capítulo 30

1034 Words
Um Dia para Respirar Olyver já estava de pé havia horas. O escritório do grupo Blayck estava mais agitado do que o normal, e ele sabia exatamente o motivo. Desde que Alice se afastara oficialmente do trabalho, muita coisa precisara ser reorganizada. Não porque ela fosse “substituível”, mas justamente pelo contrário: ninguém conhecia a empresa, os contratos e os detalhes sensíveis como ela conhecia. Ainda assim, aquela manhã não era apenas sobre trabalho. Era sobre garantir que ela estivesse bem. Ele encerrou uma reunião, assinou alguns documentos e fez questão de deixar ordens claras para sua equipe: qualquer decisão importante passaria por ele. Alice não seria incomodada. Não agora. Não nunca mais. Pegou o celular e ligou para casa. — Cherry? — chamou assim que ela atendeu. Do outro lado, Alice estava sentada no sofá, Chad ao seu lado, olhando pela janela como quem sentia falta do mundo lá fora. — Oi — respondeu, com a voz suave. — Está muito ocupado? — Um pouco mais do que eu queria — admitiu. — Mas nada que não esteja sob controle. Ela hesitou por um instante. — Eu estava pensando… — começou. — Preciso ir ao supermercado. Já faz dias que não saio direito. Eu sei que você disse que podia mandar alguém, mas… eu queria ir. Olyver fechou os olhos por um segundo, avaliando. — Você quer ir ou sente que precisa ir? — perguntou com cuidado. — Quero ir — respondeu ela. — Andar um pouco. Respirar. Ver gente. Ficar trancada o tempo todo também me cansa. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Não era controle. Era cuidado. E ele sabia a diferença. — Tudo bem — disse, enfim. — Mas você vai com Alfredi. — Eu sei — respondeu ela rapidamente. — Ele já está aqui. — E qualquer coisa… — continuou Olyver. — Eu ligo para você — completou Alice, com um sorriso que ele quase pôde ouvir. — Exatamente. Antes de desligar, ele acrescentou: — Cherry… posso te pedir uma coisa? — Pode. — Não force o corpo. Se cansar, volta. Sem heroísmo. — Prometo. Olyver desligou e, quase imediatamente, abriu a gaveta da mesa. Pegou um dos cartões e, por impulso, decidiu ligar de novo. — Olyver? — Alice atendeu surpresa. — Esqueci de te falar uma coisa — disse ele. — Quero que compre algumas coisas para você. — Como assim? — Para o quarto. Para o bebê depois. Para você se sentir mais em casa. Ela riu baixo. — Você já faz tanto… — Alice — interrompeu ele, firme, mas gentil. — Não é favor. É escolha. Houve um pequeno silêncio. — Tudo bem — disse ela por fim. — Mas só o necessário. — Compre o que quiser — respondeu ele. — De verdade. — Olyver… — Eu deixei o cartão na gaveta da mesa da sala — continuou ele. — Só compre. Ela respirou fundo do outro lado da linha. — Obrigada — disse, sincera. — Me liga quando chegar — pediu ele. — Eu ligo. No supermercado, Alice sentiu algo que não sentia havia muito tempo: normalidade. Caminhou devagar pelos corredores, empurrando o carrinho enquanto Alfredi mantinha uma distância respeitosa, sempre atento, mas sem invadir. Ela escolheu frutas, legumes, algumas coisas simples que gostava de preparar. Parou mais tempo do que o necessário na sessão de chás, lendo rótulos, sentindo aromas. Era bom decidir. Em certo momento, passou pela seção de artigos para casa. Lençóis. Almofadas. Pequenos objetos de decoração. Seu olhar foi atraído por um conjunto de almofadas em tons suaves, delicados. Pensou no quarto. No espaço que começava a mudar. Não porque Olyver queria, mas porque ela estava permitindo. Colocou as almofadas no carrinho. Seguiu para a parte infantil quase sem perceber. Não escolheu nada grande. Apenas um pequeno objeto — simples, neutro, algo que não gritava expectativas. Mas que dizia: existe alguém chegando. Sentiu os olhos marejarem e respirou fundo, apoiando a mão no carrinho. — Está tudo bem, senhorita? — Alfredi perguntou, com cuidado. — Está — respondeu ela. — Só… emoções. Ele assentiu, respeitoso. Antes de sair, Alice ainda passou por uma loja próxima ao supermercado, especializada em itens para casa. Comprou um abajur pequeno, de luz quente. Pensou que ficaria bonito no quarto, deixando o ambiente mais acolhedor. No caixa, quando entregou o cartão, hesitou por um segundo. — Está tudo certo — murmurou para si mesma. — Ele disse para comprar. E comprou. Quando voltou para casa, sentia-se cansada, mas bem. Um cansaço diferente. Um cansaço de quem viveu o dia. Ligou para Olyver assim que entrou. — Já cheguei — avisou. — Tudo bem por aí? — ele perguntou imediatamente. — Tudo — respondeu ela. — Comprei o mercado… e algumas coisas para o quarto. Houve um pequeno silêncio do outro lado. — Fico feliz — disse ele. — Muito. — Você não ficou bravo? Ele riu baixo. — Cherry, eu ficaria bravo se você não se permitisse viver. Ela sorriu. — Obrigada por confiar em mim. — Obrigado por confiar em mim — respondeu ele. Mais tarde, quando Olyver chegou em casa, encontrou Alice sentada no chão do quarto, organizando as compras com calma. Chad observava tudo de cima da cama, como um supervisor atento. — Vejo que o dia rendeu — comentou ele, apoiando-se na porta. Alice olhou para ele e sorriu. — Rendeu sim. Ele entrou, observando as almofadas novas, o abajur ainda na caixa. — Gostei — disse ele. — Combina com você. — Não exagerei? — perguntou ela, insegura. — Não — respondeu ele com firmeza. — Você construiu um espaço. Isso é diferente. Ela assentiu, sentindo o peito aquecer. — Foi bom sair — disse ela. — Obrigada por deixar. Olyver franziu levemente a testa. — Eu não “deixo”, Alice — corrigiu. — Eu cuido. E confio. Ela sorriu, emocionada. Naquela noite, enquanto o apartamento silencioso se acomodava às pequenas mudanças, Alice percebeu que não era apenas o quarto que estava sendo reformado. Era a vida. E, pela primeira vez, ela sentia que podia escolher cada detalhe — no seu tempo, do seu jeito, com alguém que não a prendia, mas a acompanhava.
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