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1654 Words
HELENA Hoje era o dia mais especial do mundo pra mim. Miguel, meu filho, minha vida, fazia cinco aninhos. Cinco anos de amor, de aprendizado, de superação. Ele foi meu renascimento. Desde o dia em que ele chegou ao mundo — no meio do caos, entre tiros, medo e desespero — eu entendi o real significado da palavra força. Foram anos difíceis, mas também os mais lindos da minha vida. Depois que o Miguel nasceu, eu decidi mudar tudo. Me mudei da favela, fui morar num cantinho simples, mas seguro. Trabalhei como manicure, depois comecei a vender doces e hoje tenho uma pequena doceria que é meu orgulho. Eu fiz tudo isso por ele, por mim… e pelo Luan, que mesmo não estando mais aqui, sempre foi minha motivação silenciosa. Criar o Miguel sem o pai foi dolorido, não vou mentir. Tinha dias em que eu chorava escondida, depois que ele dormia. Mas ele sempre foi tão esperto, tão amoroso… me abraçava do nada, dizia que me amava, me fazia rir mesmo quando eu só queria me esconder do mundo. Hoje, cinco anos depois, ele é esse menino cheio de energia, educado, carinhoso, e com os olhos do pai. Quando ele sorri, juro que vejo o Luan ali… e isso ainda aperta meu peito, mas também me dá paz. E hoje a casa tava cheia! As meninas me ajudando a arrumar tudo pra festa. Balões por todo lado, cheiro de pipoca, brigadeiro, música tocando baixinho, e o Benício correndo de um lado pro outro como se fosse o dono do mundo. Jas: — Acho que vou morrer! – ela se jogou no sofá, suando. – Nunca mais me ofereço pra ajudar ninguém, tô desidratada só de soprar esses balões. Kay: — Nem me fale, tô acabada! – passou a mão na testa. – Lena, eu nem sei pra que tu quer esse tanto de balão, parece que o menino vai casar. Helena: — Vocês são muito dramáticas, pelo amor de Deus. – sentei no sofá, rindo. – Hoje é um dia especial, quero que ele lembre com carinho no futuro. Jas: — Lembrar? Mana, ele vai lembrar é dos brigadeiros. Os balões? Vão durar cinco minutos, e olhe lá. – reclamou, jogando uma almofada pra cima. Helena: — Cala a boca, Jasmin! – joguei outra almofada nela. – Festa de criança, queria o quê? Vela aromática e música ambiente? Kay: — É por isso que eu não quero ter filho, gente. – suspirou. – m*l consigo cuidar de mim, imagina de uma criança que escala móvel de vidro como se fosse o Tarzan... Helena: — Miguel, já falei pra não subir aí! – gritei firme. – Desce AGORA da mesa! Ele desceu com aquela carinha sapeca, sabendo que tava errado. Logo depois voltou com o avião que o avô Fafa deu pra ele, todo animado. Miguel: — Dinda, olha o que o vovô Digão me deu! — se jogou no colo da Kaylane. Kay: — Tô vendo, é lindo! – sorriu. – Eu tenho uma coisa pra contar pra vocês... Jas: — Eita! Lá vem bomba! Helena: — Jasmin, se controla, deixa a mulher falar. Kay: — Eu tô grávida... Silêncio. Eu e Jasmin piscamos umas três vezes antes de entender. O Miguel ainda respondeu antes da gente: Miguel: — Dinda, a senhora falou muito rápido! Kay: — É isso mesmo, amor da minha vida. Tu vai ganhar um priminho! Miguel: — Uhuul! – me abraçou. – Mamãe, vou ganhar um primo pra brincar comigo! Jas: — Me amarrota que eu tô passada! Helena: — Quando foi isso, mulher?! — ainda meio atônita. Kay: — Descobri há dois meses. Jas: — DOIS MESES? Tu escondeu tudo isso da gente? Petra já sabe? Kay: — Ainda não. Vocês são as primeiras a saber. Vou contar pra ele hoje, no final da festa. Tô planejando uma surpresa. Jas: — Ai, que romântica! Pode contar com a gente, né Lena? Eu assenti, sorrindo, com o coração aquecido. A gente se abraçou, riu, e continuamos o plano maluco da Kaylane pra anunciar a gravidez pro Petra. Enquanto isso, Miguel corria com o avião pela casa, fazendo barulho de motor com a boca. Olhei pra ele e pensei: eu sobrevivi a tudo isso, por ele. E agora, com um novo bebê vindo aí… era como se a vida estivesse dizendo: “você conseguiu, e ainda tem muito mais por vir.” Jasmin está sentada no sofá, mexendo no celular. A porta se abre com tudo.] DIGÃO: — SAI DA FRENTE QUE O MAIS LINDO TÁ PASSANDO! Jasmin levanta os olhos e começa a rir alto. DIGÃO: — Tá rindo de quê, horrorosa? — Digão finge estar indignado, colocando a mão no peito. JAS: — A tua mulher que é horrorosa… aquela bruxa! — mostra a língua e dá um beijo estalado no ar como provocação. DIGÃO: — Ai que falta de respeito com a vódrasta do meu neto! Cadê minha cria? Hein? Cadê