A próxima prioridade era a menininha. Assim que terminei tudo o que podia fazer pelo pai dela, voltei para ela e a levantei com cuidado do sofá. Ela não pareceu me rejeitar; em vez disso, me observava com olhos tão grandes e azuis quanto os do irmão. Eu não sei se ela estava me estudando ou com medo de mim, mas fiquei grata por ela não chorar. Me encheu de pavor perceber que a pele do rosto dela estava fria e que ela também não cheirava exatamente a rosas; o menino só tinha tirado o cobertor molhado que ela estava usando antes e o substituído pelo meu. Eu a carreguei até a lavanderia, e Andre me seguiu.
Suspeito que ele não gostasse muito de uma estranha cuidar da irmãzinha bebê, mas nenhum dos dois tinha outra opção.
— Você espera um momento enquanto eu cuido dela? Prometo que vamos comer assim que sua irmã estiver limpa — Eu disse a ele, em um tom conciliador.
Ele assentiu e se encostou na borda da máquina de lavar, onde eu tinha colocado o bebê em cima de uma toalha para poder trabalhar. Enquanto desatava o nó de trapos em que a menininha estava enrolada, percebi que eram restos de uma camiseta de algodão de mangas longas. Pelo tamanho, roupa de adulto. Um arrepio percorreu meu corpo, e mais uma vez me perguntei o que tinha acontecido com eles. Em que tipo de situação um pai precisava estar para ser obrigado a usar uma camiseta como fralda da filha? Eu não conseguia imaginar. Assim como também não conseguia imaginar aquele homem-lobo trocando uma fralda. Quando retirei todos os trapos do bebê, além da bagunça que a criaturinha tinha feito (o que não me deixou nenhuma dúvida de que ela, pelo menos, estava sendo alimentada com relativa abundância), notei que a pele da bundinha estava irritada — tanto que o bebê começou a chorar no instante em que toquei nela com um pano úmido.
Ao meu lado, Andre gemeu na linguagem canina dele e esticou o braço na direção dela.
Eu engoli em seco quando vi a mãozinha rechonchuda de Sasha agarrando aqueles dedinhos finos cobertos de pelagem amarelada.
O contraste entre os dois me deixou sem fôlego, desorientada; mas o gesto ajudou a acalmá-la, porque ela parou de chorar aos poucos. Depois de lavá-la da melhor forma possível numa bacia de água morna, tentei aplicar um pouco de pomada de mentol na área irritada (ela chutava as perninhas com uma energia incrível, estava desconfortável e deixava isso bem claro — obviamente não queria que eu continuasse tocando onde doía), e então surgiu o próximo problema: eu não tinha fraldas para colocar nela. Precisava resolver isso se pretendia mantê-la em casa por pelo menos mais algumas horas. Não tive outra escolha senão sacrificar uma toalha velha; afinal, eu não ia sentir falta dela. Acabei enrolando o bebê completamente em outra toalha e depois no cobertor colorido.
A pequenina também não me rejeitou quando eu a acomodei em meus braços, perto do meu peito, nem quando toquei sua bochecha agora livre de toda a sujeira. Na verdade, ela enfiou o rosto contra um dos meus s***s, talvez buscando meu calor. Um calor impossível subiu pela minha espinha e puxou um músculo no meu rosto que me fez sorrir, inconscientemente. Ela ainda podia não cheirar tão bem quanto qualquer bebê comum, mas a nova situação era uma melhora óbvia para a menina: se ela estava limpa, então permaneceria saudável. Ela não parecia doente nem desnutrida. Eu não sabia muito sobre bebês naquela época, mas me achava capaz o suficiente de cuidar dela e do irmão por algumas horas; aquela certeza me enchia de orgulho e também de medo.
Eu observei o rosto de Sasha por um momento; ela, por sua vez, me olhava, embora talvez fosse pequena demais e não conseguisse me distinguir como nada além de um borrão diante dos olhos dela. Mas tenho certeza de que ela sabia que eu estava ali e se sentia segura, talvez por isso tenha me aceitado com calma em vez de explodir em choros de garganta aberta. Meus ouvidos e meu cansaço agradeceram que ela estivesse calma.
