O ADEUS QUE SANGRA

1407 Words
Bela saiu da sala de Caio com as pernas tremendo. Não sabia se era o medo de Daniel ou a maneira como Caio havia atendido o telefone — firme, frio, protetor de um jeito que ela nunca experimentou antes. No meio do corredor, ela precisou encostar na parede para respirar. Aquilo não era apenas proteção. Era pessoal. Demais. Marina, a colega, passou por ela e parou. — Ei… você está pálida de novo. Quer que eu te leve na enfermaria? — Não, não… só estou sobrecarregada — Bela murmurou. Marina observou com desconfiança, mas não pressionou. Enquanto tentava se recompor, o celular vibrou. Ela gelou. Mas era apenas uma notificação do banco. Ainda assim, o pânico ficou preso na garganta. Ela voltou ao trabalho, mas não rendeu nada. Tudo parecia barulho. Uma confusão de teclas, vozes, tarefas. O pensamento dela estava em outro lugar — preso entre o passado que sangrava e o presente que começava a pulsar forte demais. E Caio… Caio era o centro desse presente. A forma como ele segurou o celular. O tom de ameaça velada. O olhar que prometia guerra. Ninguém nunca fez isso por ela. Ninguém nunca a protegeu assim. O sentimento era estranho, perigoso e… quente. Mas ela não podia se permitir sentir nada. Não agora. Não com um bebê crescendo dentro dela. E não com Daniel à solta. Quando o expediente acabou, Bela já estava exausta emocionalmente. Desceu para o térreo com a bolsa apertada contra o corpo. Não queria chamar atenção, mas Caio tinha ordenado que o motorista a levasse de volta. E Caio não parecia um homem que aceitava “não”. O carro já estava parado na porta. O motorista abriu a porta traseira, mas antes que Bela entrasse, uma voz surgiu atrás dela. — Achei você. O sangue dela congelou. Ela virou devagar. Daniel estava ali. De terno. Perfume forte. Olhar doente. Exatamente como da última vez que ela o viu — menos o nojo óbvio na expressão dele, que parecia mascarado por um sorriso perigoso. — Bela… amor, você sumiu — ele disse, como se descrevesse uma brincadeira. Bela recuou um passo. — Daniel, vai embora. — Eu não vim brigar. Vim buscar você. As mãos dela tremiam. O motorista observava de longe, tenso, mas sem interferir. — Eu não volto com você — ela respondeu, firme, mesmo que o corpo inteiro estivesse prestes a despencar. Daniel riu. Riu como se ela fosse ingênua, infantil, insignificante. — Você está confusa. A gente vai conversar. Eu perdoo a sua fuga, tá? Ela o encarou, sem acreditar. — Perdoa? — Claro. Você estava nervosa. Mulherezinhas são emocionais mesmo. Você é doce, mas impulsiva. Vem comigo. Ele tentou pegar o braço dela. Mas antes que tocasse, uma mão segurou a dela e a puxou para trás. Caio. Ele surgiu como um golpe de vento — silencioso, firme, inevitável. — Afasta a mão — Caio disse, firme, frio como gelo. Daniel arregalou os olhos. Depois riu. — E quem é você? O novo brinquedo dela? Caio não se abalou. — Sou o homem que não vai deixar você chegar perto dela de novo. Daniel deu um passo à frente, o sorriso morrendo. — Bela é minha noiva. — Ela é sua ex-noiva — Caio corrigiu, sem elevar a voz. — E você traiu essa mulher de todas as formas possíveis. O contrato acabou. Daniel olhou para Bela como se ela fosse uma propriedade danificada. — Você contou para ele? — perguntou, a voz mais dura, mais suja. Ela não respondeu. O silêncio foi resposta suficiente. Daniel apertou os olhos, um brilho de fúria aparecendo. — Você está me desrespeitando, Bela. Caio se colocou na frente dela. — A próxima palavra tua, cuida — Caio avisou, baixo. O tom dele fez até o motorista estremecer. — Isso não é da sua conta! — Daniel explodiu. — Agora é — Caio respondeu. Daniel olhou os dois com ódio. Um ódio que vinha de um homem acostumado a controlar, a manipular, a possuir. — Bela, entra no carro comigo. A gente conversa como adultos. — Eu não vou com você — ela disse, firme. Daniel inclinou a cabeça. — Você