Capítulo 1

1166 Words
Dezembro sempre foi o mês do Paul. O mês das viagens de carro com café quente entre nossas mãos, das luzes penduradas de forma desajeitada porque ele gostava de fazer aquilo “a olho”, dos cânticos natalinos que eu fingia odiar e acabava cantarolando sem perceber. O mês em que tínhamos descoberto que seríamos três. Eu não queria voltar para Minnesota. Não queria ver árvores decoradas, nem ouvir o riso de outras pessoas, nem responder a perguntas bem-intencionadas carregadas de pena. Não queria passar o Natal lembrando do que já não estava mais lá. Preferia fugir disso. Congelá-lo. Enterrá-lo debaixo da neve. Paul havia morrido no final de novembro, num acidente de carro. E ele não foi o único que perdi naquela noite. Eu estava grávida de quatro meses. Nosso filho não sobreviveu ao impacto. O carro derrapou para fora da estrada numa zona de obras. Batemos contra a mureta de um pilar de concreto ainda pela metade. Eu não perdi a consciência durante os poucos segundos que a colisão durou, mas soube que tudo havia terminado quando saí do torpor e senti a dor. Uma barra de construção — fina e letal — atravessou a porta do carro e meu abdômen, da direita para a esquerda. Foi rápido. Brutal. Definitivo. Passei semanas no hospital. O carro ficou completamente destruído. Os médicos não paravam de dizer que era um milagre eu ainda estar viva. Ninguém parecia perceber que, para mim, aquilo não era nenhum consolo. Existem noites — especialmente em dezembro — em que ainda pergunto a Deus, ou a quem quer que seja que deva governar este mundo, por que Ele não decidiu terminar tudo ali mesmo, naquele instante. Por que Ele me deixou viva depois de levar meu marido e meu filho na mesma noite? Teria sido mais fácil não acordar. Quando Paul morreu, nossa casa parou de ser nossa. As paredes se fechavam sobre mim. Os objetos, a cama, até nosso animal de estimação… nada daquilo me pertencia mais. Era como se as luzes tivessem se apagado para mim e eu me movesse às cegas pelo mundo, uma prisioneira entre quatro paredes que insistiam em ficar cada vez mais estreitas, selando aquele cárcere invisível ao redor do meu corpo. Eu quebrei. E decidi fugir. Wyoming, em dezembro, era perfeito para isso. A floresta estava coberta por um grosso manto branco, e os pinheiros, carregados de geada, pareciam antigos guardiões — imóveis, silenciosos. Não havia luzes de Natal. Não havia vizinhos. Não havia jantares em família. Apenas o estalo distante do gelo, o vento deslizando entre as árvores e a certeza de que ninguém bateria à minha porta para me desejar boas festas. Com o pouco dinheiro que consegui juntar, comprei uma cabana um pouco afastada da cidade e alguns acres de terra florestal intocada. As árvores me impediam de ver outras pessoas. Às vezes reflito sobre o verdadeiro motivo por trás daquela decisão, e sempre chego à mesma conclusão: aquilo era o maior atrativo. O bosque denso que se erguia entre minha janela e a estrada formava uma parede verde viva e impenetrável. Ninguém podia me ver. Eu não precisava ver ninguém. Eu não queria ver ninguém. Eu não queria falar com ninguém. Eu não queria lembrar. Os pais dele tentaram me ajudar. Os meus também. Éramos filhos únicos ambos. Mas eu não precisava de conforto nem de companhia. Não queria passar o Natal cercada de olhares solidários, jantares forçados, silêncios constrangedores ao redor de uma mesa decorada com luzes. Vendi nossa casa em Minneapolis e fui embora. Prometi que voltaria quando me sentisse melhor. Foi o que eu disse aos meus pais. A verdade era que eu nunca soube o que “me sentir melhor” significava depois de enterrar um marido e um filho que nunca consegui segurar nos braços. Passei os dois anos seguintes isolada na minha cabana em Wyoming. Acabei me acostumando demais com a minha solidão. Meu nome é Johanna Grant. Eu tinha vinte e seis anos, já era viúva e tinha perdido um bebê. Aquela fuga deveria ser temporária. Mas o ar frio de Wyoming, especialmente em dezembro, me fazia bem. Não havia cânticos. Não havia comemorações. O Natal passava debaixo da neve, em silêncio, como se o mundo finalmente respeitasse o meu luto. Não há nada como o silêncio. Estar sozinha era a coisa mais segura. Obviamente, eu estava sozinha na cabana quando aconteceu. Tinha nevado muito, e eu estava bem feliz com isso. A neve me inspirava a criar, e eu conseguia inventar as coisas mais loucas só de ficar olhando fixamente para uma trilha indistinta de animal no manto branco. Podia passar horas olhando aquela trilha. E então — bam — eu me trancava para escrever. Naquela noite, fiquei na frente do computador até as três da manhã. Não queria largar o teclado. Parei a cena quando a protagonista feminina fechou os olhos para descansar, e eu, assim como ela, senti vontade de me deitar e desaparecer do mundo por algumas horas. Eu não gostava de apagar as luzes, mas, caso contrário, não conseguia dormir. Uma lua grande e redonda pendia do lado de fora da minha janela, fazendo-me companhia. Acho que eram quase quatro horas quando, de repente, abri os olhos na escuridão e vi a mesma lua branca através da janela, agora velada por tiras rasgadas de nuvens levadas pelo vento. Eu me ergui no colchão, tentando escutar melhor. Parecia… Alguém estava arranhando minha porta. Um gemido lamentável também. Era um cachorro? Só um cachorro fazia sons assim, eu sabia. Toby, o Labrador de Paul, costumava fazer aquilo quando queria urgentemente entrar e se enroscar aos pés do meu marido. Por algum motivo, o som gelou meu sangue. Mesmo assim, me levantei e desci. Me envolvi num roupão azul grosso e peguei uma vassoura no armário, só por precaução. Me senti ridícula. Era só um cachorro. Talvez o pobre animal estivesse congelando, separado da família e procurando um lugar para passar a noite. Que vergonha. O pequeno animal continuava arranhando a porta com as garras, gemendo, batendo. Na verdade, ele batia com força. Como se estivesse jogando o ombro contra a porta — mas eu não relacionei aquilo a nada na hora. Acendi as luzes do térreo e deixei a vassoura perto do cabideiro. Quando abri a porta, porém, vi uma criança. Ou um filhote. Naquele momento, eu não conseguia definir o que era. Nem consigo descrever o grito que dei quando reconheci sua forma na sombra da varanda. Cambaleei para trás, esquecendo da porta e do fato de que ele poderia entrar, e gritei novamente quando o gemido da criatura ficou mais alto. Ele estava encolhido no chão de madeira e rastejou até alcançar o tapete, o focinho colado rente às tábuas e os olhos fixos em mim, as pupilas extremamente dilatadas pela luz das lâmpadas econômicas. Seus olhos eram grandes, vítreos e azuis. Um azul profundo. Humanos. Humanos demais… Eu subi no sofá e gritei novamente, tremendo inteira.
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