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898 Words
Helena Entrei no fim de tarde, exausta, ajeitando a bolsa no ombro. O céu ardia em laranja e roxo sobre o Vidigal, e eu suspirei, olhando pra cima: > — Até que não foi tão ruim... Caminhei devagar, deslizando os dedos pela tela do celular, quando a voz dele cortou o silêncio: — Ô mina... nem espera o fã número um? Virei o rosto e o encontrei encostado num poste, braços cruzados, sorriso safado. — Você de novo? Sério? — brinquei, revirando os olhos, mas sentindo um sorriso nascer. Ele deu de ombros e andou na minha direção: — Tava passando... aí lembrei que cê sai a essa hora. Coincidência, né? Caí na risada: — Coincidência é você aparecer em todo lugar que eu tô, isso sim! Ele fingiu estar ofendido: — Quer que eu suma? Posso ir, se quiser... Cruzei os braços, fingindo pensar: — Deixa de ser b***a, vai... Ele voltou a andar ao meu lado, e soltou no tom provocador de sempre: — E aí? Primeiro dia na selva, sobreviveu? — Uhum... cansativo, mas bom. A Pri é firme, mas gente boa. Ele me olhou de lado, avaliando: — Você se saiu bem. E de vendedora não tem nada de dondoca, tá? Tava lá toda focada, toda profissional... até me deu bronca. Sorri de canto: — Você mereceu. m*l educado do caramba! Ele riu: — Ah, eu sou gente boa... só dou trabalho quando gosto. O som de um samba distante embalava nossos passos, crianças corriam pra lá e pra cá, o morro respirava vivo ao nosso redor. Então ele ficou mais quieto, mais sincero: — Tu tem um sorriso bonito, sabia? Baixei o olhar, surpresa, sentindo o rosto esquentar. — Faz tempo que ninguém me fala isso... — confessei. Ele sorriu de verdade: — Então acostuma, porque eu vou repetir até tu acreditar. Chegamos na minha casa. Olhei pra fachada simples e falei de brincadeira: — Chegamos... obrigada pela “escolta”. Ele encostou no portão, os olhos ainda em mim: — Eu que agradeço a companhia. Ficamos ali, por segundos que pareceram mais. Ele quebrou o silêncio primeiro: — Amanhã cê trabalha de novo, né? — Todo dia agora, ué. — Então acho que vou começar a passar por ali mais vezes... vai que eu precise de outra camiseta. Dei risada, encostada no portão: — Vai ver tu só quer uma desculpa... Ele me encarou sério, sem desviar: — Talvez... Acenei e entrei. Pela janela, vi que ele continuou ali por uns segundos, me observando sumir pela porta. Fechei os olhos por um instante. Sorri sozinha. Talvez esse recomeço improvável... fosse exatamente o que eu precisava pra voltar a sentir alguma coisa viva dentro de mim. Entrei no quarto exausta, deixando meus sapatos caírem no chão com um suspiro. Me joguei de costas na cama e encarei o teto, um sorriso bobo se espalhando pelo meu rosto. Nem percebi quando a Jas apareceu na porta, com os braços cruzados e um sorriso malicioso. — Ih, olha só quem tá toda boba… — ela cutucou. Virei o rosto, tentando parecer séria. — Para de graça, menina. Ela pulou na cama ao meu lado, toda animada. — Conta… o Kaique te trouxe em casa, né? Eu vi de longe! Pareciam até casal de novela das sete. Me virei de lado e abracei o travesseiro. — Ele só me acompanhou… nem foi nada demais. Jas arqueou a sobrancelha, desconfiada. — Ah, tá… e por que você tá sorrindo assim então? Nem quando como pastel de carne fico assim. Fingi segurar o riso, mas não consegui. Dei um tapinha no braço dela. — Ele é… diferente, sabe? Meio marrento, mas engraçado… e atencioso também. Os olhos dela brilharam de empolgação. — Amiga, já shippei! Pelo amor de Deus, esse homem é um bonde! E se ele tá te cercando desse jeito, é porque gostou MESMO. Suspirei, sentindo o peito apertar. — Só que eu tenho medo, Jas… medo de me envolver e me machucar de novo. Tem tanta coisa aqui dentro que nem sei se já cicatrizou de verdade. Ela ficou séria e pegou minha mão com cuidado. — Amiga, o que eu sei é que você tem um coração gigante. Mas chega de viver pela metade. O Luan sempre vai fazer parte de você, mas isso não quer dizer que você tem que congelar sua vida por causa dele. Assenti, olhando pro teto. — Às vezes parece que, se eu seguir em frente, tô traindo ele. Entende? Jas sorriu, doce. — Não, Helena. Você tá honrando o amor que teve, mostrando pro Benício que dá pra ser feliz mesmo depois da dor. E o Kaique… ele pode ser só o começo de uma nova história. Baixei o olhar, quase sussurrando. — Será? — Só tem um jeito de descobrir. E, sinceramente? Já tá na hora de escrever capítulos novos. Você merece. Ficamos em silêncio, dividindo aquele alívio de amizade que só a verdade e o afeto trazem. Jas se levantou, pegou o celular e voltou com seu jeitinho maroto: — Agora falando sério… se você não quiser, me avisa que eu corro atrás! Porque, ó… aquele homem, misericórdia! Me virei e atirei o travesseiro nela, rindo. — Você é muito cara de p*u! Ela jogou a mão pro lado, gargalhando: — Só tô garantindo meu futuro, ué! E caímos na risada, como nos velhos tempos.
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