A criança meio que latiu, meio que uivou, e puxou as mangas do casaco enquanto corria para o norte — ou para o que eu presumia ser o norte. Eu não tive escolha a não ser segui-lo. O som desesperado daquele choro me deu energia instantânea. O menino quase sumiu da minha vista por um momento, mas eu o encontrei novamente quando desci do afloramento rochoso, numa barricada de pinheiros caídos cobertos de neve. Ele estava circulando alguma coisa em agitação, e o som do bebê estava mais alto do que nunca.
Antes que eu pudesse alcançá-lo, vi quando ele rastejou por cima dos troncos cobertos de neve e puxou alguma coisa — um embrulho que depois escondeu nos braços. Estávamos muito perto do serrado Berkeley; aquela era uma das áreas de corte deles. Percebi pelo número de toras empilhadas e tocos escondidos debaixo da neve — tocos perigosos. Se eu não tomasse cuidado, podia tropeçar e quebrar o pescoço. A clareira não era natural. Eu franzi a testa e desci pelo barranco…
Eles estavam presos debaixo das toras, fossem quem fossem? Não.
Naquele momento EU NÃO O VI, mesmo ele sendo enorme. Não o vi pois ele era esbranquiçado e não se distinguia da neve acumulada sobre as toras — mas ele estava lá.
Um homem grande, maciço.
Ou devo dizer… um lobo?
Branco, sim; sua pelagem era grossa, como lã, manchada em alguns lugares de vermelho e lama. Uma poça quente e violenta ensopava a neve debaixo dele. O sangue parecia vir do lado dele. O luar tornava a cor ainda mais intensa e visceral. Mais uma vez, a imagem mental me veio à mente sem motivo claro, mas talvez tenha acontecido porque era a maneira mais simples de explicar a mim mesma o que eu estava vendo: a fotografia de um homem cuja cabeça tinha sido coberta com outra fotografia de uma cabeça de lobo, vestido com um casaco muito justo e quente feito de peles de primeira qualidade. Mesmo assim, parecia uma colagem imperfeita demais para descrever a perfeição natural e a harmonia daquele ser…
Cujo fedor de carniça, aliás, também era bastante significativo.
Eu recuei um pouco, instintivamente. Percebi que meus passos tinham me levado bem ao lado daquela enorme criatura branca, que jazia de bruços sobre as toras, pingando sangue no chão coberto de neve. O bebê que o lobisomem-criança segurava começou a chorar novamente, e ele tentou balançá-lo gentilmente em seus pequenos braços. Eu me virei para a criança. O bebê estava pálido de frio, enrolado em cobertores manchados de vermelho e também encharcados de neve.
— Quem são eles? — Tive que perguntar, bem devagar.
O filhote olhou para o lobo maior, que não se mexia, e para uma trilha de sangue que vinha do lado oposto daquela pequena clareira. Eu vi impaciência e medo em seus olhos, que pareciam vítreos e azuis sob a grande lua brilhante.
— Minha família — Gaguejou ele rapidamente. Abaixou as orelhas e a voz dele se quebrou em lágrimas novamente — Por favor, meu pai está muito ferido. Eu imploro, senhora! A senhora tem que nos ajudar!
Mais crianças chorando. Pelo amor de Deus, o que era tudo aquilo?
Eu cerrei os dentes, e a primeira coisa que fiz foi apontar para a casa com o braço totalmente estendido.
— Está congelando aqui fora! Olhe o vapor saindo da sua boca! Volte para a minha cabana e feche a porta, tire esses cobertores molhados do seu irmãozinho e enrole ela no edredom do meu sofá, rápido, antes que ela fique doente! — Eu disse ao lobisomem-criança.
Talvez minha voz o tenha assustado, porque ele deu um pulo e gemeu.
— E o meu pai? — Perguntou ele, lastimoso e desarmante.
— Vou ver o que posso fazer por ele… ele ainda está respirando, e está mexendo as… orelhas. Acho que não está tão m*l, talvez… Vá para a cabana, por favor! E fique um pouco perto da lareira! Mas lave esse sangue primeiro, ande!
Eu não suportava a visão daquele filhote com o rosto sujo olhando para mim com aqueles olhos enormes e cheios de lágrimas. O azul daquele olhar vítreo me destruía, tanto quanto — ou mais que — o choro dele. E o estado do bebê certamente não me ajudava a me sentir melhor. Apontei novamente para a casa com ênfase, e o lobisomem-criança saiu tropeçando, carregando o irmãozinho bebê nos braços.
E o que eu devia fazer sozinha com o pai deles?
Eu nem sabia se conseguiria movê-lo. De novo — em que eu estava pensando? Aquele lobisomem devia pesar pelo menos cento e cinquenta quilos, comparado aos meus meros sessenta! Realmente havia uma poça bastante grande de sangue debaixo dele; talvez ele nem sobrevivesse. Eu me perguntei o que tinha acontecido com ele, mas não foi difícil encontrar o ferimento: quando movi o pesado braço esquerdo coberto de pelagem dele, encontrei dois buracos entre as costelas, na altura do pulmão. Eu tinha visto ferimentos de bala suficientes para reconhecer um quando ele estava bem na minha frente, mas também podiam ser ferimentos de faca — ele podia ter sido esfaqueado com qualquer coisa. Ele parecia bem grave; a respiração era muito profunda, como ronco, mas também soava irregular.
Eu peguei o pulso dele, procurando uma artéria no pescoço — deu trabalho, a pelagem era grossa e o cheiro me repelia — e estava bastante… normal? O que definitivamente não era normal, sem dúvida, era a força com que aquela veia pulsava contra meus dedos, como se ele tivesse o coração de um touro. Poderoso. Invencível. Toda a criatura exalava poder, mesmo inconsciente. Descobri que ele carregava alguma coisa pendurada no ombro como uma bolsa, mas não era exatamente uma bolsa; parecia mais uma camisa amarrada num nó com coisas enfiadas dentro. Eu não ousei tocar nela, só por precaução.
Eu não sabia se devia deixá-lo ali para morrer ou tentar salvá-lo. Eu não sabia nada de medicina. E aquele ser não era humano. Ele podia me machucar. Ou talvez não, considerando que a criança tinha sido civilizada o suficiente para me pedir “por favor” para ajudá-lo. Eu não conseguia decidir o que fazer. Suponho que eu não teria sido tão benevolente se não estivesse tão agudamente consciente das crianças.
As crianças. As pequenas criaturas eram filhos dele.
Não. Eu não podia permitir que aquele lobisomem morresse e os abandonasse. O que eu faria com dois lobisomem-crianças?
Mesmo parecendo uma tarefa impossível no início, consegui arrastar o lobisomem o melhor que pude com minha força limitada, e demorou muito tempo. Pelo menos uma hora. Eu estava encharcada de suor quando finalmente consegui colocá-lo dentro de casa, só com empurrões e a ajuda inútil da criança, que tentava fazer tudo ao meu redor. Deitei o enorme ser canino de costas no tapete perto da lareira e lentamente me deixei cair no sofá, com aquela estranha bolsa — que se revelou uma camisa amarrada, exatamente como eu suspeitava — no chão aos meus pés. Ao meu lado, no canto do sofá, o bebê me olhava com olhos enormes e curiosos, silencioso, enrolado no meu edredom e protegido por dois travesseiros, provavelmente colocados ali pelo irmão mais velho. Ela chupava o punho com avidez.
Era um bebê lindo, com cabelo como penugem fina na cabeça, loiro e de pele branca.
Eu a olhei com dúvida. Ela era muito pequena, minúscula. Um bebê assim não sobreviveria a uma noite congelante por sabe-se lá quantas horas. Imaginei que a herança do pai dela — por assim dizer — tinha muito a ver com aquilo.
Eu fechei os olhos por um momento. Estava muito cansada. Abri-os novamente quando ouvi aquele gemido baixo e agudo mais uma vez, um som que doía nos ouvidos. O choramingo, como soluços. O lobisomem-criança estava ajoelhado ao lado do pai, com as mãos e o peito agora limpos de sangue, mas o focinho coberto de remela amarelada e lágrimas que não saíam tão facilmente do seu rostinho. Eu senti tanta pena ao vê-lo. Ele se deitou ao lado do braço musculoso e coberto de pelagem do pai e descansou o focinho no ombro dele, farejando-o ansiosamente. Sangue pingava no meu tapete, e o cheiro de sujeira de repente ficou muito forte na sala.