Capítulo 34

1155 Words
Pensamentos de Mãe Alice estava sentada na poltrona perto da janela quando aquele pensamento voltou, silencioso e pesado como sempre fazia. O bebê se mexeu em sua barriga, um movimento ainda suave, quase tímido, mas forte o suficiente para lembrá-la de tudo. Ela levou a mão ao ventre, fechando os olhos por alguns segundos. Depois que o bebê nascer, ela faria a reparação no coração. Era isso que os médicos haviam decidido. Durante a gravidez, apenas controle, tratamento, repouso e vigilância constante. Depois do parto, viria o procedimento definitivo. Uma cirurgia delicada, necessária, planejada com cuidado. Alice entendia tudo racionalmente. Confiava nos médicos. Sabia que as chances eram boas. Ainda assim… havia medo. Não exatamente da cirurgia. Mas do “e se”. E se algo desse errado? E se ela não acordasse? E se não estivesse ali para ver o filho crescer? Esses pensamentos não vinham com desespero. Vinham de forma silenciosa, madura, quase responsável. Alice nunca fora de dramatizar. Desde pequena aprendera a encarar a vida como ela era, dura às vezes, injusta muitas vezes. Mas agora havia algo diferente. Agora havia um bebê. E havia Olyver. Ela respirou fundo, sentindo um aperto no peito que não vinha do problema cardíaco, mas da emoção contida. Se algo acontecesse com ela… Olyver cuidaria do bebê. Ela tinha certeza disso. A porta do quarto se abriu devagar. Olyver entrou, segurando alguns papéis. Quando viu Alice pensativa, parada, com a mão na barriga e o olhar perdido, sentiu o coração apertar. — Cherry… — chamou, usando o apelido que surgira naturalmente entre eles. Alice virou o rosto, forçando um pequeno sorriso. — Oi. Ele se aproximou, deixando os papéis sobre a cômoda. — Está tudo bem? Ela hesitou. Aprendera, com ele, a não guardar tudo para si. Ainda assim, aquele pensamento parecia grande demais para ser dito em voz alta. — Estou… pensando — respondeu. Olyver se sentou no braço da poltrona, próximo o suficiente para tocá-la se ela permitisse. — Pensamentos bons ou ruins? — Necessários — ela disse. Ele franziu levemente a testa, atento. — Sobre o quê? Alice respirou fundo. Olhou novamente para a barriga, acariciando-a devagar. — Sobre depois que o bebê nascer. Olyver ficou sério imediatamente. — O que tem depois que ele nascer? — A cirurgia — respondeu ela, com calma. — A reparação no coração. O silêncio que se instalou foi denso. Olyver conhecia esse assunto, mas sempre evitavam se aprofundar demais. Não por negação, mas por proteção mútua. — Os médicos disseram que é segura — falou ele, tentando manter a voz firme. — Eu sei — disse Alice. — E eu confio neles. De verdade. Ela ergueu os olhos para ele, e havia ali uma serenidade que o desarmou. — Mas também sei que toda cirurgia tem riscos. Olyver engoliu em seco. — Alice… — Me deixa terminar — pediu ela, com doçura. Ele assentiu. — Eu estava pensando… se algo acontecesse comigo… — a voz dela falhou por um segundo, mas ela se recompôs — …o bebê ficaria com você. Olyver sentiu como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões. — Não fala isso — disse, imediatamente. — Não estou falando por medo — respondeu ela. — Estou falando por amor. Ela segurou a mão dele. — Eu precisava pensar nisso. Saber. Os olhos de Olyver se encheram de uma emoção intensa. Ele se ajoelhou diante dela, ficando à altura do ventre e do rosto dela. — Olha pra mim — pediu. Alice obedeceu. — Nada vai acontecer com você — disse ele, firme. — Nada. — Eu sei que você acredita nisso — respondeu ela. — E isso me dá força. Mas eu preciso saber que, se o mundo resolvesse ser c***l… meu filho estaria protegido. Olyver não conseguiu conter as lágrimas. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, com cuidado, como se ela fosse feita de vidro. — Se algo acontecesse com você — disse, com a voz embargada —, eu cuidaria desse bebê com tudo o que sou. Com tudo o que tenho. Eu daria a ele amor, segurança, presença. Eu contaria todos os dias quem foi a mãe dele. O quanto você foi forte. O quanto lutou. As lágrimas escorreram pelo rosto de Alice. — Eu sei — sussurrou. — Por isso consigo respirar melhor quando penso nisso. Ele apoiou a testa na dela. — Mas você vai estar aqui — insistiu. — Vai vê-lo andar, falar, crescer. Vai brigar com ele, rir, se emocionar. Eu não aceito outro final. Alice sorriu, chorando. — Você sempre quer controlar tudo, né? — Quando se trata de você, sim — respondeu ele. Ela passou a mão pelos cabelos dele. — Eu nunca pensei que alguém cuidaria assim de mim… ou do meu filho. — Nosso filho — corrigiu ele, com firmeza. Ela assentiu. — Nosso. O bebê se mexeu novamente, mais forte dessa vez. Alice levou a mão ao ventre, surpresa. — Ele está se mexendo mais ultimamente — disse ela. Olyver sorriu, emocionado. Colocou a mão sobre a barriga dela, com cuidado. — Ei… — murmurou. — Papai está aqui. Alice observava aquela cena com o coração cheio. Aquele homem, que um dia fora apenas seu chefe distante, agora era o porto seguro que ela nunca soubera que precisava. — Você sabe — disse ela —, eu tenho medo de não ser forte o suficiente às vezes. — Você já é — respondeu ele. — Mesmo quando acha que não. Ele se levantou e a puxou devagar para um abraço. Alice se aninhou no peito dele, ouvindo o coração forte bater. — Se algo acontecesse comigo — repetiu ela, agora mais baixo —, eu sei que você não deixaria nosso filho sozinho. — Nunca — respondeu ele, sem hesitar. — Mas também não vou deixar você ir a lugar nenhum. Ela fechou os olhos, sentindo-se segura. — Depois da cirurgia… — continuou ela —, eu quero viver de verdade. Sem medo. Quero correr atrás do nosso filho. Quero reclamar quando ele não quiser comer. Quero ficar acordada à noite preocupada. Olyver riu entre lágrimas. — Você vai reclamar muito — disse. — Tenho certeza. Ela riu também. — Promete que, aconteça o que acontecer, você nunca vai deixar nosso filho duvidar que foi amado desde o primeiro dia? Ele segurou o rosto dela novamente. — Eu prometo. Mas prometo também lutar para que você esteja aqui para cumprir essa promessa comigo. Alice respirou fundo, sentindo uma paz estranha, doce, profunda. Naquele momento, ela entendeu algo importante: Pensar no pior não era desistir da vida. Era amar o suficiente para querer proteger quem ficaria. E saber que Olyver estaria ali, firme, presente, transformava o medo em esperança. Ela não estava sozinha. E, pela primeira vez desde o diagnóstico, Alice acreditou com todo o coração que o futuro — apesar de incerto — podia ser bonito.
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