Páginas que Despertam
Já fazia uma semana.
Uma semana desde que o livro repousava na estante, discretamente encaixado entre um romance antigo e um manual de organização que Alice nunca terminara de ler. Ele parecia inofensivo ali, quase invisível. Mas Alice sabia: toda vez que passava pela estante, sentia o coração bater diferente. Como se aquelas páginas a observassem em silêncio, esperando.
O apartamento estava calmo naquela manhã. Chad dormia esticado no tapete, recebendo o sol que entrava pela janela. Olyver tinha saído cedo, como vinha fazendo nos últimos dias. Havia assuntos na empresa, ele dissera. Coisas que precisavam ser resolvidas pessoalmente.
Alice sabia. Não porque ele tivesse explicado em detalhes, mas porque aprendera a ler os silêncios dele. Alguns daqueles assuntos eram sobre ela. Sobre o bebê. Sobre proteção, contratos, decisões que ele tomava para garantir que nada — nem ninguém — pudesse feri-la outra vez.
Ela confiava.
E por isso não se metia.
Olyver sempre deixava um beijo na testa antes de sair, um “qualquer coisa me liga” dito com calma, e a certeza de que Alfredi apareceria se ela precisasse. Mas naquela manhã, depois que a porta se fechou, Alice sentiu algo diferente. Uma quietude que não era vazia — era expectante.
Ela caminhou até a cozinha, preparou um chá e voltou para a sala. Sentou-se no sofá, ajeitou a manta sobre as pernas e olhou, quase sem perceber, para a estante.
O livro.
Respirou fundo.
— Chega — murmurou para si mesma.
Levantou-se com cuidado, foi até a estante e puxou o livro. Segurá-lo nas mãos fez seu rosto esquentar imediatamente, como sempre. Um rubor conhecido, que já não a assustava tanto. Ela sorriu sozinha, lembrando-se do apelido que Olyver usava com carinho.
Cherry.
Sentou-se outra vez no sofá, o livro fechado no colo. Não abriu de imediato. Passou os dedos pela capa, sentindo a textura, como se precisasse daquele pequeno ritual para criar coragem.
— É só um livro — disse em voz baixa. — Só conhecimento.
Abriu.
As primeiras páginas falavam sobre o corpo feminino com uma delicadeza que Alice nunca tinha visto antes. Não havia palavras agressivas, nem imposições. Falava-se de respeito, de escuta, de entender o próprio ritmo. Alice sentiu algo se soltar dentro de si, um nó antigo que ela nem sabia que carregava.
Leu devagar. Muito devagar.
Às vezes fechava o livro e respirava fundo. Outras vezes, voltava um parágrafo para reler, como quem tenta aprender uma língua nova — exatamente como Olyver havia dito. Havia explicações simples, naturais, que não a faziam sentir vergonha, mas curiosidade.
— Então é assim… — murmurou em certo momento.
Descobriu que prazer não era obrigação. Que o corpo podia responder com calma. Que cada pessoa tinha seu tempo. Que sentir não era errado.
Sentiu os olhos marejarem.
Por quantos anos ela acreditara que seu corpo era apenas algo funcional? Um corpo que trabalhava, que obedecia, que sobrevivia. Nunca um corpo que sentia. Nunca um corpo que escolhia.
Fechou o livro por alguns minutos, apoiando-o contra o peito. Chad se mexeu no tapete, abriu um olho preguiçoso e voltou a dormir. Alice sorriu com a normalidade da cena. Ali, naquele apartamento pequeno, ela estava segura.
Voltou a ler.
Alguns trechos a deixavam vermelha, sim. O rosto quente, o coração acelerado. Mas não era vergonha como antes. Era descoberta. Era perceber que havia partes de si que nunca tinham sido apresentadas a ela mesma.
Pensou em Olyver.
No jeito como ele nunca ultrapassava um limite. No cuidado quase exagerado. No modo como perguntava antes de tocar, como observava suas reações, como parecia disposto a esperar o tempo que fosse necessário.
Ela fechou o livro mais uma vez.
— Ele sabia — sussurrou. — Ele sempre soube.
Soube que ela precisava entender antes de viver. Soube que ela precisava aprender antes de se entregar. Soube que ensinar não era conduzir, mas acompanhar.
Alice sentiu uma gratidão profunda, silenciosa.
As horas passaram sem que ela percebesse. Quando deu por si, o chá já estava frio e a luz da tarde começava a mudar de tom. Ela marcou a página com cuidado e fechou o livro, agora com menos medo.
Não tinha lido tudo. Nem perto disso. Mas tinha lido o suficiente para entender algo importante: ela não estava quebrada. Nunca esteve.
O barulho da porta se abrindo mais tarde a fez erguer o olhar. Olyver entrou, tirando o paletó com um suspiro discreto. Parecia cansado, mas quando a viu, o rosto suavizou imediatamente.
— Oi — disse ele.
— Oi — respondeu Alice, com um sorriso pequeno.
Ele se aproximou.
— Como foi seu dia?
— Tranquilo — respondeu ela. — Li um pouco.
Olyver ergueu uma sobrancelha, curioso.
— Leu?
Ela assentiu devagar.
— O livro.
Ele não sorriu de imediato. Apenas observou, atento.
— E… como se sentiu?
Alice pensou por alguns segundos antes de responder.
— Assustada no começo — confessou. — Depois… curiosa. E agora… mais inteira.
Olyver sentou-se ao lado dela, mantendo a distância respeitosa de sempre.
— Fico feliz — disse, com sinceridade.
— Você tinha razão — continuou ela. — Não é algo sujo. Nem errado.
— Nunca foi — respondeu ele.
Ela respirou fundo.
— Eu ainda tenho muito o que aprender.
— E eu estou aqui — disse ele. — Do jeito que você quiser.
Alice olhou para ele, para aqueles olhos azuis que já não a intimidavam como antes. Havia desejo ali, sim, mas havia algo maior: respeito.
— Obrigada por resolver tudo sem me envolver — disse ela, mudando de assunto. — Eu sei que muita coisa é por minha causa.
— É por nós — corrigiu ele. — E você não precisa carregar esse peso.
Ela assentiu.
Naquela noite, Alice colocou o livro de volta na estante. Mas agora ele não parecia um estranho. Parecia um aliado.
Deitou-se mais tarde com uma sensação nova no peito. Não era ansiedade. Era expectativa serena. A certeza de que estava se conhecendo, página por página, no seu próprio ritmo.
E, em algum lugar entre o aprendizado e o cuidado, Alice percebeu que não estava apenas se preparando para amar alguém.
Estava, pela primeira vez, aprendendo a se amar também.