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1141 Words
HELENA Eu olhei pra cama, pro chão, pra Kaylane… e depois pra mim. O desespero me paralisou por um segundo. Helena: Kay… não é xixi. Minha bolsa estourou! Meu filho vai nascer! – falei com a voz trêmula, já sentindo uma contração forte me dobrar no meio. Kaylane: p**a que pariu! Logo agora? No meio dessa p***a toda?! – ela se levantou num pulo. – Tá sentindo muita dor? Helena: Tá vindo uma atrás da outra! Tá doendo muito, Kay… eu acho que ele quer nascer agora mesmo! Ela pegou o celular, começou a andar de um lado pro outro, nervosa, com a mão no cabelo. Kaylane: Calma, calma! Vou ligar pro Digão… merda, merda! Nenhuma ambulância vai subir esse morro agora com esse tiroteio do c*****o! E se a gente for pra boca, eles metem bala! Outra contração me pegou de surpresa, e eu me ajoelhei no chão gemendo alto. Helena: Kay… eu tô com medo! Meu filho não pode nascer aqui! – meus olhos já estavam marejados. Ela se ajoelhou na minha frente e segurou minhas mãos. Kaylane: Ei! Olha pra mim, respira comigo. Isso! Você não tá sozinha, tá me ouvindo? Eu tô aqui, tá? Se for preciso, a gente vai trazer esse moleque pro mundo aqui mesmo, mas ele vai nascer bem. E você também vai ficar bem! Aquela frase me deu um pouco de força. Ela correu, pegou toalhas limpas, uma garrafa de água, uma tesoura e luvas descartáveis que ela tinha de quando fez um curso de enfermagem, mas nunca terminou. Helena: Kay… cê não vai fazer o parto, né?! – falei entre uma respiração e outra, ofegante. Kaylane: Se precisar, eu vou! Acha o quê? Que só sei mexer com fuzil e batom? – tentou sorrir, mesmo nervosa. – Mas bora torcer pra não chegar nesse ponto. Nesse momento o telefone dela tocou, era o Digão. Kaylane: Alô, Digão?! É a Kay! A Helena entrou em trabalho de parto, a bolsa estourou agora! Tamo presa aqui, o tiroteio tá comendo solto. Tu conhece algum caminho? Ou alguém que possa ajudar? Digão (do outro lado): p***a! Aguenta firme aí! Fica dentro de casa e tranca tudo. Eu vou falar com o Petra, vou tentar dar um jeito. Me dá 10 minutos! Ela desligou e olhou pra mim com expressão séria. Kaylane: O Digão vai tentar descer contigo. Ele vai falar com o Petra pra pedir um corredor, tipo um cessar fogo… pelo menos até vocês passarem. Helena: Isso é possível? Kaylane: No morro, tudo é questão de respeito. E Petra sempre gostou de ti… por ser mulher do Coringa. Ele vai dar um jeito. Mas segura firme. Respira comigo, vai! A dor aumentava, as contrações vinham cada vez mais próximas. Eu suava frio, tremia, mas só conseguia pensar no meu filho. Helena: Luan… se você estiver me ouvindo, me ajuda agora. Protege nosso filho… guia ele até mim com segurança. Por favor… O som do tiroteio aos poucos foi diminuindo. E, como num milagre, o silêncio caiu por alguns segundos. Kaylane: c****e… Acho que o Petra conseguiu. Batidas fortes na porta da frente. Digão (do outro lado): Sou eu! Abre, rápido! Kay correu, destrancou, e Digão entrou todo suado, com o capacete ainda na cabeça. Digão: Bora, bora! O Petra conseguiu segurar os dois lados, mas só temos poucos minutos. Já tem uma van esperando no fim da viela! Ele me pegou nos braços sem nem me perguntar nada. Digão: Aguenta firme, minha filha… seu filho tá chegando. Fecha os olhos e segura em mim, Helena! Só pensa no teu filho. Eu vou cortar tudo, nem que tenha que atropelar meia tropa. E ali fomos. No meio da guerra, no meio do medo, levando uma vida pra nascer. No meio da madrugada, entre becos e vielas, com o coração na boca e uma vida nova prestes a começar. A van balançava pelas ruas esburacadas do morro enquanto eu gemia, apertando a mão da Kaylane com força. Cada curva parecia cortar meu corpo ao meio. Helena: Ai, meu Deus... Eu não vou aguentar, Kay... eu não vou conseguir! Kaylane: Vai sim! Você já passou por coisa pior! Tu é forte, Helena! Tu é filha de quebrada, p***a! E teu filho vai nascer agora, ele tá vindo pro mundo, tá ouvindo? Digão dirigia como se estivesse em fuga, buzinando, gritando com os motoboys que tentavam abrir passagem. Petra realmente tinha conseguido o impossível: um pequeno corredor de paz no meio da guerra. Mas não ia durar muito. Digão: Segura firme! Já tô vendo o hospital lá na frente! Mas o bebê tinha outros planos. Eu senti uma pressão tão forte, tão avassaladora, que meu grito fez o motorista da van quase bater. Helena: Tá coroando! Ele tá vindo! Eu tô sentindo! Kaylane olhou entre minhas pernas, seus olhos se arregalaram. Kaylane: c*****o! Dá pra ver a cabeça dele! HELENA, ele tá nascendo AGORA! Helena: Eu não vou conseguir, Kay... eu tô com medo! Kaylane: Olha pra mim! Cê passou por tiroteio, enterrou o amor da tua vida, sobreviveu à p***a toda... e agora cê vai desistir? NÃO VAI, NÃO! Você vai parir esse moleque como a rainha que é, me ouviu? Digão freou bruscamente em frente ao hospital, gritando por socorro. Enfermeiros correram até a van com uma maca, mas já era tarde demais. Helena: AHHHHHHH! - gritei tão alto que minha voz falhou no final. E então... o choro. O som mais lindo, mais puro, mais forte que eu já tinha ouvido. Kaylane segurava meu filho nos braços, com os olhos cheios d'água e um sorriso tremendo nos lábios. Kaylane: Ele nasceu... Helena, ele nasceu! E ele tá lindo... p***a, que moleque forte! As enfermeiras pegaram o bebê, cortaram o cordão e me colocaram na maca. Eu tremia, não só de dor, mas de alívio, de emoção... de amor. Helena: Cadê ele? Eu quero ele... deixa eu ver meu filho... Me colocaram na sala de recuperação, e minutos depois, uma enfermeira entrou sorrindo, com um pacotinho enrolado num cobertor azul. Enfermeira: Ele tá bem. Forte, saudável... uma bênção. Ela o colocou nos meus braços. E naquele momento, eu senti. Ele me olhou com aqueles olhinhos pequenos e fechados, mas eu soube: era ele. Era o pedacinho do Luan que ficou comigo. Era meu milagre. Helena: Oi, meu amor... mamãe tá aqui. Você chegou no meio do caos, no meio do medo... mas trouxe paz. Você trouxe luz. Kaylane entrou no quarto chorando. Kaylane: Cacete... ele é a cara do Coringa. Mesma boquinha. Tô arrepiada! Helena: Vai se chamar...Miguel! E ali, com ele no colo, eu jurei: ninguém nunca mais ia tirar a paz dele. Nem o mundo, nem o crime, nem o morro. Ele ia crescer em amor, longe do inferno que eu conheci. Era o fim de uma guerra... e o começo da minha redenção.
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