Então a barriga de Andre roncou novamente, e eu decidi que já havíamos adiado as necessidades dele por tempo suficiente.
Assim que joguei todos os trapos sujos no lixo, voltamos para a cozinha e eu acendi o fogão. Peguei os ingredientes, deixei o bebê por um momento nos braços do irmão para cuidar de tudo, e enquanto a frigideira esquentava, espiei a sala mais uma vez. Confirmei que o homem-lobo estava dormindo, e mais uma vez senti alívio ao vê-lo assim.
Eu mordi o lábio inferior, insegura, e entrei na sala, contornando o sofá. Não sei o que estava procurando ali, mas não me sentia nem um pouco inclinada a chegar perto demais dele, mesmo que dormindo ele parecesse quase inofensivo. Eu ainda não conseguia acreditar que ele estava ali, que uma criatura assim existia. Quando ele moveu uma pata de forma espasmódica, talvez num sonho, eu pulei, e embora não tenha gritado, tropecei na poltrona e caí sentada. Meu pé bateu naquele embrulho feito de camisa amarrada. Notei o tilintar de objetos lá dentro e lentamente me abaixei para desfazer o nó, nervosa, sem tirar os olhos da figura adormecida do homem-lobo.
Dentro do embrulho havia uma mamadeira limpa, algumas moedas, uma caixa de analgésicos com poucas pílulas restantes, um saquinho com pó amarelado que cheirava a leite, um pacote quase vazio de lenços umedecidos e um chocalho quebrado. O chocalho não tinha conserto; só consegui aproveitar os analgésicos e a mamadeira, talvez até o leite…
Eu não percebi o quanto minhas mãos tremiam até me ver de volta na lavanderia, depois de jogar o embrulho com tudo descartável no lixo. Fiquei ali um momento, com as moedas apertadas no punho. Elas não chegavam a quatro dólares. Mais uma vez, todo tipo de dúvida me assaltou. Para onde ele planejava ir a pé, ferido, com as crianças, no início do inverno e com apenas algumas moedas? Ou com aquela camada grossa de pelagem e aquele focinho incomum plantado no rosto. Eu não conseguia entender. E aquilo me assustava, mas eu estava tão cansada que não sabia direito o que pensar.
Também não percebi que Andre estava me observando, até ouvi-lo dizer:
— A senhora está bem, Sra. Johanna?
Eu me virei para olhar para ele; o menino estava parado na porta, com a irmã chupando o punho novamente. Os dois estavam com fome, e ali estava eu, perdendo tempo.
— Sim, sim; estou bem — Respondi, pigarreando. Alisei o cabelo com um gesto descuidado; minha trança já tinha se desfeito e minha aparência certamente não era a mais apresentável àquela hora, mas não era prioridade — Não há nada de errado. Parece que seu pai está dormindo e vai continuar assim por um bom tempo. Vamos, vamos fazer o café da manhã.
Enquanto o bacon e os ovos fritavam, esquentei um pouco de água no micro-ondas e dissolvi algumas colheradas da fórmula do saquinho para preparar a mamadeira do bebê. Eu não sabia quanto dar a ela, então preparei só um quarto da mamadeira e calculei que, se ela ficasse com fome novamente em pouco tempo, poderia alimentá-la de novo. Também não queria dar muito de uma vez ou causar uma dor de barriga que a fizesse chorar sem parar. Calculei que a pouca fórmula que havia no saquinho daria para preparar mais um quarto de mamadeira, e só. Eu tinha maçãs na geladeira, podia fazer um purê de frutas para ela, mas não tinha certeza de nada.
Eu não estava preparada para ter um bebê em casa, nem aqueles seres estranhos.
O principal inconveniente era que eu ainda não tinha uma ideia clara da verdadeira magnitude do problema em que estava me metendo.