O Dia das Injeções
Alice nunca gostara daquele dia.
Desde que o médico explicara o tratamento, ela sabia que era necessário, que não havia escolha, que aquelas injeções eram parte do caminho para manter o coração forte o suficiente — por ela, pelo bebê. Ainda assim, nada a preparava completamente para o que sentia toda vez que o calendário marcava aquela data.
Eram três injeções.
No músculo, profundas, precisas. Um remédio forte, direcionado exatamente para o problema raro que ela tinha no coração. O médico sempre falava com calma, explicava tudo outra vez, mas a explicação não diminuía a dor. Nem o depois.
Depois vinha a febre. O corpo frágil. O cansaço que parecia atravessar os ossos. Uma sensação de estar oca e pesada ao mesmo tempo.
Alice respirava fundo só de pensar.
Naquela manhã, ela acordou mais cedo do que o normal. Chad estava ao seu lado, sentindo o clima diferente, inquieto. Ela passou a mão pelos pelos dele, buscando conforto.
— Hoje é o dia, né? — murmurou para o gato, como se ele pudesse responder.
A porta do quarto se abriu devagar, e Olyver apareceu. Ele já estava vestido, camisa simples, sem o ar de executivo. Quando viu o rosto dela, soube imediatamente.
— Não dormiu bem — disse, aproximando-se.
— Não muito — respondeu Alice. — Fico tensa antes.
Ele se sentou na beira da cama, mantendo o tom de voz baixo.
— Eu estou aqui — disse. — O dia inteiro, se precisar.
Ela assentiu, sentindo a garganta apertar.
— Eu sei — respondeu. — Você nunca falta.
E não faltava mesmo.
Naqueles dias, Olyver não aceitava reuniões longas, não atendia ligações desnecessárias, não delegava a presença. Ele ia com o motorista porque sabia: Alice precisava de colo. Precisava se sentir amparada fisicamente, não apenas acompanhada.
Enquanto ela se arrumava devagar, ele preparou uma bolsa com tudo o que poderia precisar depois: água, um casaco extra, os remédios para a febre, um lenço, até um chocolate pequeno — algo que ela gostava e quase nunca pedia.
— Você não precisava fazer tudo isso — disse Alice, observando.
— Eu preciso — respondeu ele. — Me deixa mais tranquilo.
No carro, Alice estava quieta. Olyver sentou-se ao lado dela no banco de trás, não para conversar, mas para estar perto. A mão dele repousava sobre a dela, firme, constante. Não havia pressa, nem palavras vazias.
Quando o carro parou em frente à clínica, Alice sentiu o estômago revirar.
— Olyver… — chamou ela, baixinho.
— Estou aqui — respondeu ele imediatamente.
Ela respirou fundo.
— Se eu ficar fraca depois… — começou.
— Eu te pego no colo — completou ele, sem hesitar. — Como sempre.
Ela sorriu de leve, emocionada.
— Obrigada.
Dentro da clínica, o cheiro característico já fazia parte da rotina. As enfermeiras a conheciam, tratavam-na com carinho. O médico veio falar com eles, revisando o procedimento.
— Hoje seguimos com as três — explicou. — Sei que não é fácil, Alice, mas você está reagindo bem ao tratamento.
Ela assentiu, apertando os dedos de Olyver.
— Estarei aqui fora — disse ele ao médico. — Qualquer coisa.
— Eu sei — respondeu o médico, olhando para Alice. — Você está em boas mãos.
Olyver acompanhou Alice até a sala, ajudou-a a se sentar, segurou sua mão até o último momento permitido. Antes de sair, inclinou-se e falou baixo, perto do ouvido dela:
— Respira comigo. Um de cada vez. Eu não vou a lugar nenhum.
Ela fechou os olhos, assentindo.
As injeções doeram. Como sempre.
O músculo reagiu, o corpo inteiro pareceu reclamar. Alice mordeu o lábio, sentiu os olhos marejarem, mas permaneceu firme. Pensava no bebê. Pensava em Olyver esperando do lado de fora.
Quando tudo terminou, ela estava pálida, suando frio.
— Já passou — disse a enfermeira, com cuidado. — Agora é descansar.
Olyver entrou no mesmo instante em que foi chamado. Ao vê-la, sentiu o peito apertar.
— Vem — disse ele, abrindo os braços.
Alice não discutiu. Levantou-se com dificuldade, e ele a envolveu com cuidado, pegando-a no colo como se fosse algo precioso. Ela apoiou a cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro familiar, o calor seguro.
— Doeu — murmurou.
— Eu sei — respondeu ele. — Já passou.
Ela sentia o corpo pesado, a cabeça girando levemente. Olyver ajustou o abraço, firme o suficiente para sustentá-la, suave o bastante para não machucar.
No carro, ele não a soltou de imediato. Só depois de acomodá-la com cuidado no banco, cobrindo-a com o casaco.
— Febre pode vir — disse ele. — Já deixei tudo separado.
— Você pensa em tudo — murmurou ela, com um fio de voz.
— Porque eu me importo — respondeu ele.
No caminho de volta, Alice adormeceu por alguns minutos, exausta. Olyver observava cada respiração, cada pequeno movimento, atento a qualquer sinal diferente. Quando ela se mexeu, ele tocou de leve a mão dela.
— Estou aqui — disse.
Em casa, ele a levou direto para o quarto. Ajudou-a a se deitar, ajustou os travesseiros, trouxe água, mediu a temperatura. Chad subiu na cama e se enroscou ao lado dela, como se entendesse a necessidade de cuidado.
A febre veio como previsto.
Alice tremia levemente, o corpo frágil, os músculos doloridos. Olyver passou o dia inteiro ali. Sentado na poltrona ao lado da cama. Às vezes segurando a mão dela. Às vezes passando um pano úmido na testa. Às vezes apenas observando, em silêncio.
— Você devia trabalhar — murmurou ela em certo momento, meio sonolenta.
— Hoje, não — respondeu ele. — Hoje, eu sou só seu.
Ela sorriu, mesmo fraca.
— Eu odeio esse dia — confessou.
— Eu sei — disse ele. — Mas você é muito forte.
— Eu não me sinto forte — respondeu ela.
Olyver inclinou-se, falando baixo.
— Força não é não sentir dor. É atravessar a dor sem desistir. E você faz isso por você e pelo nosso filho.
As lágrimas escorreram silenciosas pelo rosto dela.
— Obrigada por ficar — disse ela. — Por não soltar minha mão.
— Eu nunca solto — respondeu ele.
À noite, a febre começou a baixar. Alice respirava mais tranquila. Olyver ajeitou a manta sobre ela e permaneceu ali, atento, mesmo cansado.
Naquele dia, não houve conversas profundas, nem planos. Houve apenas presença.
E, para Alice, isso era tudo.
Porque nos dias de injeção, quando o corpo doía e o coração parecia frágil, o que a mantinha de pé não era só o tratamento.
Era saber que, acontecesse o que acontecesse, Olyver estaria ali.
Sem abrir mão.