Lembranças
A chamada foi feita, os outros alunos não puderam deixar de notar o quanto Elisa estava bonita naquela noite. Seria legal me conformar que há milhões de motivos para o Beto estar apaixonado por ela, e que se caso ele quisesse algo a mais com a menina que chamava a atenção de todos os rapazes da escola, eu deveria aceitar simplesmente. Afinal não posso fazer nada quanto a isso, apenas desejar sua felicidade, como sempre desejei.
Passadas algumas horas de conversas eufóricas ao redor da fogueira, e de prováveis casais sendo formados - como acontecia todos os anos - ouvimos as histórias de terror contadas pela Sra. Clarice, que coordenava toda a programação do acampamento. Repetia as mesmas todos os anos, então comíamos alguns salgados e ríamos da expressão falsamente espantada de todos. Quando enfim o momento da fogueira terminou, as outras coordenadoras nos deixaram livres para andar em volta do lago e conversar. Podíamos ficar até à meia-noite e meia, passeando pela área dos chalés, depois deveríamos entrar. Elisa resolveu convidar o Beto para uma volta pelo lago, que aceitou, Beto ao notar que eu havia ficado para trás, resolveu vir falar comigo.
E aí, como você está? - perguntou ele
Bem... e você? - respondi tentando desviar o meu olhar do casal à minha frente
Ótimo. O acampamento está mais animado este ano - Beto tentava, inutilmente, puxar alguma conversa, dessas que começam de maneira trivial.
É, eu percebi. Principalmente para você, não é mesmo? – respondi rindo, para que ele não notasse algum tipo de pretensão em minha pergunta.
Por quê? - Espantou-se, enquanto olhava envergonhado para Elisa.
Ah Beto, para. Você acha que não te conheço? Não se faça desentendido…
Elisa se retirou para pegar alguns petiscos servidos na mesa próxima à fogueira.
Está falando da Elisa? Acho que ela não quer nada comigo. - disse Beto, em um tom quase inaudível,
Claro que quer. - Respondi imediatamente.
Ela te disse alguma coisa? – ele perguntou, muito interessado.
Não exatamente. Mas dá para perceber. Qualquer mulher em sã consciência perceberia. Ah, por favor, ela dormiu no seu ombro durante a viagem.
E o que você acha? - perguntou, estranhando o detalhamento das minhas argumentações.
Fiquei em silêncio. Deveria dizer o que eu realmente achava? Que não gostava dela? Que havia algo sinistro em seu jeito, que me incomodava e me passava uma impressão r**m? E se eu dissesse tudo isso, ele acharia que eu só estava com ciúmes? Daria crédito às minhas observações? Tantas perguntas encheram a minha mente em poucos segundos, que eu não soube ao certo como processá-las.
Eu acho que você deveria seguir seu coração – disse finalmente – Se você gostou dela, deveria tentar. Sabe… - Olhei para o lago, recordando do meu pesadelo. Um frio na espinha me ocorreu. - Não cabe a mim decidir qualquer coisa sobre a sua vida nesse sentido, Beto. Eu amo você então… - Olhei para baixo, com medo do tamborilar do meu próprio coração diante do que eu havia dito. - Então eu quero siga seu coração. Sempre.
Você é incrível, Alice. E sobre o que conversamos no caminho até a casa da Sra. Clarice. Eu queria que você soubesse que ninguém nunca vai te substituir. Você é, sempre será, a minha prioridade. - disse Beto, segurando a minha mão direita com força.
Eu nunca te pedi isso. - Me virei, antes que aquela conversa tomasse rumos difíceis demais. Rumos que me levariam a uma vulnerabilidade que eu sempre evitei.