meu parceiro? Miguel aparece correndo da cozinha com um copo de suco, sorrindo todo animado. Digão o pega no colo com facilidade e o gira no ar. Miguel: — Vooooaaaandooo! - gargalhando alto. HELENA: — Pai! Pelo amor de Deus, não gira ele assim, vai amassar a roupinha! A gente tem horário! —falo descendo as escadas às pressas, já com uma mochila nas costas. DIGÃO: — Sabia que tua mãe é muito chata, meu filho? Parece uma véia de 80 anos! — Benício ri de novo, adorando a bagunça. Meu pai abraça Benício com carinho e fala em tom de brincadeira, me ignorando completamente. HELENA: — Eu tô falando sério, pai… A gente vai se atrasar! - suspiro e reviro os olhos DIGÃO: — Tá bom, tá bom! Já entendi, comandante. Só queria brincar um pouco com o meu neto antes de encarar o trânsito dessa cidade doida. - coloca Miguel no chão, mas ainda com aquele sorrisão no rosto Helena pega uma bolsinha de mão e confere se está com tudo. Jasmin levanta do sofá, estica os braços, fingindo espreguiçar, mas claramente se preparando pra mais alguma piada. JASMIN: — Se atrasar por causa de homem velho que pensa que ainda tem vinte é de praxe, né? DIGÃO: — Me respeita, garota! Aqui é Digão, cria do Vidigal! Tô mais inteiro que muito novinho por aí. - aponta o dedo pra ela, fingindo indignação HELENA: — Tá bom, chega! Bora logo que o dia vai ser longo. E, pai… obrigada por vir buscar a gente. A festa foi um sucesso. A criançada tinha acabado com metade dos balões (como a Jasmin previu), os adultos estavam cansados mas felizes, e o Benício... ah, o Benício dormia no meu colo, exausto depois de tanta brincadeira. Eu estava sentada no jardim da casa, observando os últimos convidados indo embora, quando Kay se aproximou, nervosa, com um pequeno envelope nas mãos. Jasmin estava atrás, segurando o Petra pelo braço com um sorriso malicioso no rosto. Jas: — Vem cá, corno, que a tua mulher quer falar contigo. Mas se prepare... porque é BOM! Petra: — Ué? O que foi agora? Já tô até suando frio. Kay: — Calma, amor. Fica aqui na minha frente, tá bom? – ela respirou fundo, deu um beijo no rosto dele e entregou o envelope. – Quero que você abra isso e me diga o que vê. Ele pegou o envelope com as sobrancelhas franzidas, desconfiado. Abriu devagar, puxando de dentro um ultrassom. Ficou um tempo olhando, tentando entender. Petra: — Isso é… é o que eu tô pensando? Kay: — É sim. – ela sorriu com os olhos marejados. – Você vai ser pai, Petra. Silêncio. Por dois segundos inteiros ele ficou imóvel, olhando pra imagem preta e branca como se fosse um bilhete premiado. Petra: — Caralho... é sério isso? – a voz saiu embargada. Kay: — É sério. Dois meses. E só agora consegui criar coragem de contar. Mas eu queria que fosse especial, porque... você é especial. Petra: — Você tá me zoando? – os olhos dele começaram a brilhar. – Eu vou ser pai? Tipo... pai MESMO? Kay: — Vai sim, babaca. – ela riu, com lágrimas escorrendo. – Vai ter um mini você correndo por aí e enchendo a minha paciência também. Ele deu um passo pra frente e a abraçou forte, tão forte que parecia que ia quebrar ela no meio. E pela primeira vez desde que o conheci, vi o Petra chorando de verdade. Não era choro de dor nem de raiva. Era choro de quem acabou de descobrir que vai amar alguém mais do que ama a si mesmo. Petra: — Eu juro que vou ser o melhor pai do mundo, Gaby. Eu juro. Jas: — AI MEU DEUS, EU TÔ CHORANDO! – gritou, se abanando com um guardanapo. – Isso tá muito filme da Sessão da Tarde! Helena: — Já vai preparar a trilha sonora, Jas? Jas: — Já tô até ouvindo Sandy e Junior na minha cabeça! Todos riram. Kaylane e Petra ainda estavam abraçados, e eu vi no rosto dela aquele misto de alívio e felicidade pura. Era o tipo de momento que a gente guarda pra sempre na memória. Benício acordou no meu colo, com o rostinho ainda inchado de sono. Miguel: — Mamãe... eu dormi? Helena: — Dormiu sim, meu amor. Mas acordou bem na hora certa. Miguel: — O bebê da dinda já chegou? Petra: — Ainda não, campeão. Mas já tá aqui dentro, ó. – ele abaixou até a altura do Benício e apontou pra barriga da Kay. – Tá crescendo aí dentro. E daqui a pouco, você vai ter alguém pra brincar, brigar, e defender igual um irmão de verdade. Miguel: — Uhuul! – pulou do meu colo e foi abraçar a barriga da Kay. – Oi, bebezinho! Eu sou o Miguel, e eu vou cuidar de você. E aí ninguém mais aguentou. Foi choro geral.
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