Jantar Improvisado
Helena
Entrei em casa cansada, mas com um sorriso leve no rosto. O dia tinha sido longo, cheio de afazeres, mas a sensação de voltar para aquele espaço simples, aconchegante, me dava uma paz que eu não sabia que precisava. O sol já se despedia no horizonte, tingindo o céu de laranja e lilás — e eu, por um momento, quis congelar aquele instante.
O Miguel corria pela sala, os pés descalços fazendo um barulho gostoso no piso. Ele ria, brincando com um carrinho que tinha ganhado na escola, e naquele instante eu senti um aperto no peito, uma mistura de amor e gratidão por ter ele ali, vivo e cheio de energia. Enquanto guardava a bolsa no armário da entrada, escutei a voz de Kaique na cozinha:
— Já vou começar a preparar a macarronada. Vocês vão ver, vai ser um espetáculo!
Sorri e gritei para ele da sala:
— Tá bom, Chef Kaique! Mas só não me deixa passar vergonha, hein!
Voltei meu olhar para o Miguel, que se aproximava correndo e se jogava no sofá, ainda animado.
— Mamãe, o tio Kaique vai ficar pra jantar com a gente? — ele perguntou, com aqueles olhos grandes cheios de expectativa.
— Vai sim, meu amor. Ele vai ajudar a gente na cozinha.
Kaique apareceu, todo descontraído, atrás de mim, com aquele sorriso meio moleque que eu já começava a achar fofo.
— Chef Kaique na área. Quero ver se vocês vão gostar da minha macarronada.
Fingi uma cara séria e desafiei:
— Macarronada? Isso aqui vai virar uma competição, hein? Já aviso que não vou deixar barato.
Ele piscou, com o olhar brincalhão:
— Só se você aceitar o desafio.
Enquanto isso, o Miguel, curioso, estava querendo ajudar a gente a preparar a comida. Peguei uma faca de plástico para ele e dei um pedacinho de tomate para que ele cortasse.
— Cuidado, filho, devagarzinho — avisei, atenta.
Ele fez uma carinha de concentração, meio torto, e riu quando a ponta do tomate escapou da faca e caiu no prato.
— Tio Kaique, posso aprender a fazer miojo também? — ele perguntou, todo empolgado.
Kaique se agachou ao lado dele, sorrindo:
— Pode, campeão! Mas o miojo tem seus segredinhos, viu? Vou te ensinar tudinho.
A cozinha era pequena, mas cheia de vida e risadas. Nos esbarrávamos a todo momento, tentando dividir o pouco espaço. Eu pegava a salada e lavava as folhas com cuidado, ele mexia o molho no fogão, enquanto o Miguel, entre uma brincadeira e outra, tentava ajudar.
A cada toque e risada, sentia um calor gostoso no peito. Era como se aquele momento fosse um refúgio, um pequeno pedaço de normalidade e felicidade em meio a tudo que tinha acontecido.
Kaique, de repente, se aproximou, seu olhar mais sério e a voz um pouco mais baixa.
— Sabe, Helena, esses momentos são bons demais. É como se eu finalmente tivesse encontrado um lugar onde posso respirar.
Me virei pra ele, sentindo meu coração apertar.
— Eu também sinto isso, Kaique. É raro, mas quando acontece… é tudo que a gente precisa.
Miguel interrompeu o silêncio, todo animado:
— A comida tá pronta! Vamos comer!
Sentamos à mesa, simples e despretensiosa, mas cheia de vida e calor humano. Miguel começou a falar sem parar, contando histórias da escola, das crianças, das brincadeiras no parque. Kaique entrou na brincadeira, fazendo caretas engraçadas que faziam o Miguel rir até o rosto ficar vermelho.
Olhei para os dois, sentindo uma felicidade serena se espalhar dentro de mim.
— Vocês vão achar que eu tô puxando saco, mas essa macarronada tá demais! — falei, brincando.
Kaique sorriu, como se tivesse ganhado um prêmio.
— Tudo feito com carinho, né? É isso que faz a diferença.
O Miguel, com a boca cheia, falou entre mordidas:
— Mamãe, o tio Kaique pode vir jantar aqui mais vezes?
Olhei para Kaique, surpresa.
— E aí, vai querer fazer mais jantares aqui com a gente?
Ele deu um sorriso leve, cheio de significado.
— Só se a dona Helena deixar.
Envolvi o Miguel em um abraço apertado.
— Acho que ela deixa sim.
Depois do jantar, sentamos na sala, o Miguel deitado no meu colo, exausto, e Kaique do meu lado, com o olhar tranquilo.
Ele falou baixinho, quase um sussurro:
— Eu não lembrava como era bom ter alguém pra dividir as coisas simples. O som da risada do Miguel, o cheiro da comida, o calor da casa… parece que encontrei um lugar onde posso ser eu mesmo.
Eu respirei fundo, sentindo a verdade naquelas palavras.
— Às vezes, a gente se esquece do valor das coisas pequenas, mas é nelas que a gente encontra a força pra continuar.
Kaique segurou minha mão, apertando com carinho.
— Prometo que esses momentos vão ser cada vez mais frequentes.
Sorri, deixando a esperança entrar.
Aquele jantar improvisado não era só uma refeição. Era um novo capítulo. Uma chance de recomeçar. De construir algo bom para mim, para o Miguel, para todos nós.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti que podia sonhar.