Bela saiu da sala de Caio com as pernas tremendo. Não sabia se era o medo de Daniel ou a maneira como Caio havia atendido o telefone — firme, frio, protetor de um jeito que ela nunca experimentou antes.
No meio do corredor, ela precisou encostar na parede para respirar.
Aquilo não era apenas proteção.
Era pessoal.
Demais.
Marina, a colega, passou por ela e parou.
— Ei… você está pálida de novo. Quer que eu te leve na enfermaria?
— Não, não… só estou sobrecarregada — Bela murmurou.
Marina observou com desconfiança, mas não pressionou.
Enquanto tentava se recompor, o celular vibrou.
Ela gelou.
Mas era apenas uma notificação do banco.
Ainda assim, o pânico ficou preso na garganta.
Ela voltou ao trabalho, mas não rendeu nada. Tudo parecia barulho. Uma confusão de teclas, vozes, tarefas. O pensamento dela estava em outro lugar — preso entre o passado que sangrava e o presente que começava a pulsar forte demais.
E Caio…
Caio era o centro desse presente.
A forma como ele segurou o celular.
O tom de ameaça velada.
O olhar que prometia guerra.
Ninguém nunca fez isso por ela.
Ninguém nunca a protegeu assim.
O sentimento era estranho, perigoso e… quente.
Mas ela não podia se permitir sentir nada.
Não agora.
Não com um bebê crescendo dentro dela.
E não com Daniel à solta.
Quando o expediente acabou, Bela já estava exausta emocionalmente. Desceu para o térreo com a bolsa apertada contra o corpo. Não queria chamar atenção, mas Caio tinha ordenado que o motorista a levasse de volta.
E Caio não parecia um homem que aceitava “não”.
O carro já estava parado na porta.
O motorista abriu a porta traseira, mas antes que Bela entrasse, uma voz surgiu atrás dela.
— Achei você.
O sangue dela congelou.
Ela virou devagar.
Daniel estava ali.
De terno.
Perfume forte.
Olhar doente.
Exatamente como da última vez que ela o viu — menos o nojo óbvio na expressão dele, que parecia mascarado por um sorriso perigoso.
— Bela… amor, você sumiu — ele disse, como se descrevesse uma brincadeira.
Bela recuou um passo.
— Daniel, vai embora.
— Eu não vim brigar. Vim buscar você.
As mãos dela tremiam.
O motorista observava de longe, tenso, mas sem interferir.
— Eu não volto com você — ela respondeu, firme, mesmo que o corpo inteiro estivesse prestes a despencar.
Daniel riu.
Riu como se ela fosse ingênua, infantil, insignificante.
— Você está confusa. A gente vai conversar. Eu perdoo a sua fuga, tá?
Ela o encarou, sem acreditar.
— Perdoa?
— Claro. Você estava nervosa. Mulherezinhas são emocionais mesmo. Você é doce, mas impulsiva. Vem comigo.
Ele tentou pegar o braço dela.
Mas antes que tocasse, uma mão segurou a dela e a puxou para trás.
Caio.
Ele surgiu como um golpe de vento — silencioso, firme, inevitável.
— Afasta a mão — Caio disse, firme, frio como gelo.
Daniel arregalou os olhos. Depois riu.
— E quem é você? O novo brinquedo dela?
Caio não se abalou.
— Sou o homem que não vai deixar você chegar perto dela de novo.
Daniel deu um passo à frente, o sorriso morrendo.
— Bela é minha noiva.
— Ela é sua ex-noiva — Caio corrigiu, sem elevar a voz. — E você traiu essa mulher de todas as formas possíveis. O contrato acabou.
Daniel olhou para Bela como se ela fosse uma propriedade danificada.
— Você contou para ele? — perguntou, a voz mais dura, mais suja.
Ela não respondeu.
O silêncio foi resposta suficiente.
Daniel apertou os olhos, um brilho de fúria aparecendo.
— Você está me desrespeitando, Bela.
Caio se colocou na frente dela.
— A próxima palavra tua, cuida — Caio avisou, baixo.
O tom dele fez até o motorista estremecer.
— Isso não é da sua conta! — Daniel explodiu.
— Agora é — Caio respondeu.
Daniel olhou os dois com ódio. Um ódio que vinha de um homem acostumado a controlar, a manipular, a possuir.
— Bela, entra no carro comigo. A gente conversa como adultos.
— Eu não vou com você — ela disse, firme.
Daniel inclinou a cabeça.
