Bela acordou no segundo dia como se tivesse levado uma surra emocional. O quarto simples da pousada não tinha nada dela, mas a lembrava o suficiente de que não tinha mais para onde voltar. A mala no canto parecia menor do que sua coragem — e maior do que seus medos.
Ela passou a mão no rosto, respirou fundo e encarou de novo o teste de gravidez sobre a mesa. Aquelas duas linhas a perseguiam como um destino que ela não pediu.
“Grávida.”
A palavra vinha em ondas, às vezes leve, às vezes brutal.
Mas sempre verdadeira.
Ela não tinha forças para chorar de novo.
Nem tempo para desmoronar.
Precisava agir.
Levantou, tomou banho rápido, prendeu o cabelo e vestiu a roupa mais apresentável que conseguiu colocar na mala. A cidade era nova, estranha, mas também era sua única chance de sobreviver. O dinheiro que tinha não duraria muito. Trabalhar era urgente.
Antes mesmo de sair do quarto, o celular vibrou.
Mensagens de Daniel.
“Onde você está?”
“Isso não pode ficar assim.”
“Você deve ouvir minha versão.”
Versão?
Bela riu sozinha.
A versão dele estava nua na cama, gemendo num ritmo que ainda ecoava na cabeça dela.
Apagou tudo.
Bloqueou o número.
E jogou o celular dentro da bolsa, como se esconder o aparelho fosse suficiente para esconder o passado.
Saiu da pousada decidida.
Mesmo sem saber exatamente para onde ir.
Andou pelas ruas movimentadas tentando se misturar ao ritmo da cidade. Vitrines, pessoas apressadas, carros buzinando. Mas nada realmente alcançava a mente dela. Tudo ali parecia ver distante demais para tocar sua realidade.
Seu estômago embrulhou.
Era o bebê ou a ansiedade — talvez os dois.
Enquanto procurava por placas de “contrata-se”, o enjoo aumentou. Ela parou na calçada e respirou fundo, segurando um poste.
— Ei, você está bem? — uma voz masculina perguntou atrás dela.
Bela virou, surpresa.
Um homem na casa dos quarenta, terno claro, expressão preocupada.
Ela assentiu rápido.
— Só… tontura. Já passa.
Ele ofereceu uma garrafinha d’água.
Ela recusou com um gesto gentil. Mesmo assim, o homem insistiu:
— Você está pálida.
— Hoje não é meu melhor dia — disse, tentando evitar qualquer conversa prolongada.
Assim que ele se afastou, Bela continuou sua busca. Entrou em cafés, lojas, pequenas empresas familiares. Ninguém estava contratando. Ou se estavam, não queriam alguém recém-chegada, sem referência, com olheiras profundas e mãos trêmulas.
O desespero começou a rasgar o pouco de confiança que restava.
No décimo “não”, ela saiu da loja quase tropeçando.
“Eu não posso voltar. Eu não posso cair.”
O mantra se repetia na cabeça dela.
Foi então que viu um prédio grande no fim da avenida. Moderno, imponente, com vidro refletindo a cidade.
Bismarque Corp.
Ela conhecia o nome.
O pai de Bela sempre falava sobre essa empresa quando era viva. A família Bismarque era respeitada, poderosa, influente. Eram parceiros antigos dos negócios do pai dela.
E Caio Bismarque…
Ela se lembrou vagamente dele.
O filho mais velho.
Discreto.
Quase invisível em festas — mas sempre presente, sempre educado, sempre quieto demais.
Algumas pessoas chamavam de arrogância.
O pai dela chamava de foco.
“Caio é diferente, Bela. Ele enxerga além.”
Ela não via Caio desde os 18 anos.
E duvidava que ele lembrasse dela.
Mas a empresa…
Era sua única chance.
Entrou no prédio sentindo o coração bater no pescoço. A recepcionista levantou o olhar imediatamente.
— Bom dia. Em que posso ajudar?
— Eu… estou procurando uma vaga. Qualquer uma. Recepção, auxiliar, atendimento… o que tiver disponível.
A recepcionista arqueou uma sobrancelha.
Bela percebeu — não era o tipo de lugar que contratava pessoas “batendo à porta”.
— Você trouxe currículo?
— Não. Cheguei… ontem — ela respondeu, com vergonha.
A mulher piscou devagar.
— Sinto muito, senhorita. Sem currículo, sem entrevista marcada…
Antes que terminasse a frase, uma porta de vidro ao lado da recepção se abriu.
E ele saiu.
Caio Bismarque.
Elegante, impecável, terno preto, a postura de quem nunca precisou levantar a voz para ser ouvido. O tipo de homem que parecia carregar uma sombra própria — não de arrogância, mas de intensidade.
Os olhos dele encontraram os de Bela.
E por um segundo que ela não esperava, Caio parou.
Reconheceu.
O mundo dela girou um pouco.
Não pelo impacto dele — mas pelo susto.
Ele se aproximou, devagar.
— Bela? — a voz grave, controlada.
Ela engoliu seco.
— Caio…
A recepcionista ficou sem reação.
O ar pareceu ficar pesado.
O olhar dele era firme, atento, quase desconfortável de tão direto.
— Eu achei que nunca mais veria você — Caio disse, sem disfarçar o choque suave.
— Eu também — ela respondeu, baixinho.
A recepcionista percebeu que havia algo ali.
