No dia seguinte, tomamos café da manhã juntas. Elisa e eu estávamos ainda mais próximas. Discutimos sobre a noite anterior e o problema que tivemos com as meninas. Beto estava do outro lado do refeitório e conversava animado com os meninos que integravam a sua banda. Quando nos viu sentadas, caminhou em nossa direção.
Meninas, os meninos da banda e eu decidimos tocar amanhã aqui no refeitório. Pedimos para a Sra. Clarice para incluir nossa apresentação na programação de amanhã. O que acham?
Nossa, que incrível! Queria mesmo te ver tocar – disse Elisa, com grande entusiasmo.
Que ótimo. Mas quem vai cantar? O Pedro não veio. – perguntei.
A Elisa me disse ontem que gosta de cantar. Pensei que... – disse ele olhando para ela.
Eu?! – Elisa respondeu surpresa. – Eu nunca cantei na frente das pessoas antes... Não vai dar.
Ah Elisa, por favor, só podemos contar com você – Beto segurou a mão dela, implorando.
Tudo bem. Mas se eu ficar nervosa e for um desastre, não me culpem. - Elisa cedeu. Parecia visivelmente apaixonada por Beto.
Desejo boa sorte para vocês. Espero que dê tudo certo. Contem comigo para o que acharem necessário. – Comentei, sorridente, vendo que enfim o clima entre Elisa e eu estava melhorando.
Elisa, vamos ensaiar hoje à tarde na sala de jogos. - Beto avisou, saindo praticamente às pressas.
Tá bom, vou encontrar vocês lá - Respondeu Elisa, lançando-lhe um beijo.
Quer vir nos assistir Alice? Seria ótimo alguém para avaliar nosso desempenho. - Perguntou Beto, olhando fixamente para mim.
Sorri ao perceber que ele estava preocupado comigo, achando que eu me sentiria excluída.
Não, tudo bem. Vou passar a tarde com Ana hoje, combinamos de conversar - respondi depressa.
Nesse momento notei um olhar assustado de Elisa para mim, como se analisando o que eu havia acabado de dizer. Será que ela odiava tanto a irmã a ponto de se chatear por eu estar conversando com ela? Pensei comigo mesma. Mas por quê? Por que elas eram tão distantes? E por que tinham esse comportamento estranho ao falar uma da outra? Todas essas indagações seriam resolvidas quando Ana me contasse a longa história que me prometeu. Do outro lado do salão de refeições, a Sra. Clarice falava enraivecida em uma ligação. Consegui ouvir coisas como “Não acredito em uma indecência dessas… a garota está internada com pneumonia” e “Santa Maria mãe de Deus! em uma floresta! uma floresta! um local público… é o fim dos tempos”
Olhei para Elisa, que também escutava e sabia exatamente do que se tratava toda a indignação da Sra. Clarice.
Como você conseguiu enviar o vídeo se m*l temos sinal por aqui? - perguntei curiosa.
Antes que sejamos amigas mesmo, tem algo sobre mim que você precisa saber - Elisa abriu um largo e radiante sorriso - Eu posso fazer qualquer coisa.
Então não vai mesmo me contar como enviou tão rápido? - Olhei para ela, com um misto de medo e admiração.
Já está feito. É isso o que importa. Fizemos o que era certo, não foi? - Elisa indagou, enquanto terminava de comer seu iogurte.
Sim… - respondi reflexiva - Bem, eu acho que sim.
Da janela lateral do salão de refeições, eu avistei Verônica e Felipe entrarem no ônibus que nos trouxe, levando as suas malas. Com semblantes visivelmente assustados. Especialmente Felipe, filho de um policial muito rígido e, portanto, já imaginava o que o esperava.
• • •
Quando saímos do refeitório após o café da manhã, foi anunciada a gincana no lago. Tratava-se de uma corrida de caiaques, e todos os alunos eram incentivados a participar. Beto imediatamente me chamou para conversar.
Você e Elisa são amigas agora? - Beto perguntou, animado com sua suposição.
Não sei se amigas seria a melhor definição. Estamos nos conhecendo. Por quê?
Eu realmente gosto dela. E seria ótimo se você também gostasse. É a minha melhor amiga, não queria me envolver com alguém que você não gostasse.
Então ele já estava mesmo cogitando algo mais sério com ela, instintivamente tentei evitar pensar no assunto.
Ah… Sobre isso… Você tem a minha benção. – falei com uma risada forçada. – Ela é legal.
Acho que irei com ela na corrida de caiaques, você se importa? Todo ano vamos juntos.
Claro que não. Não temos mais cinco anos. - Respondi com frieza. No entanto, era mesmo verdade.
Tudo bem, então nos vemos lá.
Beto me abraçou e saiu depressa, procurando por Elisa. Fiquei observando-o sair, pensando em tudo que havia me dito. Os pensamentos não duraram muito tempo, me surpreendi com uma cena um tanto estranha. Elisa entregava para Ana um pequeno papel azul, e essa resmungava alguma coisa, furiosa, a cena foi desfeita quando Beto chegou, convidando-a para ir ao lago se preparar para a corrida. Era nítido para qualquer observador, o fascínio que Beto tinha por Elisa, quase como se estivesse enfeitiçado, hipnotizado por aquela garota cujo sorriso e olhar poderiam te convencer de qualquer coisa. No entanto, de todas as cenas que eu, como boa observadora, tomava nota, o bilhete azul entregue por Elisa para a sua irmã, não saiu da minha mente, um só segundo.
Fui ao encontro de Ana que estava em um dos bancos próximos ao lago, e ela escondeu o papel azul depressa quando notou que eu me aproximava.
E aí, vai participar? - perguntei, ainda prestando atenção em seu rápido movimento ao colocar o papel no bolso.
Ouvi dizer que não tenho escolha, não é?! - respondeu Ana, sorrindo.
É, praticamente isso. Eles insistem. – concordei com um aceno.
E você e a minha irmã? São amigas agora?
Não diria que somos grandes amigas, mas gosto dela. Ela é legal.
Não pensaria assim se fosse você.
Olhei aturdida para ela, e lembrei-me da história que prometeu me contar.
- Combinamos que você me contaria a longa história hoje - relembrei o que ela me prometeu.
- Não é nada demais – respondeu cabisbaixa.
- Tem certeza? - Perguntei, tentando olhar em seus olhos.
- Tenho – disse Ana, olhando para Elisa que estava ao lado do Beto, próxima ao lago. Seus olhos a observavam com notável desprezo.
- É uma loucura duas irmãs se odiarem dessa forma - falei tentando fazê-la contar alguma coisa.
- A Elisa é o ser humano mais desprezível e manipulador que já conheci. Mas, por favor, não comente nada das nossas conversas com ela. Me prometa. - Ana pedia impaciente.
- Prometo. – respondi, um tanto confusa com aquele pedido
Ana olhava agora para o horizonte. Eu podia sentir sua mente distante, vagando em um turbilhão de pensamentos. Parecia melancólica.
- Quer participar da corrida comigo? - Perguntei, tentando tirá-la daquele devaneio.
- É claro! – respondeu com uma falsa alegria, como quem pretendia disfarçar outra emoção.