Capítulo 4

1378 Words
Aquilo partiu meu coração. Era… eu não sei, tão triste quanto aquela cena em que Simba tenta acordar Mufasa depois do estouro dos gnus. Eu não queria cair no choro ali mesmo; tudo já estava louco o suficiente. Minha casa fedia horrivelmente. Eu mesma fedia — tinha precisado me aproximar daquele ser enorme e carregá-lo contra meu corpo, precariamente, mais de uma vez. O odor dele tinha impregnado todo o meu casaco. Eu me levantei, e a criança se levantou comigo imediatamente. — …Vou procurar alguma coisa para tratar dele. Se o seu pai levou um tiro, eu não posso tirar a bala porque não sou médica e não quero fazer algo que acabe matando ele. Mas vamos esperar para ver; não é como se pudéssemos levá-lo a um médico mesmo, né? — Eu disse, hesitante — Porque… quer dizer, ele tem forma humana? Ou você? Se tivessem, tudo isso seria mais fácil, mas teríamos que explicar às autoridades o que aconteceu… A pequena criatura me seguiu até a lavanderia, gemendo baixinho, meio uivando. Joguei meu casaco fedorento na máquina de lavar e ajeitei as dobras do meu pijama enquanto o observava; a criança arrastava as mangas excessivamente longas do casaco que eu tinha colocado nele pelo chão. Ele fungou para conter o muco que ameaçava escorrer do nariz e limpou o rosto com as costas da mão, cabeça baixa. — … meu pai me disse que, se eu encontrar alguém novo nessa forma, não posso mostrar minha forma humana; e se eu encontrar alguém na minha forma humana, não posso mostrar esta aqui. — Esse é um bom conselho — Comentei baixinho enquanto procurava panos para molhar — Faz sentido. Então, sem forma humana. Nesse caso, tudo o que posso fazer pelo seu pai é colocar uma bandagem nele e esperar que ele melhore, porque eu não vou operá-lo. Você entende? Eu não quero machucá-lo mais. E eu também não queria ter que tocá-lo demais — ele cheirava a cavalo. — Meu pai disse que ele só precisava de um lugar para descansar. Foi isso que ele me mandou procurar antes de desmaiar. Eu fiquei em silêncio por um momento, pensando. — Só descansar? E depois vocês seguem o caminho de vocês? O lobisomem-criança deu de ombros e depois assentiu rapidamente. Ele era tão adorável — especialmente quando uma orelha caía e se dobrava sobre si mesma enquanto a outra ficava erguida. Ele voltou comigo para a cozinha, e eu coloquei água para esquentar imediatamente. — Você vai nos ajudar? — Perguntou ele depois de um instante. — Acho que já estou ajudando. Qual é o seu nome? — Andre. Eu nunca tinha ouvido esse nome antes. Soava estrangeiro. — Tudo bem, Andre. Vocês vão ficar na minha casa por alguns dias; é justo que nos apresentemos. Meu nome é Johanna. Posso saber os nomes deles também? — insisti, apontando com a cabeça para a sala onde estavam o bebê e o outro ser. — O nome da minha irmã é Sasha. E o nome do meu pai é Alexander. Eu também fiquei surpresa com como tudo aquilo parecia fácil. Conversar tão calmamente com um lobisomem-criança enquanto procurava o kit de primeiros socorros para limpar os ferimentos do pai-lobo dele. Claro. Talvez eu não estivesse encolhida num canto, traumatizada, porque uma parte de mim estava cansada demais para lidar com o fato de que eu estava diante de algo que NÃO EXISTIA — pelo menos não para a maioria das pessoas. Alguém ia ter que me dar algumas explicações quando eu acordasse. Havia também a possibilidade de eu ter escorregado no chuveiro, batido a cabeça e alucinado tudo. Que decepção seria se tudo aquilo acabasse sendo uma alucinação. Havia também a possibilidade de ser meu lado psicótico reagindo de forma evasiva ao medo. Porque, claro, uma parte de mim estava aterrorizada — completamente aterrorizada — de que aquele monstro branco, ferido ou não, pudesse se levantar e arrancar minha cabeça com um único golpe de pata. Que pudesse me despedaçar completamente com aqueles dentes terríveis. Ah, sim, porque em algum momento, em algum lugar entre os empurrões e os arrastos, a cabeça