A criatura se agachou e ergueu a cabeça, soltando um uivo lamentável e agudo, entrecortado por palavras desajeitadas. Eu não entendia o que ele estava dizendo, mas estava claro que tentava me contar alguma coisa. Descobrir que o ser podia falar me abalou até o fundo e me deixou paralisada no lugar.
Tola que eu era, bastava olhar para ele para entender.
Era… bem, isso pode parecer inacreditável agora, mas na época, para mim, era ainda mais inacreditável: era um filhote de lobo, com membros muito longos e estranhos para um animal selvagem. Alguma coisa nas articulações não se encaixava à primeira vista. Claro, o que não se encaixava no quadro geral era o fato de ele ter o corpo de uma criança, coberto por uma pelagem branco-amarelada e uma cauda longa e flexível que tentava esconder entre as pernas. A imagem que me veio à mente foi a de uma foto de turma de jardim de infância onde alguém tivesse colado a cabeça recortada de um lobinho de revista no corpo de uma criança pequena. Um filhotinho assim, com orelhas grandes demais, olhos brilhantes e um nariz escuro, tudo em formas arredondadas e juvenis.
Meu Deus do céu…
— Meu Deus do céu, você é um lobisomem! Um lobisomenzinho! — Eu sei que disse.
Então notei o sangue no peito e nas mãos dele, também peludas, com dedos curtos terminados em pequenas unhas que arranhavam meu chão. Apesar disso, ele se movia sem dor, então presumi que o sangue não fosse dele. Do jantar, talvez?
Por favor. Bastou um olhar para aquela coisinha adorável para eu pensar: Sério? Isso é perigoso?
A criatura ergueu um pouco mais a cabeça ao ouvir minha voz; talvez o fato de eu não estar mais gritando o tenha convencido de que podíamos nos entender. Ele se levantou sobre as pernas, que eram pernas normais, humanas, mas cobertas por uma pele branca grossa que parecia macia ao toque, e se virou para a porta. Fez gestos frenéticos com os braços na direção da terra nevada e das árvores, minha fronteira impenetrável.
Eu pisquei, incrédula. Ou talvez não. Mas era o que eu teria feito. Eu entendia e, ao mesmo tempo, não entendia.
Eu ainda não havia reunido coragem suficiente para me mexer de onde estava, mas…
— O que há de errado, garoto? — Perguntei, estupidamente.
A criança abaixou as orelhas e gemeu novamente, apontando para as árvores com mais ênfase. Começou a andar de um lado para o outro, dando alguns passos na direção da escada e depois voltando. Diante da situação, ousei descer do sofá. Não foi difícil identificar o que aquela bolinha branca queria — ele estava me pedindo para segui-lo na direção do bosque.
— O que há de errado? — Perguntei novamente, dessa vez com mais firmeza.
Ele gemeu baixinho, com os dentes cerrados, e eu percebi que estava chorando em sua própria linguagem particular e incompreensível. Olhou para baixo com uma expressão triste demais para as patas manchadas de sangue e a mancha vermelha no peito, e finalmente cobriu o focinho com as duas mãos, encolhendo-se na varanda. Meu coração se partiu ao ver aquilo. Uma parte de mim sentia pena dele e queria abraçá-lo e confortá-lo. Era só uma criança — quem sabia o que tinha acontecido com ele, ou de onde vinha? Ele tremia de frio e de medo. A pelagem estava úmida, suja. Cheirava m*l. Como um cachorro molhado e sujo — um cheiro dolorosamente familiar.
Eu não me mexi, porém.
— Eu sei que você pode falar. Me diga… o que há de errado?
Meu lado cauteloso não conseguia descartar a possibilidade de que fosse uma armadilha, porque, quer dizer — quais eram as chances de que, se aquele pequeno estava à minha porta, não houvesse uma matilha inteira de adultos lá fora esperando para me atacar? Eu deveria ter comprado uma espingarda. Ou aceitado a que meu pai quis me dar quando me mudei para cá, e que eu havia recusado, achando que nesse canto remoto de Wyoming nem o Pé Grande aparecia.
A pequena criatura descobriu o rosto e esfregou os olhos cheios de lágrimas com os punhos, sujando o rosto branco de sangue. Fungou alto e ergueu o focinho de um jeito muito canino. Mas as palavras saíram bem claras, mesmo através das presas de filhote:
— Ajuda, por favor.
Foi só isso que ele precisou dizer.
A voz dele soava muito doce. Muito humana. Era uma criança pequena.
Eu não pensei duas vezes. Tirei um dos casacos grossos do cabideiro e o vesti, calcei as botas, ainda de pijama. Por um momento olhei para o lobisomem-criança e para o jeito como ele tremia. A pelagem não parecia muito preparada para o inverno; era mais como uma penugem grossa, como a de um pintinho. Se olhasse com atenção, o coitadinho era até desengonçado, com rosto e orelhas grandes demais para um corpo tão pequeno, e, de pé daquele jeito, ficava claro que era macho. Ele estava molhado. Estava com frio. Eu nunca fui muito boa em julgar essas coisas, mas achei que ele não podia ter mais de cinco anos. Não era muito alto.
Peguei outro casaco e me aproximei dele com cuidado, para envolvê-lo. Mostrei a peça e gesticulei em silêncio que queria colocá-la nele. Surpreendentemente, a criança não recuou nem entrou em pânico; em vez disso, estendeu as mãos voluntariamente para o casaco grosso — aquelas pequenas mãos com garras ensanguentadas — e deixou que eu o ajudasse a vesti-lo como se já tivesse feito aquilo antes. Aquela criança tinha mãe ou pai, e hábitos humanos. Só uma figura parental ensina você a se vestir na infância. Puxei o zíper até a garganta dele, ajoelhada diante de sua pequena figura. Coitadinho — era quase ridículo. O casaco era enorme nele; as mangas eram compridas demais, chegavam aos pés, mas não atrapalhava muito os movimentos.
Pelo menos ele não tremia mais de frio.
— Obrigado — Disse ele, aqueles olhos grandes fixos no meu rosto.
Correndo o risco de continuar impressionada com a humanidade que ele exalava, pigarreei e continuei:
— Quem precisa de ajuda? — Perguntei, mantendo a seriedade.
— Por favor, venha! Não há tempo! — A criatura me apressou.
Outro gemido da criança me decidiu, e eu me levantei para sair.
— Tudo bem, me leve até lá — Eu disse.
Eu não fazia a menor ideia do que ia fazer nem do que ia encontrar, mas fechei os olhos e me entreguei à vontade de Deus — se Ele estivesse lá e me observando e tivesse vontade de cuidar de mim. Que Ele cuidasse da minha alma, pelo menos, se aquilo não fosse produto de um sonho inquieto sob o luar no meu quarto. Mas meus sonhos geralmente não tinham um toque tão macio nem um cheiro tão forte. Meu Deus — como aquele menino cheirava. Agora que eu corria ao lado dele, com minha mão segurada por sua pequena garra, eu estava perto o suficiente para sentir também o fedor de carniça.
Ele me guiou pelo quintal e para dentro das árvores, mas não estávamos indo na direção da estrada — estávamos indo na direção da montanha, para o norte, na direção do serrado. Eu tinha medo de me perder. Estúpida de mim — eu nem havia pegado uma lanterna. Em que eu estava pensando? Meus sentidos se ajustaram rapidamente ao silêncio, e comecei a ouvir cada som da noite como se fosse uma gravação tocando pelo meu sistema de som, além dos nossos passos. Eu me acalmei um pouco quando percebi que havia luar suficiente para enxergar com clareza. A criatura era muito rápida; era difícil acompanhá-lo, mas depois de uma longa corrida em que atravessamos um pequeno riacho congelado, chegamos a uma área de rochas e pequenos penhascos, árvores caídas e uma grande quantidade de neve acumulada, e…
Eu não sei por quanto tempo eu tinha corrido — não conseguia mais continuar —, mas não estávamos longe da minha cabana, porque quando subimos alto o suficiente entre as árvores, consegui distinguir uma coluna branca de fumaça na noite cristalina. Minha chaminé. Parei por um segundo para recuperar o fôlego, e o lobisomem-criança deu voltas, farejando o ar, gemendo baixinho com urgência aguda.
Só quando ele ficou em silêncio e imóvel foi que consegui ouvir:
— É um bebê chorando? — Quase gritei, apavorada.
Não havia dúvida. Era o choro de um recém-nascido, alto e próximo.