Epílogo
A primeira vez que ouvi meu coração quebrar, eu tinha apenas oito anos, não foi um som real, ninguém além de mim poderia ouvi-lo. Não houve sangue, gritos ou lágrimas naquele instante, apenas o silêncio. Um silêncio pesado e sufocante que caiu sobre mim quando Kael soltou minha mão diante de toda a alcateia e se afastou como se eu fosse algo impuro, algo errado, algo que ele não suportava tocar por muito tempo.
Eu me lembro perfeitamente daquela noite, a fogueira central queimava alta no meio da aldeia, iluminando os rostos felizes dos membros da alcateia Black Moon, o cheiro de carne assada misturava-se ao perfume húmido da floresta depois da chuva, e as crianças corriam entre as mesas enquanto os adultos riam e bebiam, tudo parecia quente, vivo, familiar.
Tudo, menos eu.
Kael estava ao meu lado até poucos segundos antes, eu segurava sua mão com força porque odiava multidões e porque, naquela época, ele ainda era o único lugar onde eu me sentia segura. Ele tinha quinze anos e já era maior do que quase todos os guerreiros da alcateia. Forte, silencioso e assustadoramente bonito, mesmo tão novo, todos o admiravam, todos o respeitavam, eu também.
Talvez mais do que deveria.
Mas então um dos anciões se aproximou sorrindo e disse algo que eu nunca esqueci.
“Vocês dois parecem filhos da própria Deusa da Lua. Kael protege essa menina como se ela fosse destinada a ele.”
Naquele instante, os dedos de Kael endureceram ao redor dos meus, seu corpo inteiro ficou tenso.
E então ele soltou minha mão tão rápido que parecia ter sido queimado pelo meu toque, lembro-me do olhar dele desesperado, com pânico e raiva.
Uma mistura tão intensa que mesmo uma criança foi capaz de perceber que havia algo profundamente errado.
— Nunca diga isso outra vez — ele rosnou para o ancião.
A música ao redor parou, as conversas cessaram e todos olharam para nós.
E eu fiquei ali, pequena e confusa, tentando entender o motivo de Kael estar olhando para mim como se eu fosse o pior dos pecados.
Naquela noite, ele não voltou para casa, nem na noite seguinte, nem na outra.
Depois disso, tudo mudou, Kael começou a desaparecer sempre que eu entrava em algum lugar, parou de jantar conosco, parou de falar comigo. Se eu tentava abraçá-lo, ele se afastava, se eu chorava, ele fingia não ouvir. E quanto mais eu crescia, mais c***l aquela distância se tornava.
Eu não entendia, passei anos tentando entender.
Havia noites em que eu ficava sentada no parapeito da janela do meu quarto observando a floresta escura, esperando ver Kael voltando do treinamento. Às vezes eu o via ao longe, atravessando as árvores como uma sombra enorme e silenciosa. Meu coração disparava imediatamente, como se apenas enxergá-lo já fosse suficiente para me fazer respirar melhor, mas então ele levantava os olhos, nossos olhares se encontravam e ele ia embora.
Sempre embora.
Como se fugir de mim fosse a única coisa que o mantivesse vivo.
Os anos passaram assim, dolorosos, confusos, solitários.
A alcateia inteira percebia o modo como Kael me evitava, e as pessoas começaram a fazer o que fazem de melhor, criar histórias cruéis. Alguns diziam que eu era amaldiçoada, outros sussurravam que Kael me odiava por causa da morte da nossa mãe, que morreu logo depois do meu nascimento. Havia ainda os que acreditavam que eu trazia fraqueza para a linhagem do Alfa.
Porque eu nunca fui como os outros lobos, enquanto os jovens da alcateia despertavam seus instintos cedo, eu permanecia… vazia.
Sem loba, sem ligação, sem nada, eu era um erro dentro de um mundo onde erros não sobreviviam por muito tempo.
E ainda assim, apesar de tudo, Kael continuava me observando.Sempre, mesmo quando fingia indiferença, mesmo quando me tratava com frieza, mesmo quando me destruía aos poucos.
Eu sentia seus olhos sobre mim, na sala de jantar, nos treinos, nas cerimônias, como um predador vigiando cada passo meu.
