Capítulo 33

1102 Words
O Dia das Injeções Alice nunca gostara daquele dia. Desde que o médico explicara o tratamento, ela sabia que era necessário, que não havia escolha, que aquelas injeções eram parte do caminho para manter o coração forte o suficiente — por ela, pelo bebê. Ainda assim, nada a preparava completamente para o que sentia toda vez que o calendário marcava aquela data. Eram três injeções. No músculo, profundas, precisas. Um remédio forte, direcionado exatamente para o problema raro que ela tinha no coração. O médico sempre falava com calma, explicava tudo outra vez, mas a explicação não diminuía a dor. Nem o depois. Depois vinha a febre. O corpo frágil. O cansaço que parecia atravessar os ossos. Uma sensação de estar oca e pesada ao mesmo tempo. Alice respirava fundo só de pensar. Naquela manhã, ela acordou mais cedo do que o normal. Chad estava ao seu lado, sentindo o clima diferente, inquieto. Ela passou a mão pelos pelos dele, buscando conforto. — Hoje é o dia, né? — murmurou para o gato, como se ele pudesse responder. A porta do quarto se abriu devagar, e Olyver apareceu. Ele já estava vestido, camisa simples, sem o ar de executivo. Quando viu o rosto dela, soube imediatamente. — Não dormiu bem — disse, aproximando-se. — Não muito — respondeu Alice. — Fico tensa antes. Ele se sentou na beira da cama, mantendo o tom de voz baixo. — Eu estou aqui — disse. — O dia inteiro, se precisar. Ela assentiu, sentindo a garganta apertar. — Eu sei — respondeu. — Você nunca falta. E não faltava mesmo. Naqueles dias, Olyver não aceitava reuniões longas, não atendia ligações desnecessárias, não delegava a presença. Ele ia com o motorista porque sabia: Alice precisava de colo. Precisava se sentir amparada fisicamente, não apenas acompanhada. Enquanto ela se arrumava devagar, ele preparou uma bolsa com tudo o que poderia precisar depois: água, um casaco extra, os remédios para a febre, um lenço, até um chocolate pequeno — algo que ela gostava e quase nunca pedia. — Você não precisava fazer tudo isso — disse Alice, observando. — Eu preciso — respondeu ele. — Me deixa mais tranquilo. No carro, Alice estava quieta. Olyver sentou-se ao lado dela no banco de trás, não para conversar, mas para estar perto. A mão dele repousava sobre a dela, firme, constante. Não havia pressa, nem palavras vazias. Quando o carro parou em frente à clínica, Alice sentiu o estômago revirar. — Olyver… — chamou ela, baixinho. — Estou aqui — respondeu ele imediatamente. Ela respirou fundo. — Se eu ficar fraca depois… — começou. — Eu te pego no colo — completou ele, sem hesitar. — Como sempre. Ela sorriu de leve, emocionada. — Obrigada. Dentro da clínica, o cheiro característico já fazia parte da rotina. As enfermeiras a conheciam, tratavam-na com carinho. O médico veio falar com eles, revisando o procedimento. — Hoje seguimos com as três — explicou. — Sei que não é fácil, Alice, mas você está reagindo bem ao tratamento. Ela assentiu, apertando os dedos de Olyver. — Estarei aqui fora — disse ele ao médico. — Qualquer coisa. — Eu sei — respondeu o médico, olhando para Alice. — Você está em boas mãos. Olyver acompanhou Alice até a sala, ajudou-a a se sentar, segurou sua mão até o último momento permitido. Antes de sair, inclinou-se e falou baixo, perto do ouvido dela: — Respira comigo. Um de cada vez. Eu não vou a lugar nenhum. Ela fechou os olhos, assentindo. As injeções doeram. Como sempre. O músculo reagiu, o corpo inteiro pareceu reclamar. Alice mordeu o lábio, sentiu os olhos marejarem, mas permaneceu firme. Pensava no bebê. Pensava em Olyver esperando do lado de fora. Quando tudo terminou, ela estava pálida, suando frio. — Já passou — disse a enfermeira, com cuidado. — Agora é descansar. Olyver entrou no mesmo instante em que foi chamado. Ao vê-la, sentiu o peito apertar. — Vem — disse ele, abrindo os braços. Alice não discutiu. Levantou-se com dificuldade, e ele a envolveu com cuidado, pegando-a no colo como se fosse algo precioso. Ela apoiou a cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro familiar, o calor seguro. — Doeu — murmurou. — Eu sei — respondeu ele. — Já passou. Ela sentia o corpo pesado, a cabeça girando levemente. Olyver ajustou o abraço, firme o suficiente para sustentá-la, suave o bastante para não machucar. No carro, ele não a soltou de imediato. Só depois de acomodá-la com cuidado no banco, cobrindo-a com o casaco. — Febre pode vir — disse ele. — Já deixei tudo separado. — Você pensa em tudo — murmurou ela, com um fio de voz. — Porque eu me importo — respondeu ele. No caminho de volta, Alice adormeceu por alguns minutos, exausta. Olyver observava cada respiração, cada pequeno movimento, atento a qualquer sinal diferente. Quando ela se mexeu, ele tocou de leve a mão dela. — Estou aqui — disse. Em casa, ele a levou direto para o quarto. Ajudou-a a se deitar, ajustou os travesseiros, trouxe água, mediu a temperatura. Chad subiu na cama e se enroscou ao lado dela, como se entendesse a necessidade de cuidado. A febre veio como previsto. Alice tremia levemente, o corpo frágil, os músculos doloridos. Olyver passou o dia inteiro ali. Sentado na poltrona ao lado da cama. Às vezes segurando a mão dela. Às vezes passando um pano úmido na testa. Às vezes apenas observando, em silêncio. — Você devia trabalhar — murmurou ela em certo momento, meio sonolenta. — Hoje, não — respondeu ele. — Hoje, eu sou só seu. Ela sorriu, mesmo fraca. — Eu odeio esse dia — confessou. — Eu sei — disse ele. — Mas você é muito forte. — Eu não me sinto forte — respondeu ela. Olyver inclinou-se, falando baixo. — Força não é não sentir dor. É atravessar a dor sem desistir. E você faz isso por você e pelo nosso filho. As lágrimas escorreram silenciosas pelo rosto dela. — Obrigada por ficar — disse ela. — Por não soltar minha mão. — Eu nunca solto — respondeu ele. À noite, a febre começou a baixar. Alice respirava mais tranquila. Olyver ajeitou a manta sobre ela e permaneceu ali, atento, mesmo cansado. Naquele dia, não houve conversas profundas, nem planos. Houve apenas presença. E, para Alice, isso era tudo. Porque nos dias de injeção, quando o corpo doía e o coração parecia frágil, o que a mantinha de pé não era só o tratamento. Era saber que, acontecesse o que acontecesse, Olyver estaria ali. Sem abrir mão.
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