A Verdade que Não Pode Ser Apagada
Durante um mês inteiro, Alice Madson acreditou — ou tentou acreditar — que tudo tinha voltado ao normal.
Ela chegava no horário, saía no horário exato, cumpria suas funções com a precisão de sempre.
O escritório seguia funcionando, os relatórios eram entregues, as reuniões aconteciam.
Olyver Blayck mantinha a distância profissional, chamava-a de senhorita Madson, e ela o chamava de senhor Blayck. Nenhuma palavra fora do lugar. Nenhuma porta fechada depois do expediente.
Externamente, parecia que o mundo havia se reorganizado.
Por dentro, Alice vivia no limite.
Havia dias em que o corpo parecia pesado demais, como se cada passo exigisse um esforço desproporcional. Enjoos matinais que ela atribuía ao estresse. Tonturas repentinas que surgiam no meio de tarefas simples. Um cansaço profundo, estranho, que o descanso não resolvia.
Ela ignorou.
Sempre ignorara seus próprios limites.
Naquela manhã, o escritório estava particularmente movimentado. Alice organizava uma pilha de documentos quando a visão começou a escurecer pelas bordas. O som ao redor ficou distante, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível entre ela e o mundo.
— Preciso… — tentou dizer, mas a voz não saiu.
A caneta caiu de sua mão. O corpo perdeu a força de uma vez só.
Alice desmaiou.
O caos se instalou no corredor em segundos.
— Senhorita Madson!
— Chamem ajuda!
— Ela não está acordando!
Olyver saiu da sala ao ouvir os gritos. Quando a viu caída no chão, pálida, imóvel, algo dentro dele se contraiu com força. Sem pensar, ajoelhou-se ao lado dela, chamando seu nome — algo que nunca fizera antes.
— Senhorita Madson … acorde. Senhorita!
Ela não reagiu.
Ele a pegou no colo, ignorando os olhares, ignorando qualquer formalidade. O peso do corpo dela contra o seu parecia errado, frágil demais. Entrou no elevador pressionando o botão com urgência, a mente em branco, o coração acelerado.
Na clínica, tudo aconteceu rápido.
Macas. Perguntas. Luzes fortes. Alice foi levada para atendimento imediato, enquanto Olyver permanecia do lado de fora, andando de um lado para o outro, sentindo uma angústia que não conseguia explicar racionalmente.
Quando ela finalmente acordou, o mundo voltou aos poucos.
O cheiro característico de hospital. O som constante de algum aparelho. A sensação fria do soro entrando na veia. Alice piscou devagar, tentando entender onde estava.
E então o viu.
Olyver Blayck estava ali, em pé ao lado da cama, o rosto tenso, os braços cruzados como se tentasse se segurar em si mesmo.
— Senhor… — ela murmurou, a voz fraca.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, a porta se abriu.
— Boa tarde, senhorita Madson — disse o médico, entrando com uma prancheta. — Tenho duas informações importantes para lhe dar.
Alice sentiu o estômago se revirar.
— Pode falar — respondeu, com dificuldade.
O médico respirou fundo, olhando primeiro para ela, depois para Olyver.
— A primeira é que a senhorita está grávida.
O tempo parou.
Alice ficou imóvel, como se não tivesse entendido as palavras. Grávida. A palavra ecoava em sua mente, pesada, impossível. Sua mão foi instintivamente ao próprio ventre, ainda plano, ainda silencioso.
Olyver a olhou imediatamente, os olhos arregalados, cheios de incredulidade.
— Isso é impossível — murmurou, mais para si do que para os outros.
— A segunda informação — continuou o médico, com cuidado — é que a senhorita tem uma condição rara no coração. É grave, mas há tratamento. A gravidez exige acompanhamento rigoroso.
Ele explicou termos técnicos, riscos, cuidados. Alice ouviu tudo como se estivesse distante, como se estivesse submersa. Quando o médico terminou e saiu, o quarto ficou em silêncio absoluto.
Olyver foi o primeiro a falar.
— Temos que contar ao meu pai — disse, seco. — Isso… isso não pode ficar assim.
Alice virou o rosto lentamente para ele. Seus olhos encontraram os dele, e havia ali algo que nunca estivera antes: uma firmeza fria, cortante.
— Contar o quê, senhor Blayck? — perguntou.
— Essa história absurda — respondeu ele, com um riso nervoso. — Alice, isso não faz sentido. Nós nunca ficamos. Nunca aconteceu nada entre nós.
As palavras foram como um golpe.
Alice o encarou por longos segundos. Não havia surpresa em seu rosto. Nem tristeza. Apenas um olhar profundo, carregado de algo que fez Olyver se sentir desconfortável, quase ameaçado.
— Você é o pai — disse ela, calmamente.
Olyver riu, um riso curto, incrédulo.
— Isso é ridículo. Nunca aconteceu nada entre nós, senhorita Madson.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Você não lembra — disse Alice, a voz baixa, mas firme. — Mas aconteceu.
Ele deu um passo para trás.
— Não… — murmurou. — Você está confundindo as coisas.
Ela não gritou. Não chorou. Apenas o olhou.
— Eu não confundo violência com nada, senhor Blayck.
A palavra ficou suspensa no ar.
Olyver saiu do quarto sem dizer mais nada.
Voltou para o escritório como um homem em fuga. A cabeça latejava, não de ressaca, mas de algo mais profundo, mais sombrio. Sentou-se diante do computador com as mãos trêmulas, abriu o sistema de segurança.
A câmera da sua sala.
A noite que sua mente se recusava a lembrar.
Ele avançou o vídeo.
No início, nada fora do normal. Ele sozinho, bebendo. Depois, Alice entrando. Ele se aproximando. Ela tentando se afastar. O áudio não existia, mas as imagens diziam tudo.
Viu a própria mão segurando o braço dela.
Viu a resistência.
Viu o medo estampado no rosto que ele fingira não reconhecer.
O vídeo continuou.
Olyver sentiu o estômago embrulhar. Levantou-se bruscamente, apoiando-se na mesa para não cair. Aquilo não era um m*l-entendido. Não era um vazio de memória inocente.
Era ele.
— Meu Deus… — sussurrou.
As risadas, as negativas, a incredulidade… tudo desmoronou.
Na clínica, Alice permanecia deitada, encarando o teto. O mundo que ela conhecia havia mudado novamente, de forma brutal. Grávida. Doente. Presa a uma verdade que ninguém queria ouvir.
Mas ela não recuaria.
Não mais.
Porque agora, além de si mesma, havia outra vida envolvida.
E a verdade, por mais dolorosa que fosse, não podia mais ser ignorada — nem apagada da memória, nem escondida atrás do poder, nem silenciada pelo medo.
Ela fechou os olhos, respirou fundo e, pela primeira vez desde aquela noite, sentiu algo diferente do terror.
Determinação.
O silêncio havia acabado.