Pude escutar os passos de Elisa se aproximando e indo ao encontro do Beto. Também escutei, mesmo de costas, o barulho do beijo que se abraçaram. Andei pelos arredores, sozinha, buscando conforto no barulho das folhas das árvores, dançando com o vento. Tentei pensar que era besteira todo aquele misto de sentimentos que oscilavam entre ciúmes, medo da perda e uma sensação estranha de que, aquela garota, irradiava a pior energia que eu já havia sentido. Nunca acreditei nessas bobagens místicas, em intuições, energias, auras, tarot ou o que quer que fosse, no entanto, pela primeira vez, eu percebia que havia algo quase sobrenatural no modo como Elisa fazia eu me sentir. Ardilosa e perigosa, seriam as características que mais me lembravam daquele semblante angelical, sereno, como uma princesa de contos de fadas só que, de modo paradoxal, uma vilã com olhar dominador e envolvente de um jeito r**m.
Olhando para a fogueira, prometi a mim mesma, que nenhuma dessas impressões e sentimentos controversos, me fariam interferir no relacionamento do Beto. Ele merecia se apaixonar, viver um romance e sentir novas sensações. Além do mais, eu sempre reclamei da exagerada p******o dele, e como sempre viveu por mim. Quem sabe agora, ele tenha de fato, novos interesses. Que ele siga o caminho dele. Esse é o certo a ser feito. Após essas reflexões, andei sozinha pela área do acampamento evitando ao máximo pensar no mesmo assunto novamente. Encontrei Ana sentada em um banco próximo à fogueira já quase apagada.
Ei... - me aproximei devagar - Está gostando do acampamento? – perguntei em um tom simpático
Oi! - Ana abriu um largo sorriso - Sim, estou gostando muito. Conheci as duas meninas do seu chalé, Raquel e Charlotte. São bem legais. A parte da fogueira, puxa… eu adorei. Me senti em um típico filme americano – disse animada.
Que bom que está gostando. Eu também adoro as programações do acampamento. - Respondi, sentando ao lado dela.
Conheceu a Elisa? - Ana perguntou, enquanto olhava ao redor.
Sim... Ela é legal, está no mesmo chalé que eu.
É… fiquei sabendo. Sinto muito por você. – disse com uma risada irônica logo em seguida.
Por quê? – perguntei curiosa.
Ah, a Elisa é uma pessoa bem difícil de lidar. Nós duas não temos uma boa relação.
Que triste... Sempre quis ter uma irmã, para que pudesse ter uma amiga comigo o tempo inteiro.
Meus pais também pensavam que seria assim. Mas a Elisa não colabora. Não mesmo. - Ana olhou novamente para os arredores do local onde estávamos.
Nossa, deve ser bem r**m, não é? Conviver na mesma casa, na mesma família, e não se gostarem - Respondi, intrigada com as curiosas checagens da Ana sobre quem poderia estar nos ouvindo.
Sim... É uma longa história.
Quer conversar sobre isso?
Quem sabe uma outra hora. Que tal amanhã à tarde? Tenho que voltar ao chalé, meus pais pediram para ligar para eles nesse horário. Aqui não tem sinal de internet então fico procurando o mínimo sinal para fazer ligações. Os seus pais também são preocupados assim?
Aquela velha tristeza invadiu meu coração.
Os meus pais faleceram.
Me desculpe. Eu sinto muito. Muito mesmo… – disse Ana desconcertada, enquanto me fazia um leve afago no ombro.
Não, fica tranquila. Eu já me acostumei. - forcei um sorriso para que ela se tranquilizasse.
Alice, me desculpe mesmo. Foi uma indelicadeza minha.
Calma, Ana, está tudo bem... Então fechado. Amanhã à tarde te procuro para conversarmos. - Respondi mudando de assunto o mais rápido que pude.
Ótimo! Então nos vemos amanhã. Caso não me encontre, o meu chalé é o 9. - Ana avisou enquanto se despedia e saía rapidamente para sua ligação.
Assim que Ana se despediu e se dirigiu ao seu chalé, fiquei sentada no banquinho observando o lago e a fogueira, já quase apagada por completo. Seria mesmo maravilhoso se meus pais estivessem vivos e me cobrassem uma ligação naquele momento. Pensar na ideia me entristeceu, mas sabia que não deveria chorar ou mesmo me a****r por causa disso. Afinal, sequer tive o privilégio de conhecê-los, e tia Elizabeth sempre me contava histórias sobre eles, que giravam em torno de como a minha mãe, no decorrer da minha gestação, gostaria que eu fosse uma garota forte e destemida. Eu vivia para cumprir o seu desejo.
