentira, nem a sensação de ter perdido o controle do próprio corpo. Mas ouvir a verdade, sem negação, sem tentativa de distorção, era algo necessário. — Eu estou grávida — disse ela, como se ainda precisasse reafirmar a realidade. — E tenho um problema sério no coração. Minha vida mudou por causa de uma noite que você escolheu não controlar. Ele assentiu, os olhos marejados. — Eu sei — respondeu. — E eu não vou fingir que isso não é comigo. O filho é meu. A responsabilidade é minha. Tudo o que você decidir… eu vou respeitar. Mas eu não vou desaparecer. Alice o observou em silêncio por longos segundos. Havia ali uma guerra interna — não entre perdoar ou odiar, mas entre permitir ou não que ele ocupasse qualquer espaço em sua vida dali em diante. — Eu ainda não sei o que vou fazer — disse por fim. — Nem com o trabalho. Nem com você. Nem com essa gravidez. Tudo é demais agora. — Eu entendo — respondeu ele. — E não vou pressionar. Só… não vou negar o que fiz. Nunca mais. Ela assentiu levemente, exausta. — Então comece respeitando meu silêncio — disse. — Eu preciso de tempo. Olyver deu um passo para trás. — Eu vou estar aqui quando você quiser falar — respondeu. — Do lado de fora. Onde você achar que eu devo ficar. Ele se virou para sair, mas parou na porta. — Senhorita Madson … — chamou, a voz quase um sussurro. — Você não está sozinha. Não mais. Mesmo que você nunca confie em mim de novo… eu vou assumir o que fiz. Pelo filho. Por você. Pelo que é certo. Ela não respondeu. Quando a porta se fechou, Alice deixou escapar o ar que segurava. Levou a mão ao peito, sentindo o coração bater forte demais, irregular demais. Havia medo. Havia raiva. Mas havia também algo novo, desconfortável, difícil de nomear. A verdade tinha vindo à tona. E, a partir daquele momento, nada mais poderia ser escondido — nem o passado, nem as consequências, nem a vida que crescia dentro dela. Ela fechou os olhos novamente, não para fugir, mas para reunir forças. O caminho à frente seria longo. E, dessa vez, não havia retorno possível.
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