— Você não está pensando direito. Você está… frágil. Sensível. Nós dois sabemos o motivo.
O estômago dela se virou.
Ele sabia da gravidez.
Caio percebeu a reação de Bela instantaneamente.
— O que você está insinuando? — Caio perguntou, agora com perigo explícito na voz.
Daniel sorriu torto.
— Acho que você não precisa se meter onde não é chamado. Essa criança é minha. E Bela vai voltar para casa.
A palavra “criança” fez Caio virar para Bela com um choque silencioso. Ela segurou a respiração. Um impulso de dor atravessou o peito.
Daniel sorriu ao ver a reação dos dois.
— Eu sempre soube que você era facilmente influenciável, Bela. Mas engravidar assim? — riu — Você me deve respeito. É o mínimo.
Caio deu um passo à frente.
E a voz dele veio baixa, firme, mortal:
— Abre a boca mais uma vez assim com ela e eu faço você engolir cada palavra.
Daniel recuou meio passo, surpreso com a intensidade dele.
— Você está ameaçando?
— Não. — Caio disse. — Eu estou prometendo.
O silêncio que veio foi cortante.
Bela nunca viu dois homens tão diferentes se enfrentarem.
Daniel com raiva, ego e controle.
Caio com firmeza, honra e uma calma perigosa.
— Ela entra comigo — Daniel insistiu, seguro de que ela cederia.
Mas Bela deu um passo para trás, se afastando dele.
— Eu não volto — ela disse, firme, clara, sem tremor. — Nunca mais. Acabou, Daniel. Acabou tudo.
Daniel encarou por alguns segundos.
O rosto dele, antes arrogante, mudou. Algo quebrou.
Perigo.
Raiva profunda.
Aquela que ela conhecia tão bem.
Ele se aproximou num ímpeto, mas Caio colocou a mão no peito dele e o impediu.
— Você não toca nela — Caio afirmou.
— Ela é minha família!
— Você traiu a família que poderia ter.
Daniel bufou, perdido entre ódio e incredulidade.
— Você não sabe com quem está mexendo.
— Sei exatamente — Caio cortou. — Um covarde que só é homem quando ninguém está vendo.
Daniel estremeceu.
O orgulho dele sangrou.
— Bela… você está cometendo o maior erro da sua vida.
— Já cometi — ela respondeu. — E foi você.
Por um segundo, Daniel ficou sem fala.
Depois o ódio tomou conta.
— Você vai se arrepender. Os dois vão.
— Some daqui — Caio ordenou, dando meio passo à frente. — Enquanto eu ainda estou controlado.
Daniel encarou Caio por longos segundos.
Medindo.
Avaliando.
Temendo.
E por fim, recuou.
Entrou no carro dele, bateu a porta com força e saiu cantando pneu.
Bela desabou no mesmo instante em que o carro desapareceu da vista.
As pernas cederam.
A respiração falhou.
Caio segurou ela pelos braços antes que caísse.
— Está tudo bem. — A voz dele veio mais suave agora, quase um abrigo. — Tá tudo bem, Bela. Eu tô aqui.
Ela levou as mãos ao rosto, tentando conter as lágrimas, mas elas saíram mesmo assim — não de tristeza apenas, mas de alívio, medo e cansaço acumulado.
— Eu… eu achei que ele fosse me bater… — ela sussurrou.
Caio fechou os olhos devagar.
Como se estivesse segurando um impulso.
— Enquanto eu respirar, ele jamais encosta em você — disse, firme, definitivo.
Bela ergueu o rosto, os olhos avermelhados.
— Caio… a gravidez… eu…
Ele encostou a mão na dela, evitando que ela continuasse.
— Você não precisa dizer nada agora.
Mas o olhar dele não desviou da barriga dela.
Nem um segundo.
Ele já sabia.
Não havia mais como esconder.
— Bela — ele disse, com uma seriedade que tocou o fundo do peito dela — isso muda tudo.
— Eu sei… — ela respondeu, chorando mais.
Caio tocou o ombro dela.
— Você não está sozinha.
— Eu estou com medo…
— Eu sei.
— Ele não vai parar, Caio.
— Então eu também não vou parar.
Ela fechou os olhos.
E ali, naquele estacionamento, com o fim da sua antiga vida sangrando aos pés, Bela percebeu algo:
O medo que Daniel representava era real.
Mas a força que Caio trazia… também era.
E no meio dessa guerra, o bebê dentro dela não era mais um peso.
Era a razão de lutar.
E Caio…
Caio estava começando a lutar junto.