Fiquei um bom tempo sentada, presa aos meus devaneios, pensando em meus pais, em minha vida, e em como gostaria de estar conversando sobre isso com o Beto naquele momento. Lembrei do que Ana disse sobre Elisa, e sobre a mágoa que parecia guardar da irmã. Senti uma súbita curiosidade em saber qual seria a longa história que Ana não poderia me contar naquele momento.
Já se aproximava da meia-noite e meia. Resolvi chamar Elisa para entrarmos antes que perdessem a hora. As regras no acampamento eram rígidas, e é trabalhada a nossa união, apesar de tudo. Precisamos entrar juntas no horário correto. Se alguém desobedecer ao horário, todas as outras também são punidas. A punição geralmente é fazer alguma tarefa relacionada à limpeza, como lavar a louça no refeitório após o almoço, dentre outros serviços, além de, em faltas mais graves, não poder participar das programações. Quando me aproximei das redondezas do lago, avistei Elisa e Beto juntos sentados na grama, eles estavam abraçados. O que me causou ciúmes, é claro, mas prometi a mim mesma que não deixaria me levar por essas sensações. Não sabia se deveria chamá-la e interrompê-los, eles pareciam muito entretidos. Esperei alguns minutos, até que eles se levantaram e começaram a andar em minha direção.
Precisamos entrar? – perguntou Elisa
Sim, e é melhor que Raquel e Charlotte já estejam lá dentro. – respondi.
Tudo bem. Tchau Beto, nos vemos amanhã.
Eles se despediram com um beijo rápido, o qual eu assisti impacientemente. Dei um último abraço no Beto e acenei a certa distância. No rápido percurso do lago até o chalé, ficamos quietas. Não sabia identificar o porquê daquele silêncio constrangedor, será que ela podia perceber que eu havia ficado com ciúmes? Impossível. Eu sempre soube disfarçar muito bem. Quando abrimos a porta do chalé, Raquel e Charlotte não estavam lá. Elisa olhou impaciente em seu relógio.
Droga, já são meia-noite e vinte e cinco, e nem vimos as duas perto do lago. - Elisa olhou através da janela na esperança de vê-las caminhando em direção ao chalé.
Não quero me prejudicar por causa delas. Precisamos procurá-las - Respondi depressa.
Acha que conseguimos achá-las e voltar para cá dentro de cinco minutos? –Elisa perguntou.
- Precisamos tentar. – respondi inquieta.
Andamos por toda a área dos chalés e do lago, mas não as encontramos. Decidimos então nos separar. Eu olharia o refeitório, e ela, a sala de jogos. Quando nos encontramos, ainda não havia qualquer sinal de Raquel e Charlotte. Não nos restava outra escolha senão procurá-las pela região da floresta. Entramos em um pequeno bosque próximo ao lago e começamos a gritá-las. Ouvimos sussurros de uma conversa um pouco distante, seguimos a direção dos sons, e depois de caminhar mais um pouco, finalmente as achamos. E lá estavam elas, com cigarros e bebidas, sentadas na grama, iluminando a escuridão do bosque com uma lanterna. A alguns metros também podíamos escutar gemidos de casais que se aproveitavam da escuridão daquela mata, para terem privacidade em seus encontros noturnos.
Meu Deus… aquela é Verônica. - Sussurrei para Elisa, enquanto reconhecia o cabelo avermelhado de uma das garotas que tinha o péssimo costume de só se envolver com rapazes comprometidos.
Quem é Verônica? - Elisa sussurrou de volta, enquanto agachava e me puxava para que ninguém nos visse.
É uma longa história, mas… - Respirei fundo pois estava ofegante após caminhada - Aquele menino que está com ela parece o Felipe, a namorada dele não veio porque está com pneumonia.
Safado. - respondeu Elisa, indignada. - Podíamos pregar uma peça neles, antes de chamarmos as meninas.
Que tipo de peça? - Sussurrei de volta, curiosa para ouvir suas ideias.
Vamos gravar e enviar para a Sra. Clarice. Meu celular tem ótima câmera e a luz do luar consegue clarear ainda mais. Mandamos anonimamente. Eles serão expulsos do acampamento e a pobre coitada da namorada vai descobrir tudo.
Fiquei atônita, perplexa com toda a ideia que ela havia projetado em poucos segundos. Em dúvida se colocá-la em prática seria o mais correto. No entanto, quando me lembrei de Catarina, internada com pneumonia, não pensei duas vezes.
Vamos. - Respondi para Elisa que, sem nem mesmo esperar a minha resposta, já posicionou a câmera do seu celular da forma mais apropriada.
Olhamos o vídeo que mostra claramente quem eram os dois. Nos entreolhamos com um olhar de cúmplices, parceiras de um crime perfeito, como duas justiceiras estrategistas. Naquele momento, me veio um daqueles lampejos: Elisa pode ser alguém muito legal. Nos levantamos rapidamente e fomos atrás das meninas.
Raquel fumava seu cigarro tranquilamente, como se não pretendesse sair dali tão cedo, e conversava com Charlotte sobre suas desilusões amorosas. Charlotte parecia ligeiramente alterada, trocando as pernas, enquanto andava tonta atrás de uma árvore para se escorar , com um copo na mão, talvez o seu décimo ou vigésimo. Jamais saberíamos. Elisa e eu observamos de longe, incrédulas. Nos entreolhamos por alguns segundos e decidimos intervir.
Sério… qual
o problema
de vocês? – perguntou Elisa com as mãos na cintura e olhando para ambas com muita fúria.
Raquel nos olhou assustada e Charlotte m*l conseguia levantar seu rosto para ver o que estava acontecendo.
Vocês sabem que temos horário para voltar. Se a Sra. Clarice averiguar o nosso chalé e vocês não estiveram lá, todas nós seremos punidas – falei tentando parecer brava o bastante para amedrontá-las.
E se isso acontecer, vocês terão um grave problema comigo. – ameaçou Elisa, com seus amendoados e gigantes, de onça selvagem.
Não sei se consigo voltar - disse Charlotte com dificuldade.
Vou te ajudar. Mas precisa nos prometer que não vai fazer barulho e chamar atenção até chegarmos ao chalé – disse eu me aproximando de Charlotte para ajudá-la a se levantar.
Elisa e eu carregamos Charlotte até o chalé, lhe passando sermões, aos sussurros, durante todo o caminho. Raquel ficou encarregada de sumir com os cigarros e as bebidas para não levantar suspeitas. Quando chegamos, Elisa se prontificou a dar um banho em Charlotte e colocá-la para dormir. Depois de mais algumas broncas, as duas se desculparam e adormeceram. Elisa e eu ficamos na varanda, exaustas.
Que sorte Clarice não ter nos pegado – disse Elisa, fitando Verônica e Felipe voltarem do matagal.
Sim, ela deve estar ocupada com os outros chalés. Obrigada por me ajudar com as meninas. - Comentei, lhe esboçando um sorriso que, pela primeira vez, era realmente sincero.
- Não precisa agradecer. Somos um grupo. – respondeu Elisa sorrindo para mim.
Retribuí o sorriso, e ficamos na varanda conversando por alguns minutos até que decidimos entrar para dormir . Ao me deitar, pensei nos últimos acontecimentos, talvez eu estivesse mesmo enganada sobre ela. Elisa agora já não me parecia aquela pessoa tão h******l como imaginei que fosse inicialmente. Talvez Ana fosse só exagerada demais. Acreditei que Elisa devia mesmo ser legal, afinal de contas, o Beto se apaixonou por ela, e ele sempre distingue muito bem pessoas boas de pessoas ruins.