— Senhor Bismarque, eu posso…
Caio levantou a mão, sem olhar para ela.
— Tá tudo bem.
Os olhos dele voltaram para Bela.
E ele reparou no tremor discreto nos dedos dela.
— Você está procurando emprego? — Caio perguntou, simples, sem rodeios.
Ela arregalou os olhos.
— Ah… sim. Qualquer coisa serve. Eu só preciso…
Parou antes de terminar.
Não queria parecer desesperada.
Mesmo estando.
Caio analisou. Não o corpo dela — mas o estado. A expressão. A pressa. A urgência.
E fez algo inesperado:
— Venha comigo.
A recepcionista engoliu seco.
— Senhor, mas ela não está agendada…
— Eu assumo — Caio respondeu.
Bela ficou imóvel por um instante.
Então o seguiu.
O coração batia rápido.
Pelos motivos errados — e alguns totalmente desconhecidos.
O escritório dele era amplo, mas não intimidador. Caio fechou a porta atrás deles e indicou a cadeira em frente à mesa.
— Senta, Bela.
Ela sentou, tentando controlar as mãos.
— Você sumiu — Caio disse, andando até o outro lado da mesa.
A frase, por mais simples que fosse, carregava muitas camadas.
— A vida mudou — ela respondeu, firme o suficiente para não desabar.
Caio sentou, entrelaçou os dedos e analisou cada detalhe dela, sem pressa. Um olhar que parecia ler mais do que ela dizia. Sempre foi assim. Um homem que enxergava o que outros ignoravam.
— Por que veio para cá? — ele perguntou.
Ela abriu a boca para inventar algo.
Mas no fim, disse a verdade nua, crua:
— Eu não tinha mais onde ficar.
Caio não desviou o olhar.
— E o casamento?
A pergunta acertou como uma flecha.
Bela respirou fundo.
— Acabou.
Caio percebeu a dor por trás da resposta curta.
— Ele fez alguma coisa com você? — o tom dele baixou, carregando um peso novo.
Ela riu sem humor.
— Ele fez… alguém.
Os olhos de Caio escureceram.
Ele entendeu.
Completamente.
— Você merece muito mais do que isso — Caio disse, seco, firme, como se constatasse um fato e não desse opinião.
Bela desviou o olhar.
Se recebesse gentileza demais, quebraria na frente dele.
— Você precisa de um emprego — ele retomou, voltando ao ponto.
— Sim… eu realmente preciso.
Caio digitou algo no computador.
Olhou para ela.
Olhou de novo a tela.
— Eu posso te encaixar como assistente administrativa. É um setor novo, ainda estamos montando a equipe.
Bela engoliu seco.
— Eu… eu aceito. Qualquer coisa.
— Não é qualquer coisa — Caio corrigiu. — E você vai receber bem.
Ela piscou, confusa.
— Caio… você não precisa…
— Eu sei o que eu faço — ele cortou.
A intensidade dele a atingiu como um soco emocional.
— Começa amanhã — continuou.
Bela arregalou os olhos.
— Amanha?
— Sim. Você tem onde ficar?
— Tenho… um quarto. Nada demais, mas…
— Vou mandar o carro da empresa te buscar — Caio disse.
Ela levantou a mão, alarmada:
— Não precisa! Eu posso vir sozinha!
— Eu quero garantir que você chegue segura.
A palavra “segura” fez algo dentro dela estremecer.
Segurança.
Algo que ela não sentia fazia muito tempo.
— Caio… — ela tentou argumentar.
— Bela — ele a interrompeu, olhando fundo nos olhos dela — eu não vou deixar você enfrentar nada disso sozinha.
A forma como ele disse aquilo fez o ar dentro da sala mudar.
Pesou.
Esquentou.
Tocou.
Bela ficou sem resposta.
E foi exatamente nesse momento — nesse silêncio cheio demais — que Caio fez a pergunta que ela temia:
— Tem algo que você não está me contando?
O coração dela congelou.
O bebê.
A gravidez.
A verdade que ia explodir tudo.
Ela abriu a boca, mas a voz não saiu.
As mãos tremeram.
O estômago revirou.
Um suor frio desceu pela nuca.
— Bela? — Caio se inclinou, preocupado.
Ela fechou os olhos.
E mentiu:
— Não… não tem nada.
Caio ficou em silêncio, analisando.
Não acreditou totalmente, mas respeitou.
— Então está decidido — ele disse, levantando. — Amanhã às oito. Eu vou te ajudar, Bela. O que você precisar.
E pela primeira vez desde que fugiu, ela sentiu algo mínimo, frágil, quase imperceptível dentro de si:
Esperança.
Mas também algo que a assustava:
Caio não sabia que ela trazia muito mais do que uma nova vida.
Ela trazia um problema.
Uma ligação com o passado.
Uma sombra que não ia embora.
Um bebê.
E o homem à sua frente — tão seguro, tão firme, tão presente — não tinha ideia de como aquela verdade iria atravessar sua vida.
Quando saiu da empresa, o celular vibrou novamente.
Uma nova mensagem.
De um número desconhecido.
Mas ela reconheceu a escrita.
“Eu achei você.”
Daniel.
O sangue de Bela gelou.
A paz que Caio ofereceu naquela sala evaporou imediatamente.
A guerra nem tinha começado — e já estava batendo à porta dela.