Dias depois...
Eu estava me sentindo muito m*l, não sei se pelo fato de receber várias ameaças constantes ou eu ter recebido um coração de porco podre dentro de uma caixa, com uma mensagem que dizia “é assim que você estará em breve”.
Lobo esteve aqui, dentro da minha casa, dentro desse morro e ninguém viu. Ele poderia ter me matado facilmente, mas não fez. Talvez até poderia ter matado corvo também, mas ainda sim, não fez. O que ele queria, afinal? Ganhar tempo ou mexer com o meu psicológico?
De qualquer forma ele estava conseguindo, por que eu já m*l conseguia dormir a noite sem temer ele entrar pela minha janela e meter um tiro no meio da minha testa. Ele faria isso, sem remorso. Sei disso por que o cara é insano, e não se pode duvidar de quem brinca de roleta russa com a própria cabeça.
Meu estômago embrulha com cheiro podre, sinto o bile subir minha garganta e queimar com o amargo do vômito que não vem. Estou sozinha agora, Rairine ficou comigo alguns dias e depois foi embora, penso que talvez, seja melhor assim. Já estou envolvida em uma treta que não é minha e pagando o pato, não quero minha amiga envolvida nisso também e acabar com nós duas mortas, sem ter nada a ver.
— Ísis! — ouço a voz me chamar na rua, inclino a cabeça ainda deitada querendo não querer que ele está no meu portão, semanas depois de me deixar vários dias em um quartinho — quero falar contigo, sei que tu ta em casa.
Suspiro fundo e me levanto, me arrasto até a varanda do meu quarto me negando a descer e abrir o portão. Ele foi meu amigo, hoje não é mais, e não é como se eu fosse chamá-lo para entrar e tomar um chá comigo, quero distância de todos eles e quando menos esperarem, estarei bem longe daqui.
— O que você quer? — pergunto seco.
— Da pra abrir o portão? Não quero ter que ficar gritando do meio da rua.
— Só entrar na minha casa pessoas que eu confio, Corvo — ele cruza os braços a altura do peito e arqueia as sobrancelhas — e adivinhe? Eu não confio em você.
— Quer saber? f**a-se. Vai ficar aí bancando a mimada e correndo perigo, eu lavo as minhas mãos — diz e sai andando.
— Então agora você se preocupa comigo? Semanas atrás quase fui morta por seus amigos por ter livrado teu r**o de um tiro — a fúria em seus olhos volta, Corvo escalaria meu portão se pudesse e entraria aqui — nossa amizade acabou aquele dia, Corvo. Se eu correr perigo é comigo mesmo, não sou sua responsabilidade.
Ele faz um sinal de joia e sai. Acho que a pior traição sempre vem das amizades, não tem dor maior que essa.
Sempre que meu celular toca, meu corpo inteiro se arrepia automaticamente, justamente por saber do que se trata. Mas dessa vez, suspiro aliviada por ver o nome da minha mãe na tela.
Isis: Mãe… — minha voz sai quase chorosa, e eu sinto a vontade de desabar me invadir.
Madalena: Oi, amor. Esta tudo bem? Estou com saudades de você.
Isis: Eu também, muita!
Madelena: Por que está com essa voz? Estava chorando?
Isis: não — minto — acabei de acordar, na verdade!
Madalena: Isis, não precisa mentir para mim. Está acontecendo alguma coisa?
Isis: Não, está tudo bem, mae. Só estou um pouco cansada, faxinei a casa inteira hoje cedo.
Madalena: Tem certeza?
Isis: Sim!
Madalena: Então tudo bem. Estive conversando com seu pai, combinamos de ir visitar você na próxima semana, o que acha?
Estremeci, lobo poderia usar minha família para se vingar de mim, por que o aviso dele foi claro quando disse que me mataria se eu saísse do morro, que após a barricada ele tem olhos em todos os lugares. Pensei uma desculpa esfarrapada e nada saia, mas eu nao vou deixar que ele machuque meus pais.
Isis: Na verdade, eu queria ir visitar vocês. O que acham? Passar uns dias aí!
Madalena: Eu vou amar, princesa. Sabe que pode voltar quando quiser, não sabe? Quando se sentir m*l, volte para casa, Isis. Nossos braços estarão sempre aberto para você, sabe disso.
Isis: Gosto daqui, mãe. As férias da faculdade logo acabam e eu volto a estudar, mas eu prometo que quando me formar, volto para o ninho de vocês. Ta bom?
Madalena: Estou ansiosa pra isso acontecer, não sabe como essa casa fica vazia sem você aqui.
Isis: Eu imagino — meu peito se aperta com a saudade, se eu não tivesse aberto mão da minha casa lá embaixo, eu jamais estaria nessa situação — mãe? Estou com sono, a senhora me liga amanhã?
Madalena: Claro, amor. Durma com Deus! Nós te amamos!
Isis: Eu também amo vocês!
Ouvi ela sussurrar com meu pai que eu estava estranha, desliguei a ligação logo após. Eu não queria que eles viessem aqui, mas algo me dizia que viriam só para conferirem se eu realmente estava bem como dizia. Queria apenas dormir por dias seguidos, e acordar no outro dia e descobrir que tudo aquilo não passou de um pesadelo. Mas cada vez que eu deito para dormir, sinto como se as mãos de Lobo estivessem em meu pescoço pronto para me sufocar. Em outra ocasião, eu gostaria de pensar sobre isso, como na noite em que…
Merda!
Não, não, não. Isso não pode está acontecendo!
Abro o aplicativo onde registro minha menstruação e meu corpo gela.
23 dias atrasada.