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815 Words
Pôr do Sol, Sorvete e Novos Começos Helena Eu estava sentada num dos bancos da pracinha, o olhar perdido no céu que se tingia de laranja e lilás, enquanto observava o Miguel brincar na areia com as outras crianças. Suspirei de leve e pensei: > Como ele cresceu rápido… e como eu queria congelar esse momento. Foi quando senti alguém se aproximar, e ele surgiu segurando um sorvete em cada mão, um à mostra, outro escondido atrás das costas. — Se eu disser que vim até aqui só pra ver esse pôr do sol… você acredita? — ele sorriu. Ri, surpresa, e balancei a cabeça. — Acho mais fácil acreditar que você veio só pra comer sorvete. Ele me entregou o segundo, o de morango com leite condensado — meu favorito. — Errou. Vim te ver. Mas o sorvete é brinde. — ele deu de ombros, satisfeito. — Acertei? Peguei o sorvete quase sem acreditar. — Acer…tou sim. Como você sabia? — Só prestei atenção… uma vez você comentou. Eu escuto mais do que pareço. Nesse instante, o Miguel, todo suado e com o cabelo espetado, abandonou a brincadeira e correu até nós. — Mamãe! Mamãe! A senhora viu eu chutando a bola igual o Neymar? — ele perguntou, cheio de orgulho. Beijei sua testa. — Vi sim, meu amor! Você foi incrível. Kaique se abaixou até ficar na altura dele e estendeu a mão. — E aí, campeão. Tá jogando muito, hein? O Miguel me olhou, depois encarou Kaique, todo tímido, e deu o toque na mão dele. — Você conhece o Neymar? — ele perguntou, curioso. Kaique riu, ajeitou o boné. — Não pessoalmente, mas conheço uns truques que ele usa. Se quiser, te ensino uns dribles depois. O sorriso do Miguel se abriu. — Sério?! Mamãe, ele vai me ensinar!! Sorri, abraçando meu filho. — Se ele tá prometendo… né? Kaique se levantou e sentou ao meu lado no banco, ainda com os sorvetes derretendo. — Ele é um menino especial. Dá pra ver. — ele falou, olhando as crianças brincarem. Olhei pro Miguel com ternura, e logo voltei o olhar pra ele. — Ele é tudo pra mim. Ele me encarou, com uma sinceridade desconcertante. — E dá pra ver que você é tudo pra ele também. Meu peito apertou de emoção, e ficamos em silêncio, só ouvindo o vento e o riso longe das crianças. Então, baixinho, quase num sussurro: — Você me deixa diferente, sabia? Não sei o que é isso ainda… mas é bom. Baixei o olhar, sentindo o coração bater rápido. — Acho que tô começando a gostar do que isso pode virar — confessei. Mais tarde, entramos em casa juntos. O ambiente estava aconchegante, luz baixa, e o cheiro de comida simples tomava o ar. O Miguel já corria pro sofá enquanto eu fechava a porta. — E aí, tio Kaique, caiu de cara na areia de novo? — ele gargalhava, jogando-se no chão. Kaique fingiu indignação. — Mentira! Eu escorreguei porque me distrai com tua mãe rindo de mim. Ri e segui até a cozinha, abrindo a geladeira. — Tá querendo me colocar a culpa na tua queda, é? Ele me acompanhou até o balcão, apoiando o cotovelo. — Tô dizendo que o sorriso dela foi mais perigoso que qualquer drible. Olhei pra ele, o sorriso moleque se abrindo no meu rosto. O Miguel ligou a TV sozinho, ansioso. — Mamãe, tem janta? — Tem arroz, feijão e frango. Mas posso fazer macarronada se vocês quiserem — ofereci. Ele pulou no banquinho. — Macarrão é sucesso! Quer ajuda? Ergui uma sobrancelha. — Você cozinha? — Sei fazer miojo e ovo mexido. Mas posso cortar tomate como ninguém — ele fez um gesto de chef. Peguei um pano de prato e dei um tapinha nele. — Então já começa a ser útil, Chef Kaique. Dividimos o espaço na cozinha, rindo de cada esbarrão e olhando um pro outro com carinho. Enquanto o molho borbulhava, ele se aproximou. — É a primeira vez em muito tempo que me sinto… em casa. Fiquei sem palavras. Ele sorriu e continuou. — Não é só o jantar improvisado. É o jeito que você cuida dele, o cheiro da comida, o som da tua risada… é paz. O Miguel gritou de dentro da sala. — Tá demorando muito aí! Eu tô morrendo de fome! Soltei uma risada. — Tô indo, esfomeado! Quando nos sentamos à mesa simples, o Miguel falou sem parar, e Kaique entrou nas brincadeiras, fazendo caretas que faziam meu filho explodir de rir. Eu só observava, o coração quentinho. — Mamãe, o tio Kaique pode vir jantar mais vezes? — o Miguel perguntou entre uma garfada e outra. Olhei pra Kaique, surpresa. Ele sorriu e respondeu. — Só se a sua mãe deixar. Envolvi o Miguel num abraço rápido e disse, sorrindo. — Acho que ela deixa sim.
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