não está pensando direito. Você está… frágil. Sensível. Nós dois sabemos o motivo. O estômago dela se virou. Ele sabia da gravidez. Caio percebeu a reação de Bela instantaneamente. — O que você está insinuando? — Caio perguntou, agora com perigo explícito na voz. Daniel sorriu torto. — Acho que você não precisa se meter onde não é chamado. Essa criança é minha. E Bela vai voltar para casa. A palavra “criança” fez Caio virar para Bela com um choque silencioso. Ela segurou a respiração. Um impulso de dor atravessou o peito. Daniel sorriu ao ver a reação dos dois. — Eu sempre soube que você era facilmente influenciável, Bela. Mas engravidar assim? — riu — Você me deve respeito. É o mínimo. Caio deu um passo à frente. E a voz dele veio baixa, firme, mortal: — Abre a boca mais uma vez assim com ela e eu faço você engolir cada palavra. Daniel recuou meio passo, surpreso com a intensidade dele. — Você está ameaçando? — Não. — Caio disse. — Eu estou prometendo. O silêncio que veio foi cortante. Bela nunca viu dois homens tão diferentes se enfrentarem. Daniel com raiva, ego e controle. Caio com firmeza, honra e uma calma perigosa. — Ela entra comigo — Daniel insistiu, seguro de que ela cederia. Mas Bela deu um passo para trás, se afastando dele. — Eu não volto — ela disse, firme, clara, sem tremor. — Nunca mais. Acabou, Daniel. Acabou tudo. Daniel encarou por alguns segundos. O rosto dele, antes arrogante, mudou. Algo quebrou. Perigo. Raiva profunda. Aquela que ela conhecia tão bem. Ele se aproximou num ímpeto, mas Caio colocou a mão no peito dele e o impediu. — Você não toca nela — Caio afirmou. — Ela é minha família! — Você traiu a família que poderia ter. Daniel bufou, perdido entre ódio e incredulidade. — Você não sabe com quem está mexendo. — Sei exatamente — Caio cortou. — Um covarde que só é homem quando ninguém está vendo. Daniel estremeceu. O orgulho dele sangrou. — Bela… você está cometendo o maior erro da sua vida. — Já cometi — ela respondeu. — E foi você. Por um segundo, Daniel ficou sem fala. Depois o ódio tomou conta. — Você vai se arrepender. Os dois vão. — Some daqui — Caio ordenou, dando meio passo à frente. — Enquanto eu ainda estou controlado. Daniel encarou Caio por longos segundos. Medindo. Avaliando. Temendo. E por fim, recuou. Entrou no carro dele, bateu a porta com força e saiu cantando pneu. Bela desabou no mesmo instante em que o carro desapareceu da vista. As pernas cederam. A respiração falhou. Caio segurou ela pelos braços antes que caísse. — Está tudo bem. — A voz dele veio mais suave agora, quase um abrigo. — Tá tudo bem, Bela. Eu tô aqui. Ela levou as mãos ao rosto, tentando conter as lágrimas, mas elas saíram mesmo assim — não de tristeza apenas, mas de alívio, medo e cansaço acumulado. — Eu… eu achei que ele fosse me bater… — ela sussurrou. Caio fechou os olhos devagar. Como se estivesse segurando um impulso. — Enquanto eu respirar, ele jamais encosta em você — disse, firme, definitivo. Bela ergueu o rosto, os olhos avermelhados. — Caio… a gravidez… eu… Ele encostou a mão na dela, evitando que ela continuasse. — Você não precisa dizer nada agora. Mas o olhar dele não desviou da barriga dela. Nem um segundo. Ele já sabia. Não havia mais como esconder. — Bela — ele disse, com uma seriedade que tocou o fundo do peito dela — isso muda tudo. — Eu sei… — ela respondeu, chorando mais. Caio tocou o ombro dela. — Você não está sozinha. — Eu estou com medo… — Eu sei. — Ele não vai parar, Caio. — Então eu também não vou parar. Ela fechou os olhos. E ali, naquele estacionamento, com o fim da sua antiga vida sangrando aos pés, Bela percebeu algo: O medo que Daniel representava era real. Mas a força que Caio trazia… também era.  E no meio dessa guerra, o bebê dentro dela não era mais um peso. Era a razão de lutar. E Caio… Caio estava começando a lutar junto.
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