Pôr do Sol, Sorvete e Novos Começos
Helena
Eu estava sentada num dos bancos da pracinha, o olhar perdido no céu que se tingia de laranja e lilás, enquanto observava o Miguel brincar na areia com as outras crianças. Suspirei de leve e pensei:
> Como ele cresceu rápido… e como eu queria congelar esse momento.
Foi quando senti alguém se aproximar, e ele surgiu segurando um sorvete em cada mão, um à mostra, outro escondido atrás das costas.
— Se eu disser que vim até aqui só pra ver esse pôr do sol… você acredita? — ele sorriu.
Ri, surpresa, e balancei a cabeça.
— Acho mais fácil acreditar que você veio só pra comer sorvete.
Ele me entregou o segundo, o de morango com leite condensado — meu favorito.
— Errou. Vim te ver. Mas o sorvete é brinde. — ele deu de ombros, satisfeito. — Acertei?
Peguei o sorvete quase sem acreditar.
— Acer…tou sim. Como você sabia?
— Só prestei atenção… uma vez você comentou. Eu escuto mais do que pareço.
Nesse instante, o Miguel, todo suado e com o cabelo espetado, abandonou a brincadeira e correu até nós.
— Mamãe! Mamãe! A senhora viu eu chutando a bola igual o Neymar? — ele perguntou, cheio de orgulho.
Beijei sua testa.
— Vi sim, meu amor! Você foi incrível.
Kaique se abaixou até ficar na altura dele e estendeu a mão.
— E aí, campeão. Tá jogando muito, hein?
O Miguel me olhou, depois encarou Kaique, todo tímido, e deu o toque na mão dele.
— Você conhece o Neymar? — ele perguntou, curioso.
Kaique riu, ajeitou o boné.
— Não pessoalmente, mas conheço uns truques que ele usa. Se quiser, te ensino uns dribles depois.
O sorriso do Miguel se abriu.
— Sério?! Mamãe, ele vai me ensinar!!
Sorri, abraçando meu filho.
— Se ele tá prometendo… né?
Kaique se levantou e sentou ao meu lado no banco, ainda com os sorvetes derretendo.
— Ele é um menino especial. Dá pra ver. — ele falou, olhando as crianças brincarem.
Olhei pro Miguel com ternura, e logo voltei o olhar pra ele.
— Ele é tudo pra mim.
Ele me encarou, com uma sinceridade desconcertante.
— E dá pra ver que você é tudo pra ele também.
Meu peito apertou de emoção, e ficamos em silêncio, só ouvindo o vento e o riso longe das crianças.
Então, baixinho, quase num sussurro:
— Você me deixa diferente, sabia? Não sei o que é isso ainda… mas é bom.
Baixei o olhar, sentindo o coração bater rápido.
— Acho que tô começando a gostar do que isso pode virar — confessei.
Mais tarde, entramos em casa juntos. O ambiente estava aconchegante, luz baixa, e o cheiro de comida simples tomava o ar. O Miguel já corria pro sofá enquanto eu fechava a porta.
— E aí, tio Kaique, caiu de cara na areia de novo? — ele gargalhava, jogando-se no chão.
Kaique fingiu indignação.
— Mentira! Eu escorreguei porque me distrai com tua mãe rindo de mim.
Ri e segui até a cozinha, abrindo a geladeira.
— Tá querendo me colocar a culpa na tua queda, é?
Ele me acompanhou até o balcão, apoiando o cotovelo.
— Tô dizendo que o sorriso dela foi mais perigoso que qualquer drible.
Olhei pra ele, o sorriso moleque se abrindo no meu rosto. O Miguel ligou a TV sozinho, ansioso.
— Mamãe, tem janta?
— Tem arroz, feijão e frango. Mas posso fazer macarronada se vocês quiserem — ofereci.
Ele pulou no banquinho.
— Macarrão é sucesso! Quer ajuda?
Ergui uma sobrancelha.
— Você cozinha?
— Sei fazer miojo e ovo mexido. Mas posso cortar tomate como ninguém — ele fez um gesto de chef.
Peguei um pano de prato e dei um tapinha nele.
— Então já começa a ser útil, Chef Kaique.
Dividimos o espaço na cozinha, rindo de cada esbarrão e olhando um pro outro com carinho. Enquanto o molho borbulhava, ele se aproximou.
— É a primeira vez em muito tempo que me sinto… em casa.
Fiquei sem palavras. Ele sorriu e continuou.
— Não é só o jantar improvisado. É o jeito que você cuida dele, o cheiro da comida, o som da tua risada… é paz.
O Miguel gritou de dentro da sala.
— Tá demorando muito aí! Eu tô morrendo de fome!
Soltei uma risada.
— Tô indo, esfomeado!
Quando nos sentamos à mesa simples, o Miguel falou sem parar, e Kaique entrou nas brincadeiras, fazendo caretas que faziam meu filho explodir de rir. Eu só observava, o coração quentinho.
— Mamãe, o tio Kaique pode vir jantar mais vezes? — o Miguel perguntou entre uma garfada e outra.
Olhei pra Kaique, surpresa. Ele sorriu e respondeu.
— Só se a sua mãe deixar.
Envolvi o Miguel num abraço rápido e disse, sorrindo.
— Acho que ela deixa sim.