O TESTE QUE MUDA TUDO

1607 Words
A noite no novo apartamento foi silenciosa demais. Assustadoramente silenciosa. Bela ficou sentada no sofá por longos minutos, observando as paredes limpas, o cheiro de lugar recém-preparado, e sentindo algo que não sentia há dias: uma pequena ponta de alívio. Mas o alívio vinha acompanhado de outra sensação, mais forte, mais profunda e impossível de ignorar. Responsabilidade. Medo. E o início inevitável de uma verdade: Ela estava grávida. E não era mais só ela no mundo. O celular estava desligado. A mala no canto. E o teste de gravidez dentro da mochila, como se ela não tivesse coragem de olhar diretamente para aquilo outra vez. Mas a realidade não tinha sumido. Ela colocou a mão na barriga — ainda lisa, ainda sem forma —, mas o gesto saiu natural, instintivo. Uma proteção que vinha do fundo de si, como se aquela vida, mesmo tão pequena, já exigisse cuidado. — Eu preciso ter certeza… — murmurou. Bela fechou os olhos. O primeiro teste fora positivo, mas dentro dela ainda existia uma esperança ridícula de que pudesse ser erro, confusão, ilusão. Ela sabia que não era. Mesmo assim, precisava encarar. De manhã, acordou antes do alarme. Não dormiu direito — cada barulho fazia ela pensar em Daniel, cada sombra fazia a respiração falhar. Mas o apartamento era seguro. Caio garantiu. E ela acreditou. Tomou banho, vestiu a mesma roupa do dia anterior, prendeu o cabelo, mas antes de sair fez algo que adiou por tempo demais: — Eu vou fazer outro — ela sussurrou, encarando o espelho. Pegou a bolsa, andou até a farmácia da esquina e comprou não um, mas dois novos testes. A atendente não fez perguntas — apenas olhou com uma empatia discreta que quase fez Bela chorar ali mesmo. De volta ao apartamento, fechou a porta e foi direto ao banheiro. O coração batia tão rápido que parecia um tambor. Fez o primeiro teste. Esperou. Trinta segundos. Um minuto. Dois. O resultado apareceu, nítido, c***l e verdadeiro: Positivo. O segundo teste deu o mesmo resultado em menos de um minuto. O ar sumiu dos pulmões dela. Ela se sentou no chão. — Eu… eu estou mesmo… — sussurrou, incapaz de terminar a frase. Era real. Era definitivo. E naquele instante, sem Caio, sem Daniel, sem interferência de ninguém, Bela permitiu que a verdade a atravessasse por inteiro: Ela ia ser mãe. De um jeito que nunca imaginou. No pior momento da vida. Mas também… no único momento em que, pela primeira vez, ela estava completamente livre. As lágrimas vieram — não de desespero, mas da intensidade de tudo o que sentia: medo, sim. Incerteza. Vulnerabilidade. Mas também uma pequena semente de amor. — Eu vou cuidar de você… — ela disse baixinho, a mão na barriga. — Mesmo que eu esteja quebrada. Mesmo que o mundo esteja bagunçado. Eu… vou cuidar. E então veio a pergunta inevitável: “Quando eu vou contar a Caio?” O nome dele fez o peito dela se contrair. Ele foi o único a defendê-la, o único a enfrentar Daniel, o único a colocar o corpo entre ela e o perigo. Mas contar agora? Hoje? No meio desse caos? A resposta veio do próprio medo: Ainda não. Não enquanto ela não soubesse como começar. O celular vibrou. Era Caio. A mensagem era simples, direta, exatamente como ele: “Estou aqui embaixo. Te espero.” Bela prendeu a respiração. Olhou os testes sobre a pia. Depois respirou fundo, guardou tudo na mochila e saiu. Quando desceu, Caio estava encostado no carro. Camisa social, mangas dobradas, expressão séria — mas relaxada o suficiente para não assustar. O olhar dele foi direto ao dela. — Você dormiu melhor? — perguntou. Bela hesitou. — Melhor… um pouco. Ele analisou o rosto dela por alguns segundos. Não precisava de muito para perceber que ela estava no limite. — Ainda está pálida — comentou, preocupado. — Quer que eu passe no hospital antes da empresa? Ela arregalou os olhos. — Não precisa! Eu só… acordei cedo demais. — Vai me dizer o que te tirou o sono? — Caio perguntou, abrindo a porta do passageiro. A pergunta bateu como um golpe, porque a resposta tinha nome, forma e agora… dois testes escondidos na mochila. — Nada importante — ela mentiu. Ele franziu o cenho, não acreditando. Mas respeitou. Por enquanto. No caminho até a empresa, Caio não tirou os olhos da rua — mas o clima dentro do carro era denso demais. Bela se remexia no banco como se o corpo denunciasse cada pensamento. — Ele não mandou mais nada? — Caio perguntou, sem rodeios. — Não — ela respondeu, rápida demais. Ele percebeu. — Bela… — Eu bloqueei todos os números. — Não significa que ele vai parar — Caio