Como alguém tentando desesperadamente controlar algo monstruoso dentro de si.
Mas eu era jovem demais para entender, ingênua demais para perceber.
Foi apenas anos depois, na noite do meu décimo oitavo aniversário, que o verdadeiro horror começou.
Aquela noite ainda vive dentro de mim como uma cicatriz aberta, a lua estava vermelha, não parcialmente avermelhada, completamente vermelha.
Os anciões chamavam aquilo de Lua de Sangue, um evento raro que acontecia quando a Deusa desejava revelar verdades escondidas. Toda a alcateia se reuniu na clareira sagrada para minha cerimônia de despertar, embora poucos realmente acreditassem que algo aconteceria comigo.
Eu conseguia ouvir os sussurros:
“Ela não tem loba.”
“Talvez seja humana.”
“Uma vergonha para a linhagem do Alfa.”
Cada palavra atravessava minha pele como vidro, mas nada doía mais do que Kael.
Ele estava parado perto das árvores, distante de todos, vestido inteiramente de preto. Seus braços estavam cruzados diante do peito e seu rosto permanecia mergulhado em sombras, frio, intocável.
Ainda assim, meus olhos insistiam em procurá-lo, sempre ele.
A cerimônia começou, os anciões cantaram em volta da fogueira enquanto eu permanecia descalça no centro da clareira, tentando ignorar o nervosismo esmagando meu peito. O vento ficou mais forte, as árvores começaram a balançar violentamente e então uma dor absurda atravessou meu corpo.
Eu caí de joelhos, gritei, senti algo rasgando minhas veias por dentro.
Ouvi murmúrios assustados ao redor, mas nada se comparou ao que aconteceu depois.
Um rugido ecoou pela floresta, profundo, primitivo, animal.
Todos se viraram imediatamente para Kael, seu corpo tremia, os olhos dourados brilhavam de maneira sobrenatural.
E havia dor no rosto dele, uma dor tão brutal que quase parecia desespero, então sua loba falou.
Não.
Ela não falou, ela reivindicou.
A palavra atravessou a clareira como um trovão.
“Companheira.”
O mundo inteiro parou, o vento cessou, os anciões empalideceram e meu coração simplesmente deixou de bater, porque companheiros destinados não escolhem, a Deusa escolhe.
É um vínculo sagrado entre duas almas criadas uma para a outra, irreversível, eterno.
Mas Kael era meu irmão, meu irmão...
Lembro do horror estampado no rosto das pessoas, das mulheres cobrindo a boca em choque, dos guerreiros se afastando lentamente, do silêncio grotesco que tomou conta da clareira.
E lembro principalmente de Kael, ele me encarava como um homem condenado, como alguém que passou anos lutando contra um destino impossível… e finalmente perdeu.
Então ele fugiu, transformou-se diante de todos e desapareceu floresta adentro.
E eu fiquei ali, sozinha, quebrada, sem entender se aquilo era uma maldição ou o começo da verdade mais c***l da minha vida.
Naquela mesma noite, descobri que nada do que vivi era real, meu pai não era meu pai.
Minha mãe guardava segredos que morreram com ela.
E Kael…
Kael nunca foi realmente meu irmão, mas às vezes acho que essa foi a parte menos assustadora, porque o verdadeiro terror começou quando percebi que uma parte de mim nunca quis que ele fosse.
E isso deveria ter me destruído, talvez tenha destruído, porque desde aquela noite, algo dentro de mim acordou também.
Algo antigo, algo selvagem, algo que sussurra meu nome no escuro enquanto a lua observa cada um dos meus passos.
Agora a alcateia está dividida, há aqueles que acreditam que nosso vínculo é sagrado, e há aqueles que preferem nos ver mortos antes que a profecia se cumpra.
Porque existe uma profecia, sempre existiu. Uma profecia sobre a filha da lua sangrenta, sobre o Alfa marcado pela morte e sobre um amor capaz de destruir alcateias inteiras.
Meu nome é Selene Valemont, e esta não é uma história de amor.
É a história de como o destino me transformou na ruína de um homem e ele na minha.