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**Aline Narrando**
Helena dormia cedo, por volta das 20h, e depois disso eu tinha a noite toda livre. Já fazia quase uma semana que eu estava cuidando dela, e percebia que, a cada dia, ela se acostumava mais comigo. Eu via Carlos todos os dias à noite, já que ele ficava com Helena durante o dia. Ele era muito atencioso com ela, e eu sabia que tinha feito a coisa certa ao deixá-la lá. Ela gostava muito dele, isso era claro pelos sorrisos que ela lhe dava sempre que o chamava de "papai".
Como ainda era cedo e o horário de verão fazia o sol se pôr mais tarde, decidi sair para caminhar no calçadão em frente ao prédio. Comprei uma água de coco e me sentei para admirar a praia. Fazia tanto tempo que eu não via uma. O tempo parecia ter parado desde que eu caí na maior cilada da minha vida com Maurício. E agora, o que seria do meu futuro? Eu não sabia. Mas uma coisa era certa: eu queria estar ao lado de Helena, e para isso eu faria qualquer coisa.
De repente, escutei uma voz familiar:
- Leo, você não pode fazer isso! - Olhei para trás e vi uma mulher discutindo com Leonardo.
- Acabou, Luiza - Ele disse de forma firme.
- Você tem outra, não tem? - Ela perguntou, e ele respondeu com frieza.
- Você que me traiu, Luiza. Acabou. Não me procure mais.
A discussão continuou por mais um tempo, mas logo a mulher se foi, batendo os pés irritada. Voltei minha atenção para o mar, mas logo senti a presença dele ao meu lado no banco.
- Brigas de casal? - Perguntei, tentando quebrar o silêncio.
- Ela é surtada. Não larga do meu pé - Ele respondeu, com um tom de frustração.
- E você? - Ele me olhou curioso. - Não tem namorado?
- Não - Respondi, sem hesitar.
- Bonita desse jeito, deve estar sozinha porque quer - Ele disse, me deixando um pouco sem graça.
- Realmente, é porque eu quero - Falei, tentando manter a conversa leve. - Acabei de sair de um relacionamento meio abusivo.
Ele me encarou, sério.
- Por isso você veio embora de Minas? - Ele perguntou.
- Não - Respondi, negando rapidamente. - Não tem nada a ver com isso.
- Eu sou policial. Sei muito bem quando alguém mente - Ele disse com um olhar penetrante. - Você fugiu dele, foi isso?
- Não - Respondi novamente, já um pouco incomodada. - Eu vim para cá para conseguir um emprego e ajudar meus pais.
- Seus pais moram lá? - Ele perguntou.
Respirei fundo, tentando manter a calma para continuar com a mentira.
- Sim, minha mãe está doente e preciso ajudá-los - Falei, torcendo para ele não perceber a falha.
- Ela tem o quê? - Ele perguntou, com um olhar curioso.
- Nossa, estou em um interrogatório? - Perguntei, tentando desviar, mas ele sorriu.
- Quem sabe - Ele disse.
- Eu vou voltar. Vai que a Helena acorde e seu pai precise da minha ajuda - Falei, tentando mudar de assunto.
- Espera - Ele disse, me segurando levemente. - Helena não acorda depois que dorme.
- Mas eu prefiro voltar - Respondi rapidamente.
Ele assentiu, e eu segui de volta para o prédio, esperando que ele acreditasse na história que eu estava contando. Caso contrário, as consequências poderiam ser desastrosas.
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Cheguei em casa e encontrei Carlos tomando café.
- Bom dia - Disse, tentando soar natural.
- Bom dia, Aline - Ele respondeu com um sorriso.
Fui até o quarto de Helena.
- Bom dia, princesa - Acordei ela suavemente.
- Bom dia, tia - Ela respondeu com voz sonolenta.
- Vamos nos arrumar - Falei, ajudando-a a se sentar na cama.
Helena já estava com quatro anos e, para sua idade, era muito esperta. Ela entendia tudo o que dizíamos, e isso me encantava cada vez mais.
O dia foi agitado, com aula de balé pela manhã, natação à tarde e, depois, uma ida ao parquinho.
- Sorvete! - Ela exclamou, com os olhos brilhando.
- Não sei não, você comeu toda a comida? - Perguntei, ainda a segurando no colo.
- Comi sim - Ela respondeu com convicção.
- Brócolis também? - Perguntei, e ela assentiu com a cabeça.
- Então acho que você pode ganhar um sorvete - Falei, sorrindo.
- Eba! - Ela exclamou, batendo as mãos, e eu não consegui evitar de rir.
- Dois sorvetes de chocolate - Pedi para a atendente, enquanto colocava Helena na cadeirinha para crianças.
Mais um dia estava terminando. Coloquei Helena para dormir, dei-lhe um beijo na testa e contei-lhe uma história. Logo, ela estava adormecida, tranquila. Eu suspirei aliviada por mais um dia ao seu lado.
- Aline - Carlos me chamou, batendo na porta do escritório.
- Você queria falar comigo? - Perguntei, entrando em sua sala.
- Sim, quero te entregar sua carteira - Ele disse, estendendo-me o objeto.
- Obrigada - Respondi, sentindo um alívio profundo. Ele conseguiu me registrar, mesmo com o sobrenome falso.
Saí da sala, fui até a geladeira, peguei a jarra de água e comecei a beber. De repente, uma lembrança de Maurício veio à minha mente.
**Flashback On**
- Se um dia você fugir de mim, eu te encontro e te mato - Ele gritou, segurando meus cabelos. - VOCÊ ENTENDEU? - Ele gritou.
- Entendi - Respondi, chorando.
- Eu deveria te matar - Ele falou, apontando a arma para mim. - É isso que eu vou fazer. - Ele destravou a arma.
**Flashback Off**
- Aline? - Senti alguém me tocar e, assustada, deixei o copo cair no chão.
- Calma, está tudo bem? - Olhei para Leonardo, e de repente me lembrei do dia em que ele me deu seu colete.
- Sim, está tudo bem, Leonardo - Respondi, indo pegar a vassoura.
- Deixa que eu te ajudo - Ele disse, pegando a pazinha. - Não queria te assustar. Você estava pálida.
- Estava distante apenas - Falei, tentando disfarçar.
- Pensando na sua mãe? - Ele perguntou, e eu assenti.
- Eu fico muito preocupada com ela - Respondi, sem conseguir disfarçar a tristeza.
- Entendo - Ele disse, me observando. Quando me levantei, quase esbarrei no rosto dele, pois ele também estava se levantando. Ficamos nos encarando por alguns segundos.
- Eu ainda tenho a impressão de que te conheço - Ele disse, com um olhar confuso.
- Eu vou dormir, obrigada pela ajuda - Falei, tentando fugir do assunto. Fui para o meu quarto, tranquei a porta e respirei fundo, sabendo que as mentiras poderiam me consumir.