disse, o maxilar tenso. — Se ele vier atrás de você de novo… Ela interrompeu: — Eu tenho você, Caio. — Tem — ele respondeu, sem hesitar. — E sempre vai ter. A escolha das palavras dele a atingiu como uma explosão silenciosa. Sempre. Sempre vai ter. Bela virou o rosto para a janela, porque se continuasse olhando para ele, choraria. No escritório, o dia passou rápido demais. Caio aparecia de tempos em tempos, não disfarçando nada: ele estava ali por ela. Para garantir. Para vigiar. Para proteger. As colegas até começaram a cochichar — mas Bela não se importava. Pela primeira vez desde a traição, ela se sentia segura. Porém, à tarde, algo mudou. Por volta das três, o enjoo voltou — forte. Violento. Do tipo que não dava aviso. Ela correu para o banheiro, deixou a porta bater e segurou o vaso sanitário enquanto vomitava o que tinha e o que não tinha no estômago. A dor apertou a barriga. O medo subiu. A mão dela foi automaticamente para o baixo ventre. “Pelo amor de Deus… não agora.” Uma batida forte na porta. — Bela? — era Caio. — Abre. Ela trancou os olhos, sem forças para responder. — Bela! — a voz dele veio carregada de pânico. — Abre a porta! O corpo dela tremia. Ela conseguiu dizer: — Eu estou… bem… Não estava. Caio não esperou. Em menos de vinte segundos, chamou alguém da manutenção. Outro funcionário veio com ferramentas. Três minutos depois, a porta foi destrancada por fora. Bela estava no chão, apoiada contra a parede, pálida como papel. Caio se ajoelhou na mesma hora. — c*****o, Bela… — ele segurou o rosto dela entre as mãos. — Que p***a aconteceu? Ela tentou sorrir, mas não conseguiu. — Só um m*l-estar… — Isso não é “só”. — Ele tocou a testa dela. — Você vai para o hospital agora. Ela negou com a cabeça. — Eu não preciso… — Precisa sim. E eu não vou discutir isso com você. Ele a levantou com cuidado — quase no colo —, ignorando as pessoas que observavam no corredor. — Caio… — ela murmurou, constrangida. — Shh — ele sussurrou. — Fica comigo. No carro, o silêncio era absoluto. No trajeto, o olhar dele ia da estrada para ela, da estrada para ela — como se temesse que ela apagasse a qualquer segundo. Quando chegaram ao hospital, ele saiu primeiro, abriu a porta para ela e praticamente exigiu atendimento imediato. Não com gritos. Mas com autoridade suficiente para que ninguém ousasse questioná-lo. — Qual é o nome dela? — a enfermeira perguntou. Bela abriu a boca. Mas Caio respondeu antes: — Bela Alencar. — Grau de parentesco? — Eu sou… — Caio hesitou meio segundo. — Acompanhante. Responsável por ela agora. A enfermeira anotou. E Caio segurou a mão dela. Um gesto simples. Mas que fez o coração dela acelerar. A médica chegou rápido. — O que está acontecendo? — perguntou, avaliando Bela. Ela tentou responder, mas as palavras estavam presas. Caio colocou a mão no ombro dela e tomou a frente: — Vomitou várias vezes. Ficou pálida, tonta, quase desmaiou. Ela não está bem há dias. Quero exames completos. Bela o encarou, surpresa. — Eu posso falar — ela sussurrou. — Pode. Mas não precisa carregar tudo sozinha — ele respondeu, firme. A médica pediu exames de sangue, pressão, glicemia — padrão. Mas também pediu um ultrassom. Bela prendeu a respiração. — É só para garantir que está tudo certo — a médica explicou. — Você tem algum atraso menstrual? O mundo parou. Bela ficou branca. Caio também. O olhar dele virou lentamente para ela. Era agora. Era inevitável. Era o momento que ela fugiu o máximo que pôde — mas que finalmente a alcançava. Bela respirou fundo. E com a voz mais frágil que já usou na vida, respondeu: — Tenho… sim. A médica assentiu. — Quando foi sua última menstruação? A garganta de Bela fechou. — Há… quase dois meses. Caio fechou os olhos por um instante. Um segundo apenas. Mas foi suficiente para que o peito dele explodisse por dentro. Quando abriu, olhava para ela não com raiva — mas com impacto profundo. — Bela… — ele chamou, baixo. Ela não conseguiu olhar. — Você está grávida? — Caio perguntou, a voz grave, cheia de emoções contidas. Ela fechou os olhos. E a resposta saiu como um fio quebrado: — Estou. O ar entre eles ficou pesado. Forte. Sagrado. A médica sorriu de leve, acostumada a confissões assim. — Vamos confirmar tudo direitinho no ultrassom. Mas Caio não ouviu nada do que ela disse depois. Os olhos dele estavam presos em Bela. E ela finalmente entendeu: Não era o bebê que assustava Caio. Era o fato de ela ter passado por tudo isso sozinha. E de ele não estar ali. —
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