dele tinha caído para o lado e as mandíbulas se abriram, revelando presas enormes e afiadas como lâminas. Eu tentei não pensar mais nisso. Subi ao banheiro para pegar o kit de primeiros socorros, mas dessa vez o menininho não me seguiu. Depois voltei à sala com o lobisomem-criança e a família dele, e, pela primeira vez desde que todo aquele desastre começara, sorri para ele. Devagar, com toda a calma que consegui reunir. Notei que aquilo o relaxou, porque o pequeno cobriu a barriga com as mãozinhas por cima do casaco. Mesmo assim, eu conseguia ouvir as entranhas dele roncando. Eu ergui as sobrancelhas e o observei se encolher, envergonhado. — Bem, parece que alguém está com muita fome! Ainda é cedo, mas podemos tomar café da manhã. Se você me ajudar com o seu pai… eu faço alguma coisa para você comer — Ofereci, e o menino me olhou com aqueles grandes olhos azuis, sem piscar — Você gosta de ovos e bacon? Eu faço para você. Primeiro, por favor, me dê uma… mão com isso. Aparentemente, ele achou que era a melhor ideia do mundo. A criança ficou tão feliz que começou a abanar o r**o debaixo da borda do casaco. Não, sério. Ele estava abanando o r**o. Eu pedi que ele me ajudasse, e a tarefa dele consistia em enxaguar os panos manchados de sangue e lama e me entregar tiras de esparadrapo, mas ele se saiu muito bem, considerando que parecia um pequeno animal selvagem e que suas mãos estavam armadas com pequenas garras amarelas. Outro sinal de que eles provavelmente tinham outra vida como humanos. Surpreendentemente, minhas mãos não tremiam enquanto eu lentamente separava a pelagem macia da grande fera branca, procurando os buracos. Era o cansaço falando? Eu não saberia dizer. Uma coisa era certa: meus olhos estavam se fechando, mas eu não ia deixar aquela criança faminta e aquele bebê sozinhos. Meu lugar pacífico já não era mais tão pacífico, e meu mundo acabara de crescer um pouco além do meu quase impenetrável anel de árvores. Quando encontrei o ferimento, meu estômago revirou. Eram realmente dois buracos, mas na penumbra da noite eu não tinha visto o pus nem a profundidade do corte; o cheiro era tão forte quanto — ou mais forte que — o do próprio lobisomem. Eu não sabia o que fazer, mais uma vez. E se minha atenção piorasse as coisas? Ele também não podia continuar sangrando no chão da minha sala. Com um gesto um pouco distraído, limpei o tapete com um pano e esperei meu estômago se acalmar antes de olhar o ferimento novamente. Movimentei o braço inerte e pesado do lobisomem até esticá-lo transversalmente ao corpo dele, e com um pano úmido comecei a limpar. Instintivamente, meu olhar continuava se desviando para o rosto da fera, talvez esperando que ele abrisse os olhos e me encarasse com fúria ou que suas mandíbulas se mexessem, mas não houve resposta. A pelagem dele brilhava com um reflexo alaranjado das chamas da lareira, e tudo o que se ouvia era o tique-taque do relógio de parede e, de vez em quando, os gemidos da criança. O pai só respirava, com um ronco baixo que soava fundo no peito. Devia doer terrivelmente. Eu não tinha nenhum analgésico forte para dar a ele, então decidi parar de sentir pena dele (pena, na verdade?) e me limitar a limpar e enfaixar o ferimento da melhor forma possível, deixando a natureza seguir seu curso. Afinal, não era problema meu. Várias vezes, enquanto tentava fixar o esparadrapo sobre os ferimentos limpos no flanco do lobo gigante (eu deveria ter raspado a pelagem, mas não me ocorreu na hora), me perguntei que diabos eu estava fazendo. Olhei para o focinho lupino imponente e elegante, os dentes afiados por trás dos lábios finos e pretos, e o peito poderoso subindo e descendo com respirações laboriosas, mas firmes, e, honestamente… eu não sei. Poderia ficar mais louco do que isso? Bem, eu ia descobrir quando o pai daquelas crianças acordasse. Se ele não arrancasse minha cabeça antes de se